| By Miguel von Hafe Pérez,
on 10-01-2009 17:33
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Paulo Brighenti expõe “Is this desire?” até 28 de Março na galeria Porta 33, no Funchal (ilha da Madeira). Sobre a mostra publica-se o texto “O presente da arte” de Miguel von Hafe Pérez.
O presente da arte Não é extraordinário pensar que dos três tempos em que dividimos o tempo – o passado, o presente e o futuro -, o mais difícil, o mais inapreensível, seja o presente? O presente é tão incompreensível como o ponto, pois, se o imaginarmos sem extensão, não existe; temos de imaginar que o presente aparente viria a ser um pouco o passado e um pouco o futuro. Ou seja, sentimos a passagem do tempo. Quando me refiro à passagem do tempo, falo de uma coisa que todos nós sentimos. Se falo do presente, pelo contrário, estarei falando de uma entidade abstracta. O presente não é um dado imediato da nossa consciência. Jorge Luis Borges A pintura de Paulo Brighenti detém uma capacidade singular de se ancorar num tempo próprio. Dir-se-ia que esse seria o tempo e o espaço conquistados pela autonomia moderna do objecto artístico. Contudo, esse não é, em rigor, o caso, embora daí advenha parte do seu lastro idiossincrático. O modo como estas pinturas reiteradamente nos convocam para um universo próprio, fantasmático e crepuscular, acaba por se sobrepor à sua igualmente poderosa teia de revelações, ocultações e sedimentações da matéria pictórica na superfície da representação. O conteúdo encontra na forma, então, uma qualidade supletiva para a sua densificação. 
Oriundas dos espaços recônditos de memórias do passado, onde figuras seminais da representação na história da arte parecem ter sido recuperadas por processos similares à constituição dos fósseis, convivem no conjunto de obras agora apresentadas elementos que se diriam intemporais, como apontamentos botânicos e esgares do mundo natural: impressionante aquele planeta – a lua? – que, na excelência da factura, condensa todo o mistério de uma natureza insondável, todo o tempo que se esconde no seu brilho concomitantemente aquoso e baço. Porque nas pinturas e nos desenhos de Paulo Brighenti o real dilui-se na percepção imediata da pintura enquanto metáfora do indiscernível. Não são aquelas graças, nem as cabeças tombadas, nem o herói mítico que reclamam sentido, é o sentido da pintura enquanto presente que desvela a sua imponência. É a reinterpretação de um real não vivido – a fonte maior de referência deste artista são reproduções fotográficas que se vão dispondo de forma mais ou menos aleatória no seu estúdio. O trânsito acaba por fluir, deste modo, de um exercício de rememoração, uma espécie de anamnese, para a realidade da pintura, para o seu exercício enquanto portador de sentido.
É aqui que ressoam com acuidade as palavras de Borges. O presente destes trabalhos é inapreensível. Se ficássemos pelo passado, pelas referências que o artista habilmente convoca, o espectador sentir-se-ia possivelmente mais apaziguado. Parafraseando Borges, na obra de Paulo Brighenti, o conhecimento daquilo que fomos e daquilo que possamos vir a ser, não nos revela aquilo que somos. Mas não será esse um dos fins últimos da arte? Dificilmente, parece-me, pois mais do que apontar caminhos e teorias plausíveis, território da ciência, construir modelos de relação com o mundo e as suas inquietações metafísicas, território da filosofia, a arte detém esse extraordinário poder de questionar sem responder e assim dar corpo a uma realidade nova ou, paradoxalmente, criar a partir da negação, da abstenção. 
Porque a percepção se sobrepõe – evita, até - a explicação. O caso mais agudo, nesta exposição, dessa opacidade intrigante, é a obra que este artista criou especificamente para a Porta 33. Numa das paredes do espaço expositivo um enorme desenho a carvão impõe-se em extensão ao espectador. Sem título: também aqui o espaço e o tempo são remetidos para um plano de indefinição programática. As manchas negras, que ao perto quase se autonomizam num divertimento abstracto, configuram a imagem de uma paisagem agreste e solitária, onde um vulcão em plena actividade sobressai enquanto elemento de acção referencial. Imerso neste contexto, o observador não tem elementos anedóticos a que se ater. A acção deixa de se particularizar na representação para se distender na realidade do processo. Como se ao tempo se retirasse a sequencialidade e ao espaço a gravidade. A verdade é, então, a arte. E esta arte é, por sua vez, o presente. Miguel von Hafe Pérez Dezembro 2008 |
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