| By NC *,
on 26-06-2009 01:34
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Miguel Soares explora campos extremos da tecnologia. A sua obra apresenta-se como uma ficção, uma antevisão, por vezes uma crítica. Expôs recentemente Geolux no Centro de Artes Visuais (CAV), em Coimbra. Albano Silva Pereira, comissário da mostra, afirmava que “Soares funde referências da alta cultura (a arte conceptual, a música erudita, as referências científicas) com elementos vernaculares (as lâmpadas de uma casa de província, os filmes de culto ou a indústria do tuning)”.
A tecnologia a que recorre interfere com a sua forma de pensar a obra? Em que medida? Sim, julgo que isso é válido para qualquer artista, a obra resulta sempre de um compromisso entre a intenção do artista e os limites (ou potencialidades) da tecnologia usada para o efeito. Ou seja, a ideia do artista é "traduzida" para as tecnologias que este vai usar. Há trabalhos que podem ser apresentados usando diferentes tecnologias sem que isso interfira no resultado final, e há trabalhos que apenas fazem sentido na tecnologia com a qual foram executados. Nestes últimos, a tecnologia passa de certa forma a fazer parte da intenção também. A minha questão tinha um sentido inverso: a tecnologia é decidida em função da intenção, é certo, mas o facto de recorrer a técnicas muito tecnológicas, isso também influencia a sua forma de pensar a obra? Mas por vezes é mesmo ao contrário. A intenção vem em função da tecnologia, por estar a experimentar por exemplo um programa de animação 3d, pode surgir uma intenção de fazer algo. Por isso, sim, a obra adapta-se a essa tecnologia, não tem outro remédio. Julgo que tento usar ferramentas da minha época. É o que os artistas sempre fizeram. Se por exemplo tivesse nascido cinquenta anos antes e quisesse fazer, por exemplo, um filme de animação que explorasse as leis da gravidade, como ainda não existiriam computadores pessoais, provavelmente usaria animação stop-motion. Considera que abre um novo tipo de comunicação, uma nova forma de relação com o observador ou é, para si, apenas um novo suporte formal? Sem dúvida. Como diria Marshall_McLuhan, uma nova tecnologia ou um novo media vem introduzir novas formas de relação e comunicação. Mais importante do que os programas que passam na TV, são as transformações que a TV provocou na sociedade e na forma como o ser humano vê o mundo e se relaciona. Isto aconteceu também, por exemplo, com o teatro, música, jornais, cinema, tv, e hoje passa-se, sobretudo, com a internet. A sua obra apresenta-se como uma apologia do futuro, uma crítica, ou é antes uma antevisão, uma proposta? Depende dos trabalhos. Alguns até remeterão para o passado. Não sei o que é ser apologista do futuro (não há alternativa) nem posso criticá-lo porque ele ainda não chegou. Alguns dos meus trabalhos são propostas ficcionais. Outros têm a ver com uma tentativa de visualizar coisas às quais não tenho acesso. Mas depende muito de trabalho para trabalho.
Os trabalhos que desenvolve resultam de pesquisas? Ou são ideias que "saltam" de forma muito intuitiva? A maioria resulta de pesquisa e/ou de experimentação. Tanto posso pesquisar algo e depois experimentar trabalhar isso, como posso experimentar como forma de investigar as potencialidades de determinada ideia. E onde faz essa pesquisa: no quotidiano, na polis, na vida, na net, em livros? Basicamente são essas as cinco principais fontes de pesquisa. Depois é tudo "cozinhado" cá dentro. Pode ser rápido, pode demorar muitos anos. Como é que chega à ideia? Também depende muito de trabalho para trabalho. Por vezes a ideia surge no início, pode ser uma coisa muito simples. Outras vezes apenas surge depois de muito trabalho, o que obriga por vezes a refazer tudo. Mas pesquisa o quê, como, onde? Segue uma metodologia? Como trabalho em muitas áreas: música, vídeo, fotografia, animação 3d, instalação, etc., não pode haver uma receita que resolva tudo. Tanto as pesquisas como o desenvolvimento do trabalho processam-se de forma diversa. Tenho uma metodologia mais rígida nas áreas da música e da animação 3D, a fotografia e o vídeo podem ser abordados de uma forma mais livre em termos de metodologia do que a música ou o 3D que exigem algum trabalho de preparação do "material" a utilizar. Se referir um trabalho específico é-me mais fácil explicar a pesquisa e a metodologia utilizada. De resto julgo que se passa o mesmo que com a tecnologia, ou seja, para cada trabalho tento encontrar uma forma de pesquisa, uma tecnologia, uma metodologia que se adeque e que torne o trabalho exequível. É importante sentir que o seu trabalho comunica? Ou é-lhe indiferente? Claro que é importante. É esse o objectivo de o mostrar em público. Em que momento o público adquire importância para si: desde o princípio, durante a fase de desenvolvimento do projecto, com a conclusão da obra, já na fase expositiva ou em momento algum? Não costumo mostrar os trabalhos enquanto não estão prontos, por vezes mostro a um ou dois amigos, mas é raro. Embora julgue que trabalho só para mim, no sentido em que não estou a tentar agradar a ninguém excepto a mim mesmo, tentando resolver questões com que deparo, o feedback do público é a segunda parte sem a qual o trabalho não existe. E quando é positivo acaba por ser um grande incentivo a continuar. É uma fonte de energia para o próximo trabalho. * Publicado na revista NS, suplemento de sábado do DN e do JN |