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05-Fev-2012
Serralves: "Construir uma memória do presente" PDF Imprimir e-mail

By João Fernandes *, on 31-05-2009 01:39


 

"Construir uma memória do presente" é a tarefa desempenhada pela Fundação de Serralves ao longo dos seus 20 anos de existência. João Fernandes escreve sobre a exposição patente no Museu, a sua grande exposição do ano.

 

Uma Colecção em Construção

Em “Circa 1968”, a exposição inaugural do Museu de Arte Contemporânea de Serralves (1999), apresentava-se “um projecto museológico, uma filosofia de colecção e um conjunto de experiências artísticas que se defin[iam] pela superação dos limites de qualquer programa que as pretend[esse] caracterizar e condicionar”1. Um dos primeiros objectivos do novo Museu consistia, com efeito, na afirmação clara dos parâmetros norteadores da colecção que lhe fixaria a identidade e contextualizaria a programação.

O isolamento cultural de Portugal no século XX, herdeiro já de similar isolamento reconhecível no século XIX e agravado por meio século de ditadura, não favorecera o desenvolvimento no País de colecções de arte internacionais. Algumas colecções de empresas e de bancos foram sendo construídas nas décadas de 60 e de 70, de modo relativamente discricionário e ocasional, consoante gostos nem sempre justificáveis ou pontuais fases de especulação do pequeno mercado da arte portuguesa. Quase sempre confinado ao mercado nacional, o coleccionismo particular raras vezes ultrapassou até então a mera necessidade da decoração doméstica, do entusiasmo ingénuo ou de não menos ingénuas tentativas de legitimação social numa sociedade onde a arte e a cultura estavam longe de a assegurar.

Neste panorama, só a Fundação Calouste Gulbenkian desenvolveu no País uma colecção com alguma dimensão internacional. Integrando – em razão das actividades e dos negócios da instituição no contexto britânico – um núcleo relevante de arte inglesa representativo sobretudo do período pop, fora também esta a única colecção em Portugal a resgatar do esquecimento obras fundamentais do modernismo português, de entre as quais se destaca um extraordinário acervo de obras de Amadeo de Sousa-Cardozo. Reflexo do trabalho que a instituição vinha desenvolvendo no apoio às artes e aos criadores nacionais, em substituição de um Estado nesta matéria demissionário e absentista, a Colecção da Fundação Calouste era a única minimamente representativa de um contexto da arte portuguesa do século XX.

Criada já depois de instaurada a democracia no País, a Colecção da antiga Secretaria de Estado da Cultura – representativa sobretudo das opiniões heterogéneas, e por vezes contraditórias, dos vários membros das suas Comissões de Compras – viria a ser colocada em depósito na Fundação de Serralves pouco antes da abertura do novo Museu. Na década de 80 e por iniciativa da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, surge em Portugal uma colecção especificamente dedicada à contemporaneidade. Centrada exclusivamente em artistas portugueses e integrando obras realizadas entre a década de 60 e a actualidade, com um grande destaque para o desenho como suporte do trabalho dos artistas representados, também esta colecção se encontra hoje depositada em Serralves.

