| By Sandra Lourenço,
on 22-02-2009 13:49
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Publicamos o texto da autoria de Sandra Lourenço sobre a exposição de Carlos No, “Solarium”, na Galeria Novo Ciclo Acert, Tondela, publicado no catálogo da exposição.
Carlos No é um artista cujo percurso se tem revelado coerente, construindo um espaço criativo com características singulares. Esta coerência não significa, contudo, que o seu percurso se inscreva dentro de uma lógica sistemática, regular, onde não existe experimentação. Pelo contrário, a cada passo que dá, o artista mantém os seus pressupostos estéticos e éticos, acrescentando uma postura renovada em termos processuais. Carlos No iniciou o seu trabalho em pintura mas, nos últimos anos, tem dedicado particular atenção à escultura, prosseguindo nessa transição com os mesmos princípios deontológicos que sempre orientaram o seu trabalho. A escultura permite--lhe, no entanto, desenvolver particularidades formais que contribuem para a incessante busca de uma ligação com o espaço envolvente. Essa via não só amplia os limites escultóricos ao domínio da instalação, como possibilita ao espectador relacionar-se com a obra no espaço expositivo, através de uma experiência íntima, introspectiva e pessoal. Com uma consciência ética como forma de estar no mundo, o artista tem procurado estabelecer na sua prática uma acção continuada que evite o alheamento e a inércia; tem procurado uma consciência que defina intenções e que nos permita situar num mundo habitável e íntegro. A sua postura constitui-se, assim, como um estado de demanda por um lugar com sentido; um lugar onde os objectos alcancem significado e não sejam meras ideias. As temáticas centrais do seu trabalho têm incorrido nos domínios social e político, em questões como a exploração infantil, a emigração/imigração, a identidade colectiva, os confrontos políticos e seus efeitos colaterais ou os direitos humanos. Estas são algumas das temáticas recorrentes da arte contemporânea, cuja dimensão política suscita, por vezes, discursos com conteúdos ideológicos declaradamente frontais – discursos que se revelam demasiado tendenciosos e pouco interessantes para o domínio artístico. Carlos No não se enquadra de todo neste género de discursos, adopta antes uma abordagem subtil, consciente e intuitiva que transmite sentido às coisas, que procura não impor, desvirtuar ou banalizar o assunto em foco. Assentando o seu processo criativo no plano do concreto, o artista incorpora frequentemente objectos com características singulares, a par do uso da palavra escrita. A dimensão holística presente no trabalho é reforçada pela reapropriação desses objectos e materiais de uso quotidiano, transformados posteriormente em obras de arte. De facto, a inclusão e a metamorfose de tais referentes emergem mais como parte integrante de um processo axiomático portador de um propósito, do que como um processo complementar meramente figurativo ou ilustrativo – ainda que dele sobressaia um lado simbólico. É precisamente essa forma de operar singular que o mantém próximo do essencial, longe de qualquer superficialidade e pormenores desnecessários, perspectivando ideias com um sentido poético, real ou simbólico, que interrogam determinadas questões do presente. Solarium, a peça em questão, circunscreve de forma modelar o que atrás se referiu. O artista dividiu um pedaço de tronco de madeira em duas partes, recriando dois mundos com ambientes diferentes: um ambiente nocturno e um ambiente diurno. Cada um dos ambientes é habitado por diferentes estilos de vida. No ambiente diurno e solar, pequenas figuras representam um casal deitado em duas cadeiras na relva, desfrutando o Sol de forma langorosa e descontraída. No ambiente nocturno, um outro casal (presumivelmente agricultores) trabalha a terra após o Sol-posto. O primeiro mundo vive do lazer; é habitado pela luz e pela felicidade. O segundo mundo vive de um silêncio grave, da matéria e do trabalho; de um sofrimento contido que procura no horizonte a esperança que parece ter-se extinguido. Carlos No encena dois mundos paralelos e antagónicos aportando-se à temática da desigualdade social. Pode ainda subentender-se na sua intenção um desvelar do respeito pela terra enquanto forma de subsistência, enquanto lugar de origem de todas as coisas. O aforismo que acompanha a peça – “A noite é a nossa dádiva de sol aos que vivem do outro lado da Terra” * – e a ironia implícita no próprio título, remetem-nos aqui para dois lados da existência humana: para uma vida folgada sem preocupações e para uma vida dura onde não existe lugar nem tempo para o lazer – uma existência distante da igualdade e da harmonia. Afinal, o sol quando nasce, não deveria ser para todos? O que percepciona o espectador perante estes mundos? Surgirá como uma presença distante que se limita a observar com indiferença ou procurará um significado mais além na matéria exposta?
A obra em questão transcende efectivamente a crítica social a que alude, para se constituir num plano de respeito pela terra. O carácter despretensioso que envolve o seu processo tem como estrutura discursiva a percepção da realidade – mesmo que seja uma realidade simbolicamente encenada e sem dramatismos. Neste sentido, o entendimento que Carlos No expressa sobre o lugar que ocupamos neste mundo com todas as contradições que encerra, aproxima-se, de certo modo, do sentido real da vida que Eugénio de Andrade expôs através da palavra; o poeta que celebrou a fertilidade da terra enquanto sinónimo de vida e que desejou a conformidade entre o Homem e a Natureza: “Fico na terra toda, natural e sadio – como água liberta no sulco dum rio (...) Fico estendido ao sol, inteiro e consciente que passei a ser terra e deixei de ser gente.” Talvez seja uma utopia ambicionar uma vida justa para todos. A privação existe e devemos aprender a viver com ela, mas não forçosamente em silêncio. Sabemos que a arte não resolve os problemas do mundo – nem tão pouco lhe cabe essa tarefa – mas pode contribuir certamente com um estado de inquietude e questionamento, com uma postura crítica e reflexiva. Pode sobretudo realçar nesse processo um lado humano muitas vezes escamoteado ou ausente das deliberações artísticas. Estes são motivos impulsores do trabalho de Carlos No e algumas das vias que tem percorrido. Sandra Lourenço Lisboa, Dezembro de 2008 |
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