plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Opinião/Crítica arrow “Salão de Outono”  
09-Fev-2012
“Salão de Outono” PDF Imprimir e-mail

By André Poejo, on 10-12-2008 23:09

 Publicamos o texto de André Poejo sobre a exposição “Salão de Outono” de Gonçalo Pena, a decorrer na Galeria Graça Brandão, Lisboa, até 31 de Dezembro.

Perante uma folha onde estavam impressos, à guisa de prova de contacto, uma série de pequenas imagens do trabalho recente deste pintor, fui transportado de novo aos albuns de cromos de finais dos anos setenta em offset ordinário. Havia então uma colecção cujas imagens se mistificaram como geniais na minha memória: a História do Homem e os seus répteis jurássicos bem enquadrados no meio de uma vegetação atafulhada.

À primeira vista parece uma colecção de figuras sem rumo. Visita-se um wunderkabinett em cada uma destas grandes telas. O que as liga é uma retórica heróica usada mas afónica. Uma dramaturgia meteorológica. Rica em fenómenos, precipitações e calhaus de granizo, mas aparentemente sem qualquer sentido conceptual. Escrevo “aparentemente” porque após um exame mais detalhado descobrimos as fissuras mal disfarçadas das diferenças da qualidade de objectos, características dos processos de colagem; algumas destas superfícies pintadas resultam de um processo de justaposição imediatista de images trouvées. O esqueleto articulado por estas associações e apropriações, oculto debaixo da pele velada do claro-escuro, é cru.

Debaixo da sedimentação pesada parecem restar quase sempre ruínas. Do outro lado, oposto a estes dejectos contrapõe-se uma representação desiludida do esforço, sustida na própria rapidez de execução ou o retrato do mesmo corpo insistido, o do autor. O fio condutor do que vai acontecendo na pintura é um caleidoscópio psíquico, uma tripe outonal mal disfarçada, contos decadentistas de travo simbolista, onde por vezes algum sentimentalismo mofo aflora. É um tráfico indeciso entre o respeito clássico e o desejo incontido de dissolução aquosa. São transformações fortemente codificadas de textos por meio de figuras de substituição, onde o destinatário é singular e simultaneamente difuso.

A base de dados de onde surgem estas imagens é inesgotável. Corresponde, em potencial, à totalidade da herança visual do legado pictórico, conjurado sob a forma de uma espécie de arqueologia que o materializa em depósito, num terrível salão de museu imaginário repleto de biscuit, zinn-figuren, um memorial da batalha de Alhos-Vedros. O peso excessivo e gorduroso destas imagens constitui-se como paradoxal ao desejo e promessa libertária expressa. É a ambição enciclopédica desmesurada do poder que traz em si a ameaça de cegueira e para já, o presente de uma claridade toldada.

   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >