| By Nuno Cunha *,
on 26-02-2009 00:13
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Miguel Branco é um pintor fora do tempo. Não por atraso ou antecipação. Simplesmente fora. É “absolutamente” contemporâneo, mas produz imagens muitas vezes buscadas na sua formação clássica. Como Godard, procura construir imagens claras sobre as ideias vagas. Actualmente mostra uma série de pinturas e uma escultura numa colectiva na Galeria Caroline Pagès, em Lisboa, juntamente com Rodolfo Bispo, Manuel Ocampo e Jean-Xavier Renaud, até ao dia 7 de Março. A única escultura que expõe faz a ponte com os seus trabalhos actuais, como ele próprio explicou. Não pintava desde 2004.
Hoje está a fazer, um pouco, a ponte com os trabalhos de pintura que interrompeu em 2004, altura em que se dedicou à construção de pequenas esculturas. Em termos de informação, há menos intensidade do bestiário nesta pintura do que tem havido na escultura? Sim. Estas imagens são baseadas em fragmentos de pinturas existentes. Há uma estrutura que é deixada, mas são trabalhos que têm muito a ver com simplificação de imagem. Como é que pensa o trabalho, como investiga, como é que chega à ideia? Eu procuro relacionar-me com o mundo das imagens - esse é o mundo que me apaixona, sobretudo num sentido de contaminação. Não faço distinção, neste sentido, entre imagens que são feitas agora, de microbiologia, digitais, com imagens de esculturas arcaicas. Certamente que me interessa este momento histórico em que estamos a viver muitos mundos em simultâneo e isso reflecte-se no meu trabalho, que tem vários níveis, vários estratos. Mas faz um trabalho intenso de pesquisa em questões mitológicas e na História? Sim, também. Não no sentido da História do mito. Há uma frase do Godard que eu gosto muito: “Il faut mettre des images claires sur des idées vagues”. Isto resume a minha resposta a esta pergunta. Interessam-me mais as ideias vagas, aquelas que encerram em si o instrumento da própria dúvida, crípiticas, misteriosas em si, mas trazidas à luz de uma forma clara. Todos os meus trabalhos têm um desenho, no sentido da concepção, de modo a serem claros e eficazes. Desta forma são muita coisa no sentido em que são muito pouco. E chega a essas imagens recorrendo a um desenvolvimento metodológico específico ou de uma forma muito intuitiva? De diversas maneiras. Em muitas vou à fonte, às pinturas que me interessam. Esse é um processo muito silencioso. É como não estar à procura das coisas e encontrá-las. Mas faz uma pesquisa em livros? Tenho pilhas de imagens que arranco de livros, outras retiro da net. Tenho um arquivo de imagens gigante. Algumas estão organizadas por temas, outras estão mais dispersas. Há temas recorrentes. O corpo, metamorfose, corpo masculino/corpo feminino, máscara, rosto, animal, paisagem... Faz um visionamento frequente do arquivo?
Sim, recorro frequentemente a este banco de imagens. Por vezes já tenho uma ideia muito clara do que pretendo fazer e vou àquele dossier buscar a imagem. Mas essa ideia surgiu de forma intuitiva ou recorreu a alguma metodologia? O processo intuitivo está sempre presente, ao nível das escolhas, mas a necessidade também. Por vezes pode haver um encontro. Estamos a ler um livro, alguém refere uma ideia ou evoca uma palavra e, aí, desencadeiam-se uma série de mecanismos que nos podem levar a uma imagem. Cada trabalho, depois, tem um processo de nascer diferente. O seu trabalho tem um pensamento clássico. Como é que vê a arte contemporânea?
Totalmente imerso nela, como artista, como professor e como responsável do Departamento de Pintura de uma escola de Arte absolutamente contemporânea: o Ar.Co. E como é que se relaciona com o mundo contemporâneo? Com o pessimismo de quem vê o mundo em ruínas e em constante colapso; com o optimismo de quem vê o momento presente como um enorme desafio e o futuro como um campo de possibilidades ilimitadas. *Texto publicado na revista NS com os jornais DN e JN, no dia 31 de Janeiro de 2009 |