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09-Fev-2012
“Fountain” por Ulrich Loock PDF Imprimir e-mail

By Ulrich Loock, on 10-03-2009 21:57


 Bethan Huws expõe “Fountain” no museu da Fundação de Serralves, no Porto, até 17 de Maio. Sobre a mostra que reúne trabalhos do autor galês – que apesar de antológica não é retrospectiva pois conta com trabalhos in situ aborda a obra do artista sob um dado ângulo – escreveu o comissário Ulrich Loock o texto para o catálogo que se publica a seguir.

Em cada uma das suas exposições antológicas, Bethan Huws redesenha o corpo da sua obra. Esta afirmação, aplicável também às exposições de outros artistas, é no seu caso particularmente pertinente. Ao longo de cerca de vinte anos de carreira, Bethan Huws adoptou abordagens estéticas e conceptuais muito diferentes. No entanto, desde os seus primeiros trabalhos até aos mais recentes, a sua trajectória tem sido sempre orientada por uma mesma pulsão, não havendo um só tema, questão ou preocupação que a um dado momento tenha sido esgotado ou deixado para trás. Nessa medida, todas as suas obras, independentemente da data da sua realização, estão imbuídas do mesmo sentido de presença e todas assumem idêntica importância.

Desde o início e em todas as suas obras, Bethan Huws tem procurado reconstruir as coisas e os lugares que perderam o seu sentido de integridade — um estado de coisas que, tendo implicações bem mais vastas do que a biografia da artista, é ilustrada pela sua experiência pessoal: “O meu recreio era vasto. Costumava passar horas e horas sentada nos montes e na quinta. Aquilo era um 'paraíso' para uma criança. E eu estava ciente de que aquele 'céu' teria um fim”. Todas as suas obras destes vinte anos constituem modos diferentes de satisfazer o seu desejo de enfrentar este desafio que desde o início habita o cerne do seu fazer artístico. Tudo o que se pode dizer acerca do seu “desenvolvimento” enquanto artista é que, com o tempo, Huws foi atingindo uma concentração cada vez mais consciente nas suas preocupações fundamentais e que para tanto foi criando procedimentos cada vez mais complexos e sofisticados. A construção de uma exposição faz parte desses procedimentos. A insistência de Huws é um traço importante que distingue a sua obra da obra de outros artistas e confronta o espectador com uma situação de consecução artística sem paralelo.

A exposição de Bethan Huws no Museu de Serralves, “Fountain”, abrange, pois, um vasto conjunto dos mais importantes trabalhos de todos os períodos da sua carreira. Começa (não necessariamente de um ponto de vista físico ao nível da instalação, mas antes em termos conceptuais) com os “barcos”, pequenos objectos criados para flutuar na água, que a artista aprendeu a fazer durante a sua infância, vivida numa quinta no País de Gales — “São feitos de um caule de junco, arrancado pela raiz. Depois, formando uma base em vez da raiz, são postos de novo na vertical”. Estes pequenos objectos, que constituem a âncora de todo o seu trabalho, pertencem à linhagem das “aguarelas” que, em muitos casos, têm origem em fotografias de família. Para a presente exposição, Huws construiu também mais uma — a última, segundo a artista — das peças a que chamou “chãos”, a primeira das quais foi realizada em 1989 nos Riverside Studios, em Londres. Os “chãos” mostram um soalho de madeira colocado sobre o soalho de madeira preexistente de modo a criar um lugar onde o espectador toma consciência da sua própria presença.

  As “vitrinas de palavras” e as “obras textuais” — em Serralves será pela primeira vez produzido um “texto de parede” — testemunham a importância que a linguagem e a investigação linguística assumiram no trabalho de Huws a partir de 1991 (data de The Lake Writing [Escritos do Lago], obra mostrada em Serralves ao lado do filme Singing for the Sea [Cantar para o Mar], o registo de uma performance única realizada em 1993 em réplica ao mar). Os “ready-mades frescos” são coisas da natureza, tais como uma planta ou um fruto, escolhidas pelo seu potencial de ligação a diferentes nomes, sendo o sentido múltiplo de palavras e objectos explorado enquanto meio de evitar uma redução das coisas a uma identidade inequívoca (e, como tal, deficiente). As expressões 'ready-made fresco' e 'fonte' (título da exposição) apontam claramente para o profundo interesse de Huws pelo trabalho de Marcel Duchamp — um interesse que a conduziu a uma profunda investigação de longos anos e se imbricou com a sua pesquisa em torno dos fundamentos da linguagem. São exibidas nesta exposição um conjunto de obras — entre outras, Le Grand Verre [O Grande Vidro], 2008, Forest [Floresta], 2008–09 ou Max Ernst, 2009 — animadas por uma referência directa ao seminal Porte-bouteilles [Porta-garrafas] de Duchamp. E as imagens de fontes barrocas da cidade de Roma de Fountain [Fonte] — o último filme de Huws, a estrear por ocasião da exposição em Serralves — conjugam-se com reflexões acerca da obra de Duchamp. No Parque de Serralves estão instaladas várias peças, entre as quais (durante uma hora no dia da inauguração) Tableau Vivant: Black and White Animals [Quadro vivo: animais pretos e brancos].

Ulrich Loock


   

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