| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 28-03-2009 19:54
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Exposição temporária no CCB: desenho e pintura. Para lá das discussões sobre se é mais surrealismo ou menos surrealismo, se houve ou não houve surrealismo em Portugal, se evoca ou não a pintura de De Chirico, entro na exposição com uma tremenda amnésia de tudo o que li, ouvi e aprendi depois dos seis anos, e é a esses anos que regresso. Assim visito a exposição na companhia da menina, ou melhor, é a menina de antes da escola que visita a exposição. O que transforma tudo, imediata e totalmente; as pinturas, como por magia, transfiguram-se perante os meus olhos. O olhar da menina transforma a exposição como o observador altera o comportamento do átomo.
A criança percorre os corredores com os pés, e percorre os quadros com o puro olhar. Detém-se mais em frente de alguns, senta-se, reconhece-os, já os viu algures, não sabe bem onde, mas aqueles lugares são-lhe conhecidos. Por vezes, quando brincou com os outros meninos aos teatros, imaginou cenários assim, mesmo os monstros são tão familiares que não a assustam, e aquele olho espreitando através de um orifício do muro deve ser o tal “sabe-tudo”, aquele que tudo vê, que as crianças mencionam para se assustarem umas às outras, assim pela partilha, diluindo o seu próprio susto. E afinal aquele mundo que quis criar existe, e afinal existem as paisagens desoladas mas não desoladoras, e os monstros de susto mas não assustadores, e os objectos irreais, mas não estranhos, existem. Porque o pintor os pintou ali. Não os teria pintado se não os tivesse visto nalgum sítio. Provavelmente o mesmo de onde eu os conheço. Que não certamente aquela galeria onde costumo ir com a minha mãe, cheia de quadros com frutas em taças a que chamam naturezas mortas, (o que faz todo o sentido, porque as tangerinas e as cerejas que colho das árvores estão vivas, mas as das pinturas, se não estão mais que mortas, bem imitam) ou aqueles outros de paisagens escuras como se houvesse sempre na iminência de uma trovoada. Não, aqui é outra coisa. Pelo meio do branco, do preto e do cinzento aparecem umas nuvens da cor da pantera cor-de-rosa ou do algodão doce, umas pernas que parecem línguas, que parecem serpentes, que parecem espirais, que parecem fumo, que parece onda, que parece estandartes, que parecem cabelos ao vento, que parecem tentáculos… E asas, asas, muitas asas. Mesmo quando não pinta as asas, pinta a sua sombra, uma forma leve e realista de pintar asas. Pois que são asas, se não sombras? A menina que eu sou começa a ficar fascinada por esta pintura, por este pintor. Escadas para mundos que sobem, para mundos que descem, nuvens marshmallows, caracóis sobre chaminés, corpos celestes que podem ser planetas ou meteoritos, num céu muito próximo da terra (até parece que as paisagens da terra existem porque existe o céu…), rostos gigantes, espelhos, uma cobra…
- …uma serpente! É a outra, aceito a correcção: … uma serpente enrolada numa vara… - …é o caduceu… de Hermes… Diz a grande. Quero lá saber! Já te calavas… Um rapaz de sorriso enigmático com três caras na cabeça… - É o Janus… não, espera… o Janus só tem duas, é o Tricéfalo… Ignoro-a, mais o seu saber das enciclopédias. Não sabe olhar, olha e vê nomes, eu olho e vejo mundos. Continuo: o da vara tem um chapéu à Charlot… - É o chapéu de Hermes, que lhe dá invisibilidade. Já chega. Com esta grande não se consegue ver nada. Mostro-lhe uma nuvem para que se entretenha e vou no voo das asas. Chego outra vez ao princípio e encontro-me com uma caligrafia que deve ser a dele. Gostava de saber o que diz, mas ainda não sei ler muito bem. Percorro outra vez a exposição à procura dela, a grande, para que me leia o que ali está escrito. Encontro-a meia amuada a ruminar uma nuvem. Lá acede a vir comigo, resmungando qualquer coisa contra os caprichos das crianças, com quem “é impossível visitar uma exposição!”. Ainda de má vontade, lê-me o que diz o texto: “A arte é um prolongamento do sonho” “Desde cedo me apercebi que tudo o que eu desenhava às ocultas da “consciência” continha uma linguagem e uma filosofia próprias, semelhantes às dos sonhos; era como se os sonhos me saíssem pelas mãos… um processo que se assemelhava a algo de mediúnico, e no qual eu representava um simples instrumento.” Raúl Perez 1970 Ela ainda acrescenta qualquer coisa já da sua lavra onde menciona uma palavra meio esquisita, tipo “surrealismo” ou qualquer coisa parecida, mas não lhe dou atenção, para não se entusiasmar. Ficamos as duas em silêncio, ela provavelmente a ruminar aquela coisa da “filosofia” e do “mediúnico” que não sei quem são ou o que é, nem me interessa, e eu no lugar onde acabo de descobrir que afinal foi lá que nos encontrámos, eu, o Raúl Perez e as suas pinturas e todas as crianças: o lugar da imensa galeria dos sonhos, exposição gigante e sempre temporária, que é possível recordar às vezes, mas é na verdade “irrevisitável”, e calo-me já, porque até pareço a grande a falar… isto pega-se! http://www.risocordetejo.blogspot.com/ |
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