| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 27-07-2009 12:19
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Fernando Sarmento, Stefania Barale e outros (desenho, escultura, pintura, instalação, vídeo) Já tinha escrito sobre estes frutos, guardo, aliás, alguns deles em casa. São de boa qualidade, não se estragam, tal como os frutos da nossa infância, que passavam uma estação a perfumar o sótão e continuam a perfumar as recordações minhas desse tempo.
Eram e são brancas as romãs sobre as quais escrevi então, dizendo: «Mais branca que o branco é a romã branca. Mais branco que o branco é um arco-íris escondido dentro de uma romã. Poderemos colocar a questão na forma de uma adivinha: - Qual é a coisa, qual é ela, mais branca que o branco? - A romã! A romã empalideceu e assim convergiram nela todas as cores. Legumes são objectos ocultadores (e, assim, reveladores) do arco-íris. É um paradoxal jardim, passo pelas romãs e encontro flores, mas, “ora abóbora!”, flores não são! Nesta comédia vegetal aparentada com os mistérios que na Idade Média se representavam nas igrejas, em que as abóboras se vestem de flor e a abundância oculta a sua fertilidade no branco, numa capela que já não o é, mas espaço de transfiguração pela cor, “salve-se quem puder”.»
Quando escrevi sobre elas estas romãs estavam recolhidas não em sótão mas numa capela. E eu pensei: “A capela acolhe e recolhe a luz. Mas não colhe, nem escolhe, a cor. É capela útero fértil, à semelhança da romã. Apenas selecciona, das cores, aquela que contém em si a totalidade. A capela é, afinal, uma horta, a horta é jardim, o jardim transformou-se em branco para acolher a luminosa palidez dos legumes. E resplandece.» As romãs conviviam nessa exposição com bóias, que como sabemos é uma forma de nos salvarmos. Não precisavam, mas as bóias lá estavam: «A luz bóia nas bóias, as bóias são pendentes onde se suspende a cor que se retirou das romãs. É a bóia que salva a romã. Por isso, esta abre-se para mostrar a interiorização do branco, para mostrar que não é máscara. É porcelana branca e come-se. Com os olhos. De arco-íris. Onde bóiam sementes fecundas futuras romãs. “ Agora, as romãs desnecessitadas de bóias, digo, de salvação, encontram-se algumas delas, com outros frutos, em conserva, uma forma de desafio ao tempo, de que estes frutos não precisariam, mas de que talvez o tempo necessite. Ou então não são as mesmas, as romãs, mas as sementes de então. Estes frutos de Fernando Sarmento estão guardados na dispensa de uma casa que eu já conhecia mas subi mais alto. Da primeira vez, até ao quarto andar. É o nº 211 da Av. Da Liberdade de que aqui já falei, mas desta vez no 1º esq. Da outra vez passei por este andar e continuei até ao quarto, porque não me chegou o perfume dos frutos. Agora foi preciso bater à porta da rua e esperar. Chegou então o guarda do labirinto (a casa é assim) com um cão enorme, como também é costume encontrar às portas dos labirintos, guarda, chave e cão, não faltava nada. Mas mal chegámos lá acima, talvez adoçado pelo odor dos frutos ou pelo “sex-appeal” de Stefania Barale, outra artista ai presente e a obra com este nome, o cão deitou-se de barriga para o ar como um gatinho e pediu mimos. Circulei pela casa para ver a exposição colectiva que para além destes artistas acolhia Inês Moura, Miguel Pinheiro de Melo, Pedro Almeida, Joana Roberto, João Coutinho e Luís Lázaro, espalhados pela casa. A todos visitei, mas é excesso de ambição pretender falar de tudo o que vi. Recordo os frutos de Fernando Sarmento, recordo os bastidores bordados de Stefania, vi pintura, vi desenho, escultura, instalação sonora, e sei que saí de lá contente, apesar de o guarda não me ter deixado sozinha nem um minuto, com as obras. Assim é um bom guarda. No rés-do-chão aguardava-me o cão, mas fingiu que não me viu sair. Um dia volto lá. Pelo perfume dos frutos e pelo sex-appeal que tenho a certeza que lá ficaram na casa. E, por que não confessá-lo?, pelo cão, o animal ausente das casas da minha infância, mas não da memória de mim. (Espaço Avenida, Av da Liberdade, 211 – 1º esq) http://www.risocordetejo.blogspot.com/ |
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