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12-Mar-2010
Experiências e Observações... | Bienal de Veneza PDF Imprimir e-mail

By Natxo Checa, on 24-05-2009 01:06


 Natxo Checa, comissário da representação portuguesa à Bienal de Veneza, com obras da dupla João Maria Gusmão + Pedro Paiva, é o autor do texto que a seguir publicamos.

 

Experiências e Observações em Diferentes Tipos de Ar. [1]

Experiências e Observações em Diferentes Tipos de Ar convoca três dimensões, num regime de intenção e coerência, na obra fílmica de Pedro Paiva e João Maria Gusmão. São os seguintes: o estudo de fenómenos singulares numa tentativa de compreensão do mundo; a afeição a uma metodologia científica; e o entendimento da poesia como possibilidade de aferição de um mundo apenas parcialmente discernível. Surpreendentemente essas mesmas dimensões reflectem o dilema entre a tese de Lavoisier e a de Joseph Priestley acerca da natureza do oxigénio. Não é por acaso que a exposição se apropria do nome do tratado mais conhecido de Priestley. Desde os pré-socráticos (Empédocles, Anaximandro e depois Aristóteles) que a ideia de «ar» é tão metafísica quanto material, porque se associa a ideia de sopro à respiração e à noção de que o «ar», enquanto enteléquia, anima o fogo da vida.  Todavia, na investigação de Priestley, não vamos reconhecer a qualidade comburente do oxigénio, identificada depois por Lavoisier. Pelo contrário, acredita-se que são os próprios materiais combustíveis que contêm um fluido inflamável, inodoro e sem massa – aquilo que se pode entender por elemento flogístico, libertado durante a queima e, posteriormente, absorvido pelo meio ambiente. Esse elemento é o oxigénio e não pertence aos corpos, é atmosférico. No entanto, essa é a tese que Lavoisier opõe à tradição da alquímica, cuja memória JMG+PP redescobrem com o intuito de seguir as pegadas da transmutação – não significa o mesmo que transitório, mas avizinha-se, sendo até bastante próximo.

Ao adoptar a natureza e as suas manifestações como matéria, os artistas agregam e propõem intrincados blocos de ideias e conhecimentos que se traduzem na composição de uma complexa quimera cientifictícia. Estamos perante a construção de uma série de guiões ficcionais, de perfil literário, enraizados na observação de fenómenos particulares e no desenho de uma arquitectura filosófica própria. A formulação destes sistemas no processo artístico de JMG+PP tem algo de obsoleto, cientificamente, bastante semelhante à teoria flogística de Priestley. Vai-se descobrir que estes processos concorrem para a formulação de uma elaborada disciplina indagadora do transitório. Neles se procura um rasto revelador do movimento, qualquer coisa que possa produzir uma investigação. Forma-se assim um trilho onde sequências inaugurais e temporárias de ideias partilham uma compossibilidade teórica; isto é, formulam hipóteses que pensam tanto o seu fundamento, como desenvolvem e confirmam os seus postulados, a sua demonstração. As propostas de JMG+PP, assentes num certo tipo de pesquisa empírica ou na especulação delirante, surgem a partir de um método racionalista que procura dar conta da excepção dos fenómenos. Mediante a sobreposição de estratos (fruto da penetração entre o literal o metafórico), elaboram-se, ao longo da sua obra, relatos que não podem ser assumidos por um código instituído, lembrando, muitas vezes, uma compilação de factos documentados sem aparente explicação.

 Efectivamente, o que podemos encontrar na obra destes dois autores são episódios sem nexo: mostram-se processos que tratam de acontecimentos anómalos, sucessos inesperados, exemplos de fenómenos emergentes, ora ao nível microscópico, ora ao macroscópico, e, sobretudo, efeitos flogísticos: isto é, acontecimentos cuja causalidade é invisível, mas que de alguma forma rebentam, fazem combustão – criam sentidos revelados depois analogicamente, através de progressões de significantes: o olho, o ovo, a lua, o sol, etc...