 A criação, em 1989, da Fundação de Serralves, tendo em vista a criação de um museu em Portugal para a arte do século XX, suscita de imediato a necessidade da constituição de uma colecção. O primeiro Director Artístico da Fundação, Fernando Pernes, é assessorado por uma comissão constituída por Manuel Nunes de Almeida, Bernardo Pinto de Almeida e Alexandre Melo, os quais dão início a aquisições de obras de arte, na sua maioria da autoria de artistas portugueses. As verbas disponíveis são limitadas, pelo que o acervo cresce sobretudo a partir da incorporação de depósitos de particulares. Com o início da construção do novo Museu, uma nova direcção artística é convidada, constituída por Vicente Todolí, primeiro Director do Museu, e por mim, na condição de seu Director Adjunto. Define-se um novo modelo de financiamento da Colecção assente na conjugação dos contributos da Fundação, do Estado e da Câmara Municipal do Porto. A chegada de Vicente Todolí viria permitir o crescimento da ambição e o alargamento dos objectivos da Colecção. Dez anos antes, Todolí iniciara e solidificara a colecção de um novo museu em Espanha, o Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM), inovadora nas suas estratégias e objectivos em relação ao contexto museológico europeu e internacional. Dotado de uma vasta rede de contactos e conhecimentos, Todolí trazia para Serralves alguns dos princípios de trabalho que praticara já em Valência: propiciar, a par da reunião de obras de artistas mais conceituados, o conhecimento do trabalho de artistas menos reconhecidos e dar preferência a certas obras menos conhecidas de artistas já consagrados, que se poderão considerar mais íntimas dos seus processos criativos, em vez de seguir “as imagens de marca” mais procuradas pelo público, já construídas e ilustradas por outras colecções institucionais ou particulares. Vicente Todolí irá afastar-se de obras “que sejam meras ilustrações de teorias, buscando antes aquelas que transcendem e muitas vezes contradizem os próprios contextos teóricos que parecem constituir os seus pontos de partida”. Constatando “que, por vezes, até nos artistas considerados mais conceptuais há uma traição estética”, Todolí interessa-se sobretudo pelas obras em que “as formas nascem da própria experiência do processo artístico que redefine a condição do objecto de arte”.

Definindo as balizas cronológicas que delimitarão o seu núcleo histórico, “Circa 1968” apresenta um programa de actuação e constitui um utensílio relevante para a criação da colecção do novo Museu: aí se apresentava um conjunto vasto de obras de arte, na sua maioria disponíveis para aquisição, realizadas entre 1965 e 1975, período no qual se identificava uma mudança de paradigma. A partir de “Circa 1968”, o Museu de Arte Contemporânea de Serralves constrói um ponto de vista sobre um período que começará então a ser comummente aceite como o início da contemporaneidade artística e no decurso do qual a condição da obra de arte é redefinida tanto numa interacção com a vida como numa crítica da autonomia, da “essência” e do “ensimesmamento” da obra de arte “então tradutível nas experiências minimalistas”. Nessa mudança de paradigma reconhece-se um cruzamento dos géneros formais, o uso do filme, da fotografia e do texto como suportes de projectos conceptuais, o entrelaçamento da pesquisa das relações entre a arte e a vida com a agitação de novas ideias políticas e sociais e a “utilização de novos materiais, sejam eles materiais pobres, reciclados a partir de outros preexistentes ou então materiais tecnologicamente sofisticados”. Constituem-se dentro da nova colecção núcleos relevantes que traduzem também novos suportes utilizados pelos artistas, como os livros e as edições, os filmes e os vídeos de artista. Nuria Enguita selecciona um acervo de obras representativas do papel que a imagem em movimento desempenha na arte dessas décadas, enquanto Guy Schraenen começará a trabalhar como consultor do Museu no que diz respeito à aquisição de livros e múltiplos de artista, pondo também ao serviço de Serralves a experiência e o conhecimento de editor e de coleccionador particular que virá a partilhar com outros museus de arte contemporânea europeus.

Fixar nas décadas de 60 e de 70 o início do período histórico coberto pela colecção do primeiro museu português especificamente vocacionado para a contemporaneidade possibilitava igualmente uma convergência entre as obras de uma nova geração de artistas portugueses então surgida e as obras de numerosos artistas que, pelo mundo fora, protagonizaram novas linguagens, formas e atitudes. Assumia-se no texto que acompanhava “Circa 1968” que, “situando-se em Portugal, a Colecção traduz[iria] igualmente os anos de uma ruptura que anuncia[va] os experimentalismos dos anos 70, os quais reflectem um diálogo com experiências internacionais que até aí raras vezes fora assumido com tal sentido da contemporaneidade na arte portuguesa do séc. XX”.

Oferecendo a artistas nacionais a possibilidade de verem o seu trabalho integrado numa colecção internacional, a Colecção do Museu de Arte Contemporânea de Serralves afirma também a sua identidade no aprofundamento do conhecimento da arte contemporânea a partir de um contexto português, mediante o confronto de obras e discursos sobre essas mesmas obras independentemente de histórias e fronteiras geográficas. Paralelamente, procurará desenvolver-se também como memória da programação intensiva de exposições temporárias que caracterizará a vida do Museu de Arte Contemporânea de Serralves, objectivo inseparável dos seus critérios de programação. Com mais de 250 exposições realizadas, dentro e fora de portas, nos seus primeiros dez anos de existência (e nas quais se registou uma proporção de um terço de artistas portugueses e de dois terços de estrangeiros), o Museu multiplicou possibilidades de trabalho que a sua Colecção documenta.

