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09-Fev-2012
“MySpace” de João Nora PDF Imprimir e-mail

By Fernando Montesinos, on 15-01-2009 20:54


 João Nora apresenta na Galeria Graça Brandão, em Lisboa, o projecto “MySpace”, que tem desenvolvido desde 2007. O Artista distribuiu máquinas fotográficas descartáveis, solicitando que as fotos que fossem realizadas lhe fossem enviadas por e-mail. A partir destes trabalhos realizou algumas telas e pequenos guaches, que agora são mostrados. Sobre a exposição que estará patente até 14 de Fevereiro, publica-se a seguir um texto de Fernando Montesinos.

A propósito de MySpace_Um projecto de João Nora

A primeira vez que tomei contacto com a obra de João Nora foi em Abril de 2006, aquando da exibição do Projecto Mimesis no Show Room da galeria Graça Brandão no Porto e, desde então, sigo com interesse o trabalho de um artista que, sem renegar a tradição realista e sensorial da pintura, tem conseguido desenvolver uma série de propostas onde concilia, inteligentemente, o bem-fazer com discursos de disposição conceptual.

MySpace é a concretização da segunda parte da trilogia iniciada com o projecto anteriormente mencionado, onde começou a abordar a questão da autoria a partir de processos e experiências pictóricas de grande exigência e talante cerebral, integrando a pintura com outros meios, não como uma espécie de hibridação mas como um recurso associado à ideia de original e cópia e à reflexão perseverante em torno dos mecanismos de legitimação da imagem pictórica - em princípio única, original e irrepetível - no contexto do mercado da arte contemporânea.

O ponto de partida de MySpace, projecto de assumido carácter colectivo, teve lugar em Maio de 2007, com a contratação do designer gráfico Tony Fortuna, criador de um flyer no qual se lançava a seguinte pergunta: gostas de fotografar? André Santos, roadie da banda rock Bunnyranch, foi o encarregado de distribuir os folhetos nos locais onde o grupo ia actuando e, a partir daí entre todas as pessoas interessadas em participar, seis foram seleccionadas pelo próprio artista através de um pequeno questionário. O propósito desta colaboração consistia em fotografar com máquinas descartáveis, a troco de 25 euros, uma série de cenas, momentos e pessoas em espaços e contextos a meio caminho entre o íntimo e o quotidiano; imagens que passavam a ser da inteira propriedade do ideólogo do projecto. As condições eram simples e claras: o artista proporcionava o material de trabalho, pagava um valor monetário a câmbio do registo fotográfico de instantes isolados e os seis elementos seleccionados assinariam obrigatoriamente uma declaração com a cedência dos direitos das imagens resultantes. Após uma cuidada selecção das mesmas, o trabalho de atelier foi desencadeado e, com este, um processo pictórico que se serve da fotografia como ponto de partida e culmina no espaço da galeria, plataforma comercial - pois proporciona o ambiente estável e favorável à exposição, venda e negócio de obras de arte - e discursiva - pois é aqui que a mensagem do projecto ganha sentido e vigor, é aqui que óleos e guaches compartem protagonismo com seis livros-documento que ajudam a descodificar o back office e a história do programa. Um por cada pessoa que cedeu fragmentos visuais das suas vivências.

 Uma das características mais sui generis da obra de João Nora é a sua capacidade para colocar questões ao espectador e estabelecer diálogos amistosos entre o passado e o presente do ofício de artista. No caso específico de MySpace, todo o projecto responde ao mais puro espírito do tempo actual: em rede, fugaz, descartável. Por um lado, a própria designação do projecto alude ao homónimo e, mais do que conhecido, sítio web de interacção social, fundado em 2003 e constituído por perfis pessoais de usuários que incluem redes de amigos e familiares. No atractivo e sedutor mundo da Internet, fiel à cultura do efémero, rapidamente surgiram competidores, o último dos quais Facebook, actual deus entre as redes sociais e que, com toda a certeza, não será o último. Em qualquer caso, neste âmbito, falar de projectos que se estendam ao longo de cinco ou mais anos é raro, para não dizer milagroso. Por outro lado, a utilização do flyer como método de divulgação do projecto invoca também o perecível, um tipo de publicidade que, sejamos sinceros, acaba sempre no chão, espezinhado sem piedade. Arte de usar e tirar, de rápido consumo, produto da nossa sociedade industrializada e capitalista. E não esqueçamos também a intervenção dos “fotógrafos” convidados, cujo instrumento de trabalho foi uma câmara de fotos descartável... objecto de captação do transitório, do desejo de recordar momentos entretanto perdidos e apenas com significado para os seus detentores. A transposição destas imagens para tela e papel sob a forma de impressões ou reminiscências do calor da vida supõe cristalizar os vestígios do reflexo de uma certa realidade. A exploração da existência de olhares divergentes sobre uma mesma realidade (reconstruída pelo artista) é, por certo, outro dos principais leitmotiven da produção de João Nora.

MySpace - obra de arte colectiva, porque colectiva foi a modalidade adoptada para a sua concretização e múltiplos foram os actores intervenientes - esbate assim os conceitos de autoria e de meio. Quem é o responsável criativo? Estamos, em boa verdade, ante pinturas, quadros-foto ou espectros pictóricos de fotografias? A conexão e reverência sem excessos à arte conceptual e ao hiperrealismo torna-se portanto inevitável. Basta referenciar John Baldessari e as suas Commissioned Paintings (1969), série de pinturas expostas com o seu nome, mas executadas por artistas amadores e sign painters a partir de fotografias realizadas pelo próprio Baldessari, e Chuck Close e os seus retratos reticulados e pixelizados, autênticas fotografias feitas com pincéis. Em ambos casos, e também no de João Nora, o objectivo não é reproduzir o carácter realista da fotografia e, no entanto, apesar do que se apresenta ao espectador ser formalmente uma pintura, a essência subjacente é fotográfica.

Uma fotografia e uma pintura são o mesmo? A grande arte é apenas pintura? O futuro da arte contemporânea passa por deixar de exacerbar o eu do artista? Estas e outras interrogações são lançadas no projecto MySpace.

PS: A exposição esconde um último segredo. Disfarçada de pintura esconde-se uma fotografia, do mesmo tamanho e formato que os guaches. Qual será o seu preço?

 

Fernando Montesinos

Janeiro de 2009

 


   

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