| By Nuno Cunha *,
on 16-01-2009 14:19
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Há mais de um século que os artistas procuram pôr em causa as estruturas de afirmação e consagração. É uma “luta” pela autoridade. Nos últimos anos vemos recrudescerem propostas alternativas aos espaços institucionais. O Voyeur Project View, em Lisboa, é um deles e apesar da notoriedade que conquistou, corre sérios riscos. O seu financiador, uma Fundação a braços com problemas graves a curto prazo, vai suspender o apoio.
Pensa o Voyeur Project View como a sua própria obra artística. Em que medida? É uma contestação? Este é um projecto independente. Noutros países, aliás, estas iniciativas têm apoios de diversas proveniências, mas em Portugal isso não acontece. É um projecto de arte colaborativa, orientado por um artista, que convida ou aceita projectos que mostra. A próxima exposição, “Anonymous Work”, por exemplo, foi organizada através de contactos pela net, com dois estrangeiros e um português, que mantêm a sua condição de anónimos. Mas há uma atitude política, “engagé”, de ruptura com o sistema expositivo instituído?
Sim, há! Em que medida isso é uma proposta artística e não uma proposta curatorial? É ambas as coisas. É curatorial, mas é também a proposta de um artista. A intenção é provocar uma ruptura em relação à predominância do sistema, já incutido em todos os jovens artistas, e criar algo de novo. Em vários países há muitas galerias alternativas para os artistas exporem e apresentarem propostas inovadoras, que não são exequíveis em galerias, centros culturais ou fundações. E considera esse projecto a sua obra artística? Considero, claro! Ao artista que vai expor, é-lhe apresentada uma proposta ou ele desenvolve um projecto apenas em função do espaço? Eu não proponho nada. Os artistas já conhecem o Voyeur. Há artistas que eu nunca vi e apresentam uma proposta, por email por exemplo. Reunimos, e se o projecto vale a pena e é pertinente, avança-se, conheça ou não o seu autor. Pretende-se mostrar o que não está visto em Portugal e, mesmo, no estrangeiro. As próximas exposições são já pós-imagem, questionamento de onde está a linha da arte e as linhas da morte e do sexo, e se há linhas. As fronteiras desapareceram. Esta é a grande questão. Nesse projecto, qual é a importância do público?
Público? Já tenho tido aqui desde comissários de nome, directores do CCB, de museus, críticos, pessoas de todo o lado, mas quando lanço um apelo para manter o Voyeur, ninguém me apoia. Fora isso, só vêm os amigos do artista. Em Portugal não há público. Estou ao pé das Belas Artes e o que me aparece aqui são estrangeiros. Jovens artistas e estudantes das Belas Artes, nem sequer vêm ver. Faz impressão. *Texto publicado com a revista NS que acompanha os jornais DN e JN no dia 13 de Dezembro de 2008. |