 Quando, em princípios de 2003, assumi, com Ulrich Loock, a Direcção do Museu, o núcleo histórico da Colecção estava definido nas suas linhas programáticas essenciais, materializando-se na incorporação no acervo de uma grande parte das obras de arte apresentadas em “Circa 1968”. Reconhecia-se no entanto a necessidade de representar na colecção artistas que de forma decisiva haviam contribuído para as várias mudanças das práticas artísticas ocorridas da década de 80 até ao presente. Confrontando-se a distância histórica com os dilemas múltiplos de um presente onde as obras de arte são cada vez menos reconhecíveis através de um ponto de vista programático, adequado se nos afigurou organizar o acervo através da constituição de constelações que, longe de diminuírem, antes intensificam a radical individualidade de cada trabalho. Com efeito, a partir da década de 80, confrontávamo-nos com uma época sem paradigma, em que temas, conceitos e formas decorriam mais de uma formulação e resolução singulares do que de programas ideológicos relativos ao estatuto da arte e do objecto de arte em relação ao que quer que sejam a vida, a sociedade ou o mundo. Uma reavaliação das grandes narrativas históricas, sociais, políticas e estéticas tinha sido operada, suscitando novos caminhos onde nos interessava reconhecer que a liberdade inerente à criação artística surgia como um programa cada vez mais original e solitário. Muitas obras recentram-se em problemas que pareciam anteriormente dados por extintos, tais como a questão do autor e a da necessidade de uma poética individual. Certezas anteriores dão lugar à dúvida, à hesitação, ao “e porque não?”, que libertam a obra de arte de programas formais ou conceptuais pré-determinados. O universo de circulação da obra de arte deixa de ser exclusivamente euro-americano, começando, em consequência de importantes alterações históricas que vão ocorrer ao longo da década, a ampliar-se e a absorver a criação artística de contextos até então tidos por “periféricos”. A ampliação da União Europeia, a erosão das ditaduras sul-americanas e das dicotomias originadas pela Guerra Fria, a redefinição de um contexto pós-colonial, a queda do muro de Berlim contribuem para o início de uma globalização que se intensifica decisivamente no início de um novo século.

Desenvolver uma colecção de arte torna-se, por sua vez, cada vez mais difícil para os museus. No contexto de uma sociedade neo-liberal em que deixa de ser reconhecido como protagonista de um património construído pela comunidade no presente para uma “comunidade por vir”, o museu vê-se confrontado com um mercado da arte cada vez mais competitivo e globalizado por força da capacidade económica de um poderoso e crescente sector de compradores e coleccionadores particulares e da constante emergência de novos artistas e de eventos como feiras de arte, bienais e grandes exposições colectivas. Estimular confrontos mais do que reconhecer consensos, construir um ponto de vista singular mais do que repetir outros pontos de vista já explorados, seleccionar obras de arte independentemente de estratégias de legitimação já reconhecidas e consagradas continuou a configurar-se o caminho que decidimos percorrer. Nos últimos cinco anos, a Colecção documenta sobretudo a programação de exposições temporárias do Museu. Trabalhou-se no presente sem deixar de interrogar a história como horizonte de objectivos a concretizar num futuro próximo. Consolidou-se o caminho percorrido nos anos anteriores para chegar a novos caminhos, a novos cruzamentos cujos percursos estão agora a ser explorados. De um e de outros aqui damos conta, cientes do risco e do dever inerentes à apresentação de uma colecção em construção – do risco do muito que ainda há por fazer e do dever de assumir o trabalho realizado como uma proposta de discussão e de reflexão que irá sem dúvida fazer parte também do trabalho a realizar a partir de agora.

