| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 08-05-2009 14:10
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Brígida Machado Às vezes ando pela rua e entro pelas portas que se apresentam abertas. Aquela galeria, que agora já não está lá, mudou-se para o Príncipe Real, colocou-se um dia no meio do meu caminho. Eu vinha com a mente em branco, de tanto nadar. Afogara os pensamentos e sentia-me como uma tela em espera. Então entrei na Galeria e foi como se todo o assustador universo da infância tivesse resolvido desassombrar-me, digo libertar-me do medo, com uma encenação de espaço, cor e humor.
Eu, que não sou especialista em arte, nem quero sê-lo, mas que de vez em quando me perco no amor por uma ou outra obra, olho para esta pintura e sei que algo aqui me liberta e evoca, ou pelo tipo de composição ou pela temática, um pouco Bosch, um pouco Paula Rego. Digo “evoca”, não digo repete. E de algum modo faz, dentro de mim, a reabilitação do medo. Sai-se dos universos domésticos de Paula Rego e entra-se no mundo do espectáculo, mas mais uma vez são as entranhas, os bastidores. E na verdade, basta de dores. “Desencenemos” a dor, entrando nesta pintura. Com as luzes, os espelhos, os animalescos humanos preparam o seu carnaval. Não é esta, a festa da carne? A carne que aqui é mostrada abaixo das máscaras. Em cima o animal, em baixo pernas e pés despudoradamente nus, como nos sonhos. Aqui se assume a carne, se assume a máscara. É um mundo um pouco caótico, mas sente-se uma certa organização do caos onde estes seres ainda não totalmente humanos parecem movimentar-se bem, parecem ter aprendido a mexe-se. Estes bonecos, se eu os tivesse podido segurar na minha infância, ter-me-iam preparado para todos os horrores. Ter-me-iam guiado pelo meio do caos. Imagino agora a menina a meter e tirar de dentro de arcas que também podem ser caixões, o corpo do lobo mau que apenas lá consegue acomodar-se com os pés de fora, ridículo como qualquer ser com os pés de fora, mesmo o terrífico lobo. E eles brincam com rodas, tubos, canalizações. Eu teria brincado com eles, se os tivesse conhecido a tempo. Significa isto que chegaram um pouco tarde? Qual é o tempo deles? Qual o meu tempo? Não recuaram eles agora até ao mundo da menina que sabe brincar? Não necessitam também eles disso? Onde, se não num universo infantil, pode um aquário estar colocado sobre um fogão por sua vez ligado à electricidade, sem que isso tenha o menor eco ou odor de sopa de peixe? Torneiras, bidões, mangueiras, canalizações, todo um universo de água invadido por criaturas improváveis, excepto no mundo dos loucos, das crianças, dos artistas, os poucos que conseguem salvar-se da loucura da normalidade. Poderia ficar horas olhando estas cenas, estudando as poses, as histórias, absorvendo as cores, brincando com as formas. E fico. Mal termine este texto, é para lá que volto. Para salvar o lobo mau. E os peixes. Esta pintura é uma espécie de mapa diagnóstico do que é preciso salvar no mundo. Pela dimensão da tragédia, nunca consegui salvar nenhuma das personagens da Paula Rego. Mas aqui fica-se sem dúvidas: é preciso salvar o pássaro dos explosivos, os ratos do afogamento e os peixes da cozedura. E é possível. Depois, ficamos livres. (Agradecimentos à Galeria Trema pela gentil cedência das imagens) http://www.risocordetejo.blogspot.com/ |
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