Na contingência do dispositivo artístico, os artistas montam uma estratégia que nos aproxima da mínima evidência do seu pensamento. Como apresentar uma operação que tem intenção de dar a conhecer o inominável sem recorrer ao texto? Como fazer acessível à vista a invenção de conceitos e terminologias como DeParamnésia, Eflúvio Magnético e Abissologia, sendo que essas noções se referem a uma ontologia patafísica onde o entendimento do ser está permanentemente sob o efeito do eclipse?

O trabalho de JMG+PP depara-se sempre com essa complexidade: a de se propor a resolver a quimera criada, quimera essa que se ocupa essencialmente da ocultação e do movimento dos fenómenos. Como os artistas dizem: «As coisas sempre se manifestam segundo alguns aspectos indiscerníveis.» [2] É por isso que o objecto da sua pesquisa está sempre em deslize e dificulta a interpretação.

 A obra desta dupla é constituída, na sua génese, por cinema experimental, apesar de não dispensar pontualmente o recurso à escultura, à fotografia e a outros dispositivos instalativos. Não obstante, é mais no registo fílmico e sobretudo nos filmes em slow-motion que se estabelece uma relação remanescente do olhar com o efémero e o olhar com o efémero e o transitório. Esta nova proposta expositiva para a Bienal de Veneza é pontuada pela disseminação de vários projectores de 16 mm num circuito. Os engenhos fílmicos na sua latência sonora marcam um contraponto ao silêncio da imagem. A atribuição de um espaço obscuro fora-de-tempo deixa-se reconhecer pelos débitos de luz num ambiente introspectivo. As projecções, em aparente alternância, oferecem ora um filme isolado, ora um conjunto. Uma construção visual onde narrativas simples e intervaladas apresentam-se enquanto documentos, experiências singulares ou fenómenos inexplicáveis. Na deslocação pela exposição, o visitante consciente é levado a estabelecer ligações e a formular ideias reencontrando sentidos no campo das possibilidades.

Este percurso, radicado no ambiente da excepção, utiliza os instantâneos como uma ferramenta que organiza o movente num parecer analógico. Na obra de JMG+PP esse princípio em que os filmes provocam ecos uns nos outros recorre à evidência da manipulação e à construção do mágico por simpatia. Isto implica sempre a produção de um acontecimento, seja ele estendido no tempo ou no imediato.

Percebe-se agora que a intenção de JMG+PP é produzir algo próximo de uma ciência revolucionária. Não no sentido em que os artistas têm uma palavra definitiva a dizer sobre a verdade, mas porque tentam responder essencialmente ao instável, àquilo que escapa precisamente ao definitivo.

 Ao descortinar as contradições constantes entre o ser e o não-ser, o próprio e o não-próprio, o imaginário de JMG+PP leva a constituir uma relação corpórea com a imaginação, interligando estas duas dimensões num ciclo de mutações materiais. Nos seus filmes, o inconsciente humano é dirigido à aceitação de que o absoluto é extemporâneo e que este se dilui na multiplicidade do mundo. Isto é, que o eu assume uma grande diminuição na importância das coisas; não porque seja esmagado pelo absoluto, mas porque as margens até onde pode organizar o logos ficam muito além dessa certeza.

Também através dos seus filmes e experiências, João Maria Gusmão e Pedro Paiva convocam esta hipótese de outros abismos metafísicos com um sentido de humor muito particular. Reconhecendo o fracasso da aproximação ao real, esfolam as absurdidades científicas traçando pela poesia novos enunciados. Uma aventura patafísica que apresenta o que pode ser considerado o maior dos fracassos: o fracasso do ego e do seu aprisionamento, a impossibilidade de acesso directo a uma verdade e uma procura zombante e alucinada, cujo fim se antevê inalcançável.


Natxo Checa
Comisário


[1] Título recuperado de uma obra do químico, físico e teólogo inglês Joseph Priestley (1733-1804). Fez experiências com a electricidade e o ar e conseguiu isolar, pela primeira vez, o oxigénio no seu estado gasoso. Anotemos aqui que se pretende fazer uma aproximação entre a hipótese desenvolvida por Priestley, acerca desse fluido incorpóreo e sem peso - a enteléquia flogística -, e a metodologia dos artistas.

[2] «Visão entrópica e meteorismo», de João Maria Gusmão e Pedro Paiva, in Abissologia, Horizonte de Acontecimentos.


   

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