plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Opinião/Crítica arrow Pedro Chorão à procura do “ponto” certo | Entrevista  
05-Fev-2012
Pedro Chorão à procura do “ponto” certo | Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha, on 24-05-2009 00:06


 Pedro Chorão pinta à margem do mediatismo, do tráfico de influências, impondo-se uma “postura ética de grande rigor” (Paulo Henriques, 2002). Não segue correntes, não procura influências de grandes nomes da arte, antes o faz a partir das coisas simples do quotidiano da vida. Não está na moda, nem fora dela. Expõe há 34 anos, está representado em colecções de referência (Gulbenkian, Caixa Geral de Depósitos, vários ministérios, museus e instituições), mas mantém sempre a descrição que a sua própria maneira de ser lhe impõe.

Rocha de Sousa apelida-o de poeta da escassez. Como é que pensa a poética no seu trabalho?

É-me difícil ver poética na minha pintura, mas na literatura a minha leitura preferida é de longe a poesia. Ora, a poesia é uma prosa curta, que pode ser entendida de diversas formas, hoje pode proporcionar-nos uma leitura, amanhã outra, e a minha pintura é, também, um pouco isso. Não mostra declaradamente um conteúdo, mesmo que seja “figurativa”, não é directa e cabal, mas é sempre uma sugestão para o observador tirar as suas próprias conclusões.

Pelo paralelo que estabelece parece ver poesia no seu trabalho...

Olhado desta forma pode-se dizer que sim. É uma pintura que usa poucos meios, nunca é explícita, não concretiza. Deixo um quadro quando ele chega ao ponto de já poder ter alguma interpretação. Penso que isso é interessante para as outras pessoas porque, no fundo, pinto para elas, a pensar nelas. É a minha maneira de comunicar. Quando chego a esse ponto, abandono o quadro. Tudo o que pusesse depois disso seria redundante.

 É a escassez referida pelo Rocha de Sousa?

A minha pintura é um pouco despida. Eu uso pouco material. Aparenta sempre ser um apontamento, uma pintura nunca acabada.

A relação com o público é então importante. Em que momento? Ao pensar num novo trabalho, durante o processo, no final, durante a exposição ou em todos estes períodos?

Acontece naturalmente.

De forma intuitiva?

A minha pintura é muito racionalizada, embora não aparente. O acto de pintar é muito rápido. Sou, no entanto, capaz de estar horas e horas – e dias – a olhar, perante a tela branca, a imaginar coisas. Depois começam a aparecer cores e eu vou fazendo longos intervalos, por vezes de um dia, e depois muito rapidamente acontece qualquer coisa. Frequentemente isto vai anular o meu propósito anterior. O processo é este. Estou com muita atenção, estou totalmente com um quadro, olhando-o muito e, de vez em quando, as coisas saem, uma vezes da forma que eu imaginava, outras não, aliás é muito raro resultar exactamente naquilo que eu inicialmente pensei.

 Voltando ainda à sua necessidade de comunicação. João Miguel Fernandes Jorge, ao escrever a seu respeito, fala de “anonimato de existência” para referir a manutenção de extrema descrição da sua parte. Não é contraditório com essa sua necessidade?

Suponho ter a ver com a minha maneira de ser, de pensar, de actuar e de estar. O que acho fundamental ponho-o nos quadros e as coisas mais simples são as mais importantes. Nós é que complicamos tudo.

Normalmente, como é que chega à ideia? O Paulo Henriques, por exemplo, fala da presença da paisagem no seu trabalho!

Eu aprecio-a muito, toda a vida me interessou muito a luz, tenho memórias muito agradáveis de luz ainda eu não falava. Se estiver para fazer mesmo que seja um retrato ou uma janela, sempre disfarçada, não real, ou um retrato que seja só uma sugestão, de uma maneira geral sinto a necessidade de aplicar cor, sobretudo o azul e o branco. Uso muito o branco que assumo como uma cor e, juntamente com o azul, torna-se muito espacial. Recorro a variadíssimos azuis, uma gama de cor que eu penso que domino razoavelmente.

 Mas como é que chega à ideia? A partir de sugestões do quotidiano? Da cidade?

Sim, inconscientemente há sempre alguma sugestão, mesmo que não expressa, de qualquer coisa de palpável dentro de mim, mas como é expressa de maneira tão escassa o público não dá por isso.

A geometria está muito presente na sua obra...

Está!

Há referências, mesmo, ao recurso à geometria sagrada. Isso corresponde à realidade? Recorre à regra de ouro?

Eu preocupo-me com a construção da pintura no quadro, o equilíbrio e a ortogonalidade. Uso pouco as formas redondas e as oblíquas. Nasci no meio da arquitectura – o meu pai era arquitecto – e eu gosto muito da ideia de arquitectura enquanto modelo. Ainda hoje sou fã da arquitectura muito simples, muito despojada. NUNO CUNHA


Nuno Cunha

(Publicado na revista NS, suplemento de sábado do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias)


   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >