| By Nuno Cunha,
on 24-05-2009 00:01
|
“As Cidades Invisíveis” de Italo Calvino ganham forma plástica nas obras actuais de Carla Rebelo. É o início de um novo projecto que já começou a expor, integrado na mostra "entre dois tempos", conjunta com obras de Rita Cortez-Pinto: “É o início da minha ligação com o livro em termos plásticos”.
Aqui mostra a sua relação com Lisboa e a forma como a sente. Agora prepara-se para trabalhar sobre outras cidades “dentro deste universo”, como referiu, para em Junho participar numa colectiva de desenho no Espaço Avenida, em Lisboa. Como é que procura e pesquisa as questões que depois leva à forma? Depende muito do trabalho. Este trabalho que está exposto partiu de um livro. Já o tinha lido várias vezes e foi nascendo o desejo de fazer trabalhos plásticos a partir dele, mas o projecto do Museu do Traje, por exemplo, teve a ver com o facto de gostar do Museu há muito tempo e com o qual me sinto ligada, porque tenho uma formação em têxtil. Sentia uma relação muito especial com o jardim desde a infância – vivia lá perto – e surgiu-me a ideia de fazer ali uma exposição. E a pesquisa? Depende do que for fazer. Para as “Cidades Invisíveis”, este projecto agora exposto, fiz três intervenções e para cada uma delas fiz uma intervenção diferente e baseei-me em coisas distintas. Por exemplo, há um trabalho que tem a ver com a cidade de Lisboa. Comecei por ver alguns mapas, mas não me baseei neles. Acabei por me fundamentar na minha relação com a cidade. Eu parto muito de mim, daquilo que sinto, para as minhas intervenções. No livro de que parti, há alguém que descreve as cidades que vai vendo a outra pessoa. Numa cidade há um tapete e eu parti dessa ideia. Uma das ideias do livro é que, quem conta as histórias das diferentes cidades, parte sempre da sua primeira cidade, que neste episódio é Veneza. A história é contada por Marco Polo e ele era veneziano. No meu trabalho eu teria de começar a falar da cidade que para mim é a referência: Lisboa. O trabalho foi, portanto, entrar em mim e tentar perceber com que zonas da cidade me relaciono mais, com as quais tenho histórias, os locais especiais para mim, os sítios a que recorro quando preciso de pensar. Essa pesquisa é muito racionalizada? Penso que não. É muito sensorial, o que eu sinto pelas coisas. Nessa relação com a cidade, qual o tipo de questões que mais procura: do quotidiano? Da vida? Da polis? Não de todo. Neste caso, eu parto da minha relação com os caminhos. É uma relação pessoal com a energia da cidade. Não tem a ver com o que acontece na cidade nem com os seus edifícios. Tem a ver com os meus caminhos e as histórias que eu tenho com ela. O caminho é para mim importante porque tem a ver com escolha. É algo metafórico daquilo que é a decisão, da qual eu sou responsável, tem de ser tomada e fica marcada para toda a vida, seja ele um caminho na paisagem, procurar um emprego, ler um livro ou começar uma nova relação. Referiu a componente metafórica da decisão. A poética é importante no seu trabalho? Sim, é importante ter alguma poesia no trabalho. Espero que as minhas intervenções a tenham. É muito importante. Este livro por exemplo é altamente imagético, poético e metafórico. É importante para mim jogar com estas linguagens que são a base da minha linguagem plástica. Voltando ainda à cidade, as questões sociais não lhe interessam para o seu trabalho? Não, as questões sociais não me motivam. Em que momento é que estabelece uma relação com o público? É importante para si essa relação? A relação que o público estabelece com as minhas obras? Não só. Em que momento é que ele surge como importante no seu trabalho? Quando o pensa? Na fase de execução? Só quando o expõe? Ou não chega a ser importante para si? É importante. O que gosto mais de fazer é instalação e gosto de envolver as pessoas no meu trabalho, envolvê-las mesmo fisicamente. Neste sentido, o público é importante porque é o seu corpo e a sua circulação na instalação que vai fazer a peça existir. Nuno Cunha (entrevista publicada na revista NS, suplemento de sábado do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias) |