| By e-vai | Ana Ferreira | Voyeur Project View,
on 08-12-2008 16:21
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Três exposições estão patentes até 2 de Janeiro de 2009 na Voyeur Project View, em Lisboa. Em “Peep Hole, Paula Prates intervem na percepção espacial, em “Web Cam” apresentam-se um conjunto de vídeos anónimos criados a partir de imagens da internet e em “Screen” Paulo Nisa expõe instalações vídeo.
Sobre a mostra de Paula Prates escreveu Ana Ferreira, em Maio deste ano: “A monocularidade imposta pelo peep-hole tem consequências directas ao nível do cálculo das distâncias e da profundidade de campo. Habituado a regular-se pela visão estereoscópica, o cérebro humano perde as referências da tridimensionalidade, promovendo uma laminação do espaço apercebido. A intervenção que Paula Prates propõe para o Voyeur Project View assume precisamente o jogo entre o espaço e a limitação da visualidade que lhe está associada, ao transpor para o âmbito da escultura o anverso de uma estratégia própria dos suportes bidimensionais. A ilusão da tridimensionalidade na pintura e no desenho compreende-se enquanto estratégia de reconhecimento e de aproximação a um real familiar. Mas o que dizer de uma forma tridimensional cujas contingências da sua percepção fazem com que se comporte como um holograma? A forma no espaço impõe-se como imagem no espaço – o objecto vive como uma aparência de si mesmo, da sua própria tridimensionalidade, iludindo-nos na assunção platónica das distâncias entre ideia, cópia e simulacro. Há, com efeito, uma espécie de humildade nesta estrutura que se delineia luminosamente no espaço como se fosse um simples esboço da sua própria forma. Estratégia catártica de simplificação? Estratificação entre forma, espaço e percepção? Falácia dos sentidos? Talvez o caminho seja apontado pelos desenhos expostos na sala contígua. Nestes desenhos a perspectiva é clara, também ela sem pontos de vista múltiplos. Permanece porém uma certa desorientação. As formas do desenho multiplicam-se de modo ora estilhaçado, ora gnómico, parecendo querer transbordar de forma impetuosa os limites da sua superfície, atingindo-nos e integrando-nos na imagem caleidoscópica de geometrias variáveis. Entre a minúcia destes desenhos a grafite e a lhanura da forma que habita o espaço, o encontro dá-se numa organicidade oculta por detrás do traçado que as estrutura e que estabelece um núcleo de coerência relativamente aos anteriores trabalhos de Paula Prates,baseados na desconstrução digital de imagens de órgãos humanos. Aqui, tal carácter orgânico exterioriza-se na pulsão de vida que parece animar qualquer uma das composições. Nas obras bidimensionais, exterioriza-se pelo cunho dinâmico, expansivo, das formas que avançam para nós; na estrutura tridimensional, exterioriza-se pela modelação lumínica articulada entre o branco das arestas e a luz negra que com elas convive no espaço – em ambos os casos há uma florescência do desenho que o torna trama viva.” Sobre a iniciativa “Anonymous Workers”apresenta-se um texto de autor igualmente anónimo: “"Anonymous Workers", tal como o nome indica é uma exposição colectiva de autores anónimos. O ponto de partida para a sua concepção foi o convite feito a vários artistas para trabalharem sobre pequenos filmes retirados da Internet. Os filmes deviam ter cariz erótico e serem constituídos por actores e realizadores desconhecidos. Os artistas intervenientes trabalharam os vídeos através da manipulação da imagem, realizando novas montagens ou inserindo novos sons sobre os "clips". A exposição apresenta um conjunto diverso de vídeos, no qual o espectador constrói o seu percurso numa viagem erótica ao século XX.
De acordo com o dicionário, "autor" é sinónimo de "causa principal de" e palavra de "autoridade". Por isso, remete para aquele que tem uma conduta ética respeitável. É um bom-nome, mas ao longo da história pode encontrar-se diversos trabalhos publicados anonimamente ou através de um pseudónimo para evitar a descoberta do seu autor legítimo. Estas publicações contêm material erótico ou politico de natureza controversa. Estes trabalhos artísticos anónimos, ou de criadores desconhecidos servem para proteger os criadores de possíveis prossecuções e para proteger as suas reputações como criadores credíveis.” A instalação vídeo de Paulo Nisa, apresenta obras de 2008 que procuram tirar partido das especificidades do espaço em que é exibida. A instalação consiste na convivência de duas projecções em paredes opostas. Estas projecções relacionam-se entre si em termos de semelhança e de diferença, consistindo ambas, à partida, num plano fixo idêntico, captado no mesmo décor e repetindo-se ainda a posição de câmara e o enquadramento, editadas posteriormente em loop. Numa das projecções, correspondente à parede esquerda, pode ver-se um cadeirão vazio, não decorrendo qualquer acção. Na outra projecção, correspondente à parede direita, uma mulher entra em campo e circula pelo espaço até finalmente se sentar e recostar nesse cadeirão. Daí mantém um diálogo com alguém que se encontra em off, diálogo inaudível, uma vez que a instalação não tem qualquer som. Depois de algumas "falas", um homem entra igualmente em campo e acaba por se ajoelhar diante dela. Os dois beijam-se, após o que se levantam e afastam, saindo de campo e deixando o cadeirão de novo vazio. Deste modo, ambas as projecções coincidem ciclicamente uma com a outra, nos momentos em que nem a mulher nem o homem estão em campo na projecção da parede da direita, vendo-se em ambas apenas o cadeirão vazio. Ao recomeçar o loop e a acção a diferença entre as duas é mais uma vez evidenciada.
Esta diferença baseia-se num sentido de contradição fundamental. A convivência num mesmo espaço de duas representações incompatíveis do mesmo décor (o cadeirão vazio e o mesmo cadeirão como elemento de uma acção dinâmica) provoca uma tensão figurativa, ou pré-narrativa, que por sua vez promove uma reavaliação daquilo que é visível. Em relação com a imagem do cadeirão vazio, que lhe é aparentemente contemporânea (pela semelhança de condições de captação e pela simultaneidade simétrica de exibição), a cena dos amantes parece perder o seu valor de evidência, puramente visual, para dar lugar a dúvidas relativas ao seu estatuto documental. |