| By Maria do Mar Fazenda,
on 10-12-2008 23:33
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Publicamos o texto “Nada é mais astuto do que uma ilha” de Maria do Mar Fazenda sobre a exposição de desenhos de Mattia Denisse, "As ilhas desertas", patente na Galeria Graça Brandão, Porto, até 31 de Desembro.
Peço este título de empréstimo de uma outra passagem dessa viagem interior que Michaux perfez ao longo da linha meridional, atravessando os Andes, as montanhas do Equador e as florestas do Brasil, até chegar à foz do Amazonas; essa relação da vida com a sensibilidade das coisas, da resistência dos materiais e do corpo, da observação concreta e material da natureza em contraponto a convocações de outras experiências, sem nunca abandonar o ponto de partida: a vivência de um determinado ambiente, contexto, perturbação ou fragilidade. Esta homenagem às coisas do mundo da experiência sensível lembram também Francis Ponge e os seus “poemas”, como em Le parti pris des choses. Uma laranja, o pão ou uma concha são espaços onde cabem o mundo. Serão também o mapeamento vivencial que organiza as paisagens propícias (Ruy Duarte de Carvalho) ou a profundidade de uma Paisagem com inundação (Iosif Brodskii) que direccionam o olhar, coordenam o posicionamento e que, literalmente, regem as viagens de Mattia Denisse? Nada é mais astuto do que uma ilha. Veja-se o volume de uma ilha: por maior que seja a sua dimensão esta é sempre de-limitada, vagamente concêntrica e de possível reprodução mental, no seu percorrer, ladear ou contorno. E essa tensão com o mar. A ilha por mais insular vence sempre com a força da presença do mar. E por essa via a experiência das ilhas é sempre da ordem da memória. Os desenhos reunidos em “As ilhas desertas”, realizados durante o período de 2007-2008, apresentam-se em folhas de papel frágil, de cor parda ou de areia, de dimensões próximas da proporção familiar do A4, onde o desenho inscrito a grafite apensa pontes e penínsulas a este território ímpar, induzindo-nos a fragmentos de uma paisagem construída no cruzamento de memórias com o quotidiano ou com relatos de um rumor. Um território onde tudo se visiona, por ilusão óptica, disfunção neurológica, desgaste físico ou afectivo da desidratação ou isolamento. O desenho: uma linguagem astuta em que a grafia é composta por pequenos detonadores de memória (Engrammes) capazes de invocar mundos criados a partir de um outro principio mitológico. O primeiro contacto que tive com o trabalho de Mattia foi no espaço Trecenas em Lisboa, uma exposição que resultava de uma residência naquele espaço, de uma vivência concreta num edifício escondido entre duas ruas paralelas ao rio. A memória que retenho da sua intervenção concentra-se num espaço compartimentado longitudinalmente – um Equador (?) – por um plano de superfície translúcida, em que o olhar do observador era colocado ao nível desta fragmentação: em vez de apartar o espaço, tornava-o infinito, continuava-o. Reencontro esta “linha-reprodutora” na instalação Paisagem inacabado: uma construção em linhas de aço edificada sobre um pátio inundado, fazendo continuar o desenho das vigas pelo chão em direcção ao céu; e também na instalação Vulcão invertido, em que o topo de uma montanha vertia o céu ao nível do nosso olhar. Ambos os projectos foram concebidos durante o biénio de 2005-07 em que Mattia viveu na ilha do Mindelo, observando de perto a organicidade, precariedade e transitoriedade da segunda pele (construída) da geografia daquele lugar. É no regresso a Lisboa que inicia o núcleo de desenhos As ilhas desertas, que se desdobrariam em As conferências e Engrammes. Dos três blocos de trabalho, é agora apresentada uma selecção. O desenho tem sido uma constante na prática de Mattia, no entanto, a sua apresentação tem sido integrada em intervenções nos espaços expositivos, directamente realizada sobre as paredes pré-existentes ou em planos que recriavam o espaço; trata-se da primeira vez que apresenta, em exclusivo, e de um modo tão formal, o desenho. Agora a inversão do sentido do mundo, a proposta de coordenadas para a vista sobre uma paisagem, ou a reflexão sobre as perturbações da linha do horizonte são mediadas pela presença de uma figura (nos desenhos) que nos indicia da escala do nosso olhar, da nossa materialidade, do nosso posicionamento no conflito de forças entre nós e a natureza. Agora, a referida linha produtora de (não) espaço desenvolve-se num meridiano, num plano vertical, criado entre nós (observadores verticais) e os desenhos (expostos na parede). Dá-se a mesma continuidade de espaço, de paisagem ou memória. Uma floresta densa inundada. Um balcão que exibe vulcões. A observação do microscópico no centro da Terra. A observação longínqua para o interior de uma panela. O tempo e o esconderijo. Um jogo de infância. Aqui, é possível caminhar-se sobre um vulcão activo, sobre o reflexo intacto das ruas de uma cidade após o cair da chuva, pelo interior de uma árvore. E sugere-se-nos, novamente, a astuta descrição de Michaux da luta entre árvores na busca de luz e solo que se dá nas florestas equatoriais – acabando certas árvores por engolir outras árvores nos seus troncos. Terrível e sintética imagem do mundo. A artista nasceu em Blois, França, em 1967, vive e trabalha actualmente em Portugal. Desde 1989 que tem apresentado seu trabalho em França, Portugal e Cabo Verde. Durante o último ano centralizou o seu trabalho numa série de desenhos em grafite, inspirado sobretudo na viagem e no trabalho realizado em Cabo Verde sobre as casas inacabadas do Mindelo. |
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