| By Jorge Barreto Xavier,
on 07-06-2009 00:00
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Jorge Barreto Xavier, Director-Geral das Artes, escreve sobre a obra de João Maria Gusmão + Pedro Paiva, dupla que foi escolhida para representar Portugal na Bienal de Veneza deste ano, inaugurada a 7 de Junho e que se prolongará até 22 de Novembro.
A narrativa que se exclui conta-se Há uma singularidade necessária no trabalho de João Maria Gusmão e Pedro Paiva: o seu trabalho não tem um começo, não terá por obrigatório um fim. Desde as suas apresentações iniciais até à data da sua presença na 53.a Exposição Internacional de Arte – La Biennale di Venezia, pode encontrar-se uma continuidade, ou melhor, uma sequência afirmativa, um objecto que se desenvolve – o mundo, o seu mundo, constrói-se. Todavia, o acolhimento desta evidência só pode ocorrer por um exercício complexo de apreensão: o cruzamento do que é aceite como real com a sua interpretação; o encontro com a fantasia e a sua aparente negação; a afirmação conceptual e a fragilização discursiva da mesma; enfim, a proposta destes paradoxos na forma de representações. A representação é, ela própria, uma não representação, pois, por vezes, designa o inominável, o vazio, a sombra, a margem para lá da margem, a impossibilidade para lá do impossível, com dispositivos de apropriação que permitem leituras imediatas, simplistas, aproximações sensoriais, ou, ainda, como no ritual da alcachofra, uma coreografia de paciência, onde o lugar do visitante corresponde ao espaço/tempo da viagem, até um coração encontrado na sequência do montar/desmontar de um puzzle no qual faltam, propositadamente, peças. O suporte narrativo e fantasmático do trabalho destes autores, remetendo, pela sua etérea e pressentida presença, para um xamã encoberto, promove a viagem cósmica nos interstícios do real e nessa poderosa capacidade documenta o próprio processo, falsificado por um embuste literário e filosófico que o acompanha, legitimado o embuste nessa literatura e filosofia, não se percebendo, finalmente, se está primeiro o embuste e a falsidade ou um real pseudo-universal. A viagem por este projecto consome-se em experiências meta-reais, ou suprametafísicas, como se a transcendência precisasse de novos compósitos depois da sua negação. A personalidade sóbria, exigente, na pesquisa, no processo de trabalho e na concretização (todos eles passos que, de alguma maneira são um só) dos autores é quase modelar numa geração por vezes, erradamente, confundida com excesso, dispersão ou ausência de disciplina. Num percurso a muitos títulos encantatório, feito de muito labor artesanal e de perícia técnica com recurso aos dispositivos das tecnologias contemporâneas, é companheiro de jornada Natxo Checa, que com os autores partilha processos e descobertas. A sua afirmação como curador, no contexto dos percursos ou das dinâmicas de legitimação curatoriais, não segue vias canónicas, mas não pode ser negada a competência que tem posto nos seus passos. O trabalho de Natxo Checa ao lado de João Maria Gusmão e Pedro Paiva não é só interpretativo ou de potenciação simbólica, de apresentação ou de comunicação, o seu acto é de uma companhia de percurso, numa competência autoral própria que não se confunde com a forte assinatura dos artistas que convidámos para representar Portugal na Bienal de Veneza este ano, mas que com eles faz um conjunto, numa adequação que se personifica em trindade negacionista e, contudo, poética. Este exercício cooperativo, assim como as características da presença este ano proposta por Portugal, são, para nós, exemplo forte de possibilidades e presenças nacionais que têm relevância e leitura no sistema das artes contemporâneas. Para lá do sistema, afirma-se um estatuto de proposta de vivência, de sobrevivência, de luta – silenciosa e consequente – num mundo, por um mundo, onde a competência de criar mundos e perceber que tal competência é difícil e necessária, são chave para um projecto de sociedade onde o exercício da democracia não seja uma simples aparência. A Direcção-Geral das Artes do Ministério da Cultura promove, assim, um projecto que, acreditamos, corresponde a uma das propostas mais marcantes da geração artística portuguesa dos autores escolhidos. Pelo seu dispositivo e competente densidade, procura um entendimento, absolutamente necessário, para que se possa fazer mundo(s), reivindicando e afirmando o poder supremo de excluir a História (poder-artifício, como em tudo o que é humano), para dizer que tudo está por inventar, nas muitas dimensões do (in) visível. Jorge Barreto Xavier Director-Geral das Artes |
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