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18-Mai-2012
Dos anacolutos visuais | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 29-03-2009 18:42


 O anacoluto – mudança da função sintática de um elemento num dado discurso – encontra-se quer na estrutura interna das obras de arte contemporânea, quer nas relações que elas mantêm com o espaço, o observador e os referentes temáticos. Os campos em que se aplica são agora bem mais vastos do que eram há dois séculos atrás, quando os movimentos artísticos, através do impulso dado pelo romantismo e pelo aparecimento da fotografia, começaram a questionar formas, conteúdos e léxicos de expressão visual.

 

“Que uma coisa pensa o cavalo;

outra quem está a montá-lo.”

(Alexandre O’Neill, “A história da moral”, Poesias Completas, IN-CM, Lisboa, 1990)


No século XIX, a autonomização da expressividade dos elementos da gramática visual – utilização do traço e do ponto, mancha de cor e luz, estudo das formas e as relações destas com o fundo e a linha de contorno, entre outros aspectos – afirmou-se através de correntes como o impressionismo e o pontilhismo e de artistas como Paul Cézanne – que “viu” a essência das formas – e Paul Gauguin e Vincent Van Gogh – que, ao introduzirem elementos plásticos provenientes de outras culturas enriqueceram a gramática da arte europeia com as novas perspectivas que abriram à utilização do traço, da expressividade das formas e manchas de cor, criaram as bases para a revolução gramático-lexical das vanguardas de inícios do século XX.

Os trabalhos destes – e outros – “pré-vanguardistas” começam então a ser estudados e estão na origem de teorias e novas intervenções na arte. Os modernismos continuam a questionar a utilização da “linguagem clássica” e reavaliam os sentidos do movimento, do ritmo, equilíbrio, harmonia, peso das formas e a representação. A arte afirma-se agora por uma participação simultânea e intensa de uma matéria animada, e por um um questionamento constante da forma e natureza da arte pelo artista e pelo observador. Os contrastes/contradições entre forma e conteúdo adquirem novos sentidos. Valoriza-se o inesperado, o absurdo e a descontextualização.

 Nas novas formas de expressão a matéria, o processo e o tempo de exposição tornam-se importantes. A colagem e a “assemblage”, o estudo ou a obra inacabada apresentam-se à contemplação e experiência do observador, levando-o a reflectir sobre a natureza do processo de construção da obra e afirmando a efemeridade das coisas.

Um dos cortes que a arte moderna fez com a do passado é evidente, em 1907, na obra “Les demoiselles d'Avignon” de Picasso. A sobreposição de discursos – nos vários sentidos atribuíveis às relações entre formas, manchas de cor, linhas e planos – preconiza já a fase cubista do artista, onde a realidade múltipla decomposta e reorganizada estabelece relações puramente formais em trabalhos figurativos.

No inicio do século XX, o uso do anacoluto acontece também em correntes como o expressionismo – onde os elementos da gramática visual são matéria em permanente transformação –, o surrealismo – onde o todo onírico do sonho, mantém a coerência num discurso que se processa nessa realidade outra – e o movimento dada – pela escrita automática, o “non sense” e a renomeação dos elementos e atribuição de novos significados, significantes e funções nas estruturas de linguagem.

O carácter experimental dos textos do dadaismo, trazem para a literatura outras formas de anacolutos, para além dos tradicionais presentes nos textos dramáticos ou nas poesias. Na banda desenhada os recursos mais evidentes verificam-se na sequência de vinhetas, de diálogos e nas sobreposições do texto a imagens, e de vinhetas a vinhetas e ainda nas relações que estas podem estabelecer com o fundo da prancha. O Cinema e a “Video Art” têm também ao seu dispor para a introdução do anacoluto, a montagem que permite introduzir cortes e sobreposições – de som e imagem –, os diálogos (idênticos aos literários), as actuações, a música e os efeitos sonoros, e todas as outras próprias das narrativas visuais. Nas artes plásticas as colagens e “assemblages”, empregos evidentes de anacolutos – estabelecem múltiplas relações entre os várias fragmentos –, tornaram-se uma prática corrente nos anos sessenta com a “pop art” e traduzem associações elementares entre formas e conteúdos.

O conceptualismo, o desenvolvimento tecnológico, a aproximação narrativa ao discurso oral, a representação de ligações abruptas de pensamento – as sinapses são cada vez mais rápidas – são na actualidade campos para algumas das manifestações de anacolutos.

A palavra inscrita na superfície da obra, generalização de surrealistas e dadaistas – com sentido plástico e poético-visual –, é recuperada pelos conceptualistas décadas depois para introduzir questionamentos exteriores à própria obra na interacção com a realidade social. Os elementos do discurso e suas funções são reequacionados, muitas vezes através de jogos com o título do trabalho.

 Na escultura “tradicional” a matéria incorpora a forma concebida. Os “mobiles” quebram esta relação pelo movimento, conferindo um novo papel à estrutura da obra. E com o recurso ao vídeo, “new media”, “happenning”“performance” ou a obras realizadas em matéria “não-densa” - produzidas por aromas, por exemplo –, o corpo do trabalho passa a ocupar um tempo específico, uma actuação ou uma sensação. Já não se encontra mais preso à matéria – se é que alguma vez esteve –, mesmo quando as realizações clonam em plástico o artista (a personalidades pública ou o cidadão anónimo). As obras tornam-se o corpo das sensações que provocavam no passado e questionam cada vez mais a percepção (directa ou indirectamente, pela intelectualização), e os elementos que as constituem – cada vez mais indefinidos – adquirem grande mobilidade no seu interior (não só na animação que por vezes as caracteriza, mas também nas leituras/construções dos observadores participantes).

O abandono dos espaços expositivos institucionais questiona e afirma um espaço próprio para a obra de arte. As representações efémeras, as intervenções na natureza, enquanto Land Art, a arte pública no espaço urbano, as edições nos “media” ou na internet, assim como a “virtualidade” de algumas formas de expressão permitiram a simultaneidade de discursos e o estabelecimento de múltiplas interligações e leituras das obras de arte.

Nas interacções com o espaço – real ou virtual – as obras adquirem e alteram os significados, os significantes e as funções atribuidas no todo em que se inscrevem. Muitas vezes a obra reinventa-se a cada nova representação, que pode ser simultânea e realizada por qualquer um. A velocidade a que ocorrem e o carácter inacabado, em permanente construção/transformação pela relação com o meio são também um bom exemplo do uso actual do anacoluto.

As mudanças na estrutura do discurso, tal como a sua compreensão, contudo, só são possíveis quando se conhecem e dominam as gramáticas. So assim se pode questionar e expandir a linguagem. Torna-se, assim, imprescindível uma educação da população em geral onde se desenvolvam o pensamento filosófico e o “pensamento” artístico.


   

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