No momento em que o Museu celebra os primeiros dez anos da sua existência, todos os seus espaços são pela primeira vez mobilizados para a apresentação da sua Colecção. Conquanto desdobrada em dois momentos e documentada por um catálogo também ele dividido em dois volumes (o segundo dos quais publicado por ocasião do segundo momento da mostra), “Serralves 2009” assume a sincronia como desafio retrospectivo e prospectivo da Colecção do Museu. Escolhidas em função das novas possibilidades de interpretação que a sua coexistência temporal e espacial possa oferecer ao visitante, os trabalhos em exposição confrontam diferentes tempos, linguagens e histórias. Cada espaço do Museu apresenta obras de arte independentemente dos seus contextos originários, não havendo um percurso único e pré-determinado entre elas. Formas, suportes e atitudes são explorados no aprofundamento das diferenças específicas que a sua presença simultânea na Colecção possa propiciar. Trabalhos muito diversos de artistas portugueses e estrangeiros de várias gerações encontram nesta Colecção a cartografia errante de um caminho em construção, sem mapa nem bússola que lhe sirvam de limite ou objectivo. Optou-se por trabalhar sobretudo a partir das obras adquiridas ou doadas, sem que tal diminua a relevância de muitas obras em depósito provenientes de várias colecções particulares. As excepções contemplam obras provenientes da Colecção do Ministério da Cultura, da Colecção da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento e da Colecção Sonnabend, assim como obras em depósito de alguns artistas, ilustrando o grande valor simbólico e programático que tais depósitos assumem no historial da Colecção.

 


A exposição não é, nem jamais poderia ser, representativa de toda a Colecção. Uma exposição é sempre um momento e uma situação, enquanto uma colecção é sempre uma outra realidade que transcende os momentos e as situações da sua apresentação. A coexistência das obras e os confrontos que delas advenham como novas propostas para a sua interpretação foram privilegiados. Do mesmo modo que um conjunto de livros não pode resumir uma biblioteca, tão-pouco pretendemos suscitar uma hierarquia entre as obras agora expostas – sobretudo aquisições – e trabalhos de referência – designadamente os de colecções em depósito, institucionais ou privadas – cuja relevância mostras futuras documentarão devidamente, no âmbito de um programa que, em diferentes momentos, explorará a diversidade e a riqueza da Colecção e ilustrará outras e surpreendentes possibilidades.

Convicto de que também a construção de uma colecção de arte será uma das evidentes demonstrações de que não há caminho, antes o caminho se faz ao andar2, gostaria de deixar uma palavra final de agradecimento a todos quantos – artistas, galeristas, fundadores e mecenas, coleccionadores particulares e colaboradores – nos acompanharam no trajecto percorrido e cuja presença e apoio nos continuarão a honrar ao longo dos muitos caminhos a percorrer. Procurando merecer a confiança e os recursos que a sociedade civil reuniu e continuará a reunir para se confrontar com a arte do seu tempo, reconhecemos o papel do Estado Português e o de todos quantos se associaram ao projecto da Fundação de Serralves, nomeadamente os seus Fundadores, para tornar esta Colecção possível. Nas pessoas de Ileana Sonnabend e de António Homem, para cujo apoio e cumplicidade temos uma dívida de gratidão, exprimimos o nosso reconhecimento e rendemos homenagem a todos quantos, fora de Portugal, nos têm ajudado a construir a Colecção.

Será agora a ocasião de, através desta exposição e do seu catálogo, continuar a assumir a função essencial de um museu de arte contemporânea: construir uma memória do presente, adicionando conhecimento e novas possibilidades de interpretação à experiência da obra de arte, partilhando essa experiência com todos quantos o visitam, formulando novas questões na consciência de que a arte jamais se poderá resumir às respostas já encontradas ou aos caminhos já percorridos. Uma colecção de obras de arte em construção faz também parte de um mundo cada vez mais diverso que cumpre a todos continuar a construir.

* João Fernandes, director do Museu de Serralves

 

1 Vicente Todolí e João Fernandes, “Circa 1968: Em torno de uma ideia de museu e de colecção”, in Circa 1968, cat. exp., Porto: Fundação de Serralves, p. 15. Salvo menção em contrário, desta fonte são extraídas todas as citações subsequentes.

2 Cf. Antonio Machado, Antologia Poética, 2ª ed., Lisboa: Livros Cotovia, 2009: “caminante, no hay camino/se hace camino al andar”.


   

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