| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 15-04-2009 22:32
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… ou a construção do arco-íris:
Para além de ser uma das personagens do Decameron, o que lhe valeu ser amigo de Bocaccio, é agora o nome de uma importante marca de canetas de feltro. Mas ele, o grande, apesar de, segundo dizem, ter sido de pequena estatura, nasceu em 1266, perto de Florença, e neste final de período escolar, entre as aulas e a Páscoa, com dias inteiros na escola sem ver o sol, e ainda por cima sem os alunos, foi quem me valeu. Porque está “implícito” numa exposição que tive mesmo à mão, não ele mesmo, mas o que, para além da obra, por aí resta dele: a memória do nome em forma de canetas de feltro. Não me refiro àquelas com que se escreve, ou com que se desenha, mas com que, sem escrever, sem desenhar, realmente se cria.
Parece que o menino Giotto desenhava sobre pedra, mas não se sabe com que materiais. De marca “giotto” de certeza que não eram os pincéis de Giotto. Parece que teria visto o cometa Halley, talvez responsável pela forma inusitada da estrela de Belém na sua pintura “Adoração dos Reis Magos”. Este facto é responsável pelo nome atribuído à sonda Giotto, uma das que viajaram em direcção ao cometa, alcançando-o em 1986 para determinar a natureza química e a estrutura física do núcleo, descrever a composição de sua cauda de poeira e íões, e analisar os processos e mudanças que ocorrem no envoltório gasoso sob influência do vento solar. Mas voltemos ao assunto, e continuando em torno de Giotto, que como se vê, ainda dá pano para mangas (embora os vestidos que constituem parte desta exposição na realidade não possuam mangas), nome para canetas e motivo material para criação artística, sem que o seu uso seja o canónico. Aqui as canetas não se retiraram, discretamente ocultas sob a obra a que deram cor, elas são a substância e a substância são elas e a cor.
Estes giottos tão coloridos são o pretexto, a musa, o corpo material e a metáfora usada por Fernando Brízio na criação da série de peças que se encontram na exposição que está actualmente na Galeria Lino António da Escola Secundária Artística António Arroio. Vestidos, papel, objectos cerâmicos e canetas de feltro. Não umas quaisquer: Giotto. As canetas estão habituadas a escrever, a pintar, e a repousar entre o escrever e o pintar. Aqui as canetas ou formam elas próprias objecto, erguidas no espaço a criar terceiras dimensões, ou equilibram-se nas suas pontas ou bicos descobertos sobre papel, aí vertendo manchas coloridas, no papel descoagulando a cor. Aparentemente sem intenção. Não há traço de artista, há o escorrer do líquido que o artista permitiu. Ou intencionou. Nenhum mais indicado para simbolizar a cor, que este pintor (aqui simbolizado pela marca comercial) que ousou substituir por azul, o dourado do céu bizantino. Dois manequins vestem-se de cores que se transformam em bolsos que acolhem as canetas que lhes dão a cor, assim criando um invisível oroboro. Oculto sob a cor. Outras peças há em que as canetas, umas às outras unidas, formam o objecto que nos habituámos a ver em cerâmica: uma taça, uma malga, uma cerca, uma muralha, mais uma vez, uma serpente.
Apenas visitando esta exposição se torna evidente o que não consegui explicar: o percurso que vai de um pintor italiano do século XIII ao de um designer português do século XXI, de um Giotto a um Brízio (nome que não deixa de ter uma musicalidade medieval), de um pintor que usava certamente os materiais do seu tempo para pintar as suas obras, a um designer que usa canetas de feltro de marca com nome de pintor, para com elas construir objectos dando-lhes vida num espaço tridimensional onde não é desprezado o ponto nem o plano, e onde o objecto caneta não desenha, mas derrama, colora com o que derrama, mas igualmente com o seu próprio colorido corpo, e onde os esguios cilindros se comportam como tijolos, erguendo estruturas de arco-íris. http://www.risocordetejo.blogspot.com/ |
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