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05-Fev-2012
Teresa Cabral | PERPLEXIDADES PDF Imprimir e-mail

By Risoleta da Conceição Pinto Pedro, on 12-06-2009 10:10


Plácida paisagem para o (re)pouso do olhar

 Que faz um carneiro asiático no meio dos rostos e do mar? Diz a legenda que está perdido: “Carneiro asiático perdido” . Só pode estar. Mas não parece perturbado; petisca placidamente uma erva rosada como se fosse a única coisa importante para fazer ali. E é. A sua missão é estar no meio do rosa como carneiro perdido. Também os répteis aparentemente estranhos ao cenário humano ali têm o seu lugar plenamente justificado. Esses olham o mar. Uma “quase mão”, de tão humana, ergue-se para o céu no cenário entre terra e mar. Signo, símbolo ou sinal, esta “mão” de réptil?

E os olhares para o mar? Que querem dizer-nos? Caso o queiram… que queremos nós ler ali? Seres em trânsito na terra, a meio caminho entre o mar e o céu? Tão humanos estes répteis, tão humanos…  quase tão humanos quanto répteis os humanos (ainda) são.

No meio caminho entre quadro e quadro, agora são os meninos postos sobre as rochas olhando o mar ou algo para além dele. Como os répteis. Mas já a mão não está erguida. A evidência de tal não necessita.

Circundo o olhar por corpos, rostos, bocas, olhares. Há umas bocas que gritam. São mulheres de cabeças cobertas, uma manifestação no Médio Oriente. Os olhos quase fechados ou perdidos no seu próprio íntimo. Apenas as bocas se abrem. Os olhos não precisam. Não nos  olham, como não nos olham os homens à espera de emigrar, como não nos olha o grupo junto ao lago. Como Elizabete, em trânsito para adopção, vestida de mar. Ou de céu. Em trânsito. Como nós, vindos do mar, a caminho do céu, à espera de sermos adoptados por nós mesmos. Em trânsito. Não nos olham. Mas não viemos para ser olhados, sim para olhar. Por que reparamos, então, e enfatizamos que não nos olham? Ao contrário dos rostos que nos fixam, que se afundam em nós,  cintilantemente, luminárias acesas, verdadeiros incêndios no meio do rosto. Como ler estes sinais de luz? Lê-los-á cada um como souber e puder. Do olhar verde de Umm ao olhar dourado de Ângela, espécie de reincarnação de uma Mona Lisa cujo olhar me (per)seguiu durante toda a exposição. Olhares enigmáticos e antigos como o mar e o céu.

Percebo agora por que não nos olham os outros. Para que repousemos. Não suportaríamos tantos olhares. É uma pintura sóbria, contida, silenciosa até no grito, até na mão réptil erguida, até no perscrutador olhar, até nos grupos em fileiras de espanto.

O olhar da pintora é humano e perplexo, retrata e interpreta pela pose, pela cor, pelas bocas abertas, pelos olhos fechados, pelos olhares incendiados, pelo silêncio do azul. No céu, no mar, silenciosamente, no réptil recuar.

 

Exposição de pintura de Teresa Cabral, Fábrica do Braço de Prata

 

http://www.risocordetejo.blogspot.com/  


   

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