| By Adriana C. Baut,
on 23-02-2009 17:41
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No âmbito das comemorações dos 50 anos do Hospital de S. João, decorre na Sala Joshua Benoliel do Centro Português de Fotografia, no Porto, até 15 de Março, a exposição “3 Formas de Ver” de Luís Ferreira Alves, Olívia da Silva e Paulo Pimenta. Sobre a mostra publica-se o texto de Adriana C. Baut.
Hospital de S. João 50 anos de vida é tempo. Ao fim de 50 anos, um hospital deixa de pertencer a si próprio e intercepta significativamente a vida de uma cidade e de todos os seus habitantes. Com eles, a sua memória se confunde e continuamente se constrói o seu porvir. O tempo de vida de um hospital não é um tempo cíclico, nem uma simples sucessão de dias ou de meses, mas uma das formas mais plurais de tempo que um organismo social pode viver. Nele coabitam diferentes ritmos: o tempo rápido das pulsações uterinas, o tempo fugaz que o receio condensa no medo, o tempo dilatado da espera, o tempo quotidiano das tarefas repetidas, o tempo voraz da urgência, o tempo assertivo da acção, o tempo nulo da morte, o tempo pesado do fumo, o tempo leve do regresso a casa. Dentro de um hospital, o tempo é um espaço de silêncios e de sons que a memória dos homens arquiva de forma desigual. Silêncios de espera que aprendem a aguardar as notícias, silêncios que respeitam o doente e o espaço. Silêncios do lado de cá das janelas e em cima dos lençóis, esticados, brancos. E por trás de cada silêncio espreitam os ruídos. Vários. Ruídos metálicos de utensílios zangados. Manivelas e manípulos que se mordem. Relógios que avisam. Rodízios que chiam a uma cadência desigual. Passos que esperam ser amparados entre as canadianas que estalam. E vozes. Assim, sem dono. Vindas de um qualquer monitor de televisão, da parte de dentro de um balcão, por entre a porta aberta de um gabinete, do interior de uma enfermaria, de um canto do corredor. Sussurradas. Ou urgentes e nítidas, vindas da azáfama médica.
E cada um destes ruídos conta uma história. E cada uma dessas histórias é concha de uma outra e esta de outra ainda. Todas se encasulam no corpo de quem as vive e oferecem-se apenas a quem as procura ou pressente. Ao escolher a imagem fixa, este projecto aceita um grande desafio, ou seja, o de dizer o tempo, captando-o parado no momento em que a sua dimensão narrativa é mais significativa. Na interacção dinâmica dos elementos morfológicos da imagem com o nosso olhar de memórias. Na ausência de voz. No silêncio que recupera a lembrança e a faz ver. As imagens desta exposição não se oferecem para representar o hospital, antes buscam ser o nódulo pulsar de uma imagem mental, espaço de todas as sinestesias, e parecem organizar-se em quatro dimensões onde é possível observar o tempo que passa: a espera, o espaço, a ordem e a acção. Em cada placenta, a espera alimenta um tempo antes do tempo. Esta quer que perguntemos para onde vão as suas células ao serviço do futuro. Dentro de cada incubadora se espera que o tempo faça o que o tempo não pode terminar. Cada cuba, fria, disponível, espera o corpo, definitivamente alheio ao tempo que demora cada viagem. No espaço iminente da autópsia o tempo espera fazer a história da morte. Rigorosa e asséptica, a mesa aguarda. A cor que cinge os pulsos marca um tempo de espera, descontrolado e, no entanto, manso. O espaço é o que cinde o interior do exterior, o que marca a entrada e a saída, o que alinha os dois extremos, a direita e a esquerda, a longa linha entre o fim e o início. O espaço é o que junta e o que separa e faz com que cada corredor seja o tempo de o percorrer e o modo de o habitar. Um tempo entre. O sítio por onde regressar. O espaço do recobro é onde o limbo é uma forma controlada ao segundo de regressar. Aí, os relógios são espelhos do tempo e escondem quem veio de um outro lado. Repetida, a fenestração entrega um alucinante ritmo ao espaço. O ritmo de todos os passos e dos olhos que passeiam à procura, nos andares. Cada janela traz o dia e a noite ao hospital. Cada postigo atrai o olhar para o céu e dá ao túnel a noção de subterrâneo secreto. O espaço cresce com o tempo e extravasa a medida. A ordem é um tempo arrumado. Pronto a ser usado. Gavetas, caixas, prateleiras. Tudo tecnologicamente empilhado e disponível para. Expectante. O museu exibe a colecção, a ordem onde a pesquisa se estrutura. A semelhança é a consequência da consciência do diferente que isola o regular do irregular. A ordem é o espaço do saber onde se arquivam os factos que arrumaram cada uma das dimensões patológicas no decurso explicativo do tempo. Fieiras, degraus. As cadeiras no anfiteatro ordenam a projecção da voz. A palavra pode chegar muito longe.
Na poltrona, os corpos deixam que os fármacos entrem e esperam que eles ajam. No bloco operatório, as mãos seguem os olhos, que lhes indicam como agir, cegas de tanta certeza. Outras mãos esperam. Repousam, enquanto os olhos observam. Talvez actuem, mentalmente. Contidas no gesto de olhar e de aprender vendo. A acção projectada ultrapassa o interior do corpo onde é praticada. Partilha-se. Cada acção faz girar o tempo que passa a pertencer a quem a executa com a ferramenta que escolheu para sobreviver ao tempo no retrato. Ouvir como cavalga a vida em cada feto, expurgar a alface das suas larvas, ou zelar pelo lavado dos lençóis. Dirigir um serviço é entrar no coração do tempo sob o olhar atento de D. João VI que a moldura arrastou para dentro de um quadro ao lado de cada um dos retratados. Nenhuma fotografia rouba a energia a quem todos reconhecem que a tem, nem o desejo de fazer diferente estampado na determinação de prosseguir. No tempo. Adriana C. Baut |