| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 24-08-2009 13:06
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“- Para onde vais? - Vou para a festa!!! - De onde vens? - Venho da festa…” A minha mãe costumava brincar comigo recitando expressivamente este diálogo, quando me via chegar cansada de uma festa, um passeio, um divertimento qualquer, o último “Venho da festa…” era dito em tom de desalento a contrastar com o entusiasmo do primeiro. Esta instalação a que me refiro hoje já acabou, acabou a festa e está a acabar aos poucos o bairro onde o evento teve lugar.
Mas não acabou a memória. Porque vivem os que lá viveram e também porque os que não viveram lá puderam acompanhar o projecto realizado entre 2006 e 2008 no Bairro da Quinta da Vitória com a participação e colaboração dos seus moradores. Fica(va) ali perto do Bairro da Portela. Os vizinhos pobres. O outro lado da moeda. Fez parte do trabalho deste projecto recolher testemunhos dos seus moradores, nomeadamente das crianças, a quem também foi pedido para fotografarem. Que disseram, entre outras coisas (está transcrito): “As bisavós nos apresentaram este sítio… A única coisa é secreta… nós temos uma coisa secreta que não podemos dizer a ninguém, é sobre aquela porta ali. Mas vocês gostavam de saber?” Assim se ajudou a terminar algo com dignidade (há muitas maneiras de acabar as coisas…) por um processo que está algures entre a antropologia e a arte. E mais além de qualquer uma delas. A presidente da Junta de Freguesia da Portela não esteve alheia nem à vida nem à morte deste bairro. E também escreveu todo o difícil, mas fecundo processo de instalação de água, electricidade, recenseamento eleitoral e finalmente a mediação entre os desalojados e o representante do dono do terreno. O projecto visitou, olhou, ouviu, fotografou, compreendeu, criou um carimbo, um mapa. Diz Sofia Borges, co-curadora, que quando chegaram, “as demolições estavam em curso”. O título do projecto reproduz as palavras dos que lá viviam: “A festa acabou”. A pesquisa e concepção foram da responsabilidade de Ana Gonçalves, Sofia Borges e Vasco Coelho, no âmbito do mestrado em “Estudos Curatoriais”, e a curadoria pertenceu aos dois últimos. Cito Sofia Borges: “”A Festa Acabou” surge da necessidade de compreender um vazio que se expressa em equívocos, em imagens distorcidas, no medo e na indiferença que dominam a opinião pública. […] Quando constatámos que o Bairro da Quinta da Vitória não estava representado nos principais mapas da cidade, propusemo-nos recolher elementos para construirmos uma cartografia, objectos, histórias e imagens do bairro. […] Para a exposição propusemo-nos dialogar com o espaço público, utilizando as fachadas das casas, algumas parcialmente demolidas, e as zonas comerciais. […] E decidimos que alguns núcleos expositivos ficariam no bairro para que as demolições também tomassem forma sobre o trabalho exposto. […]” A exposição,como já se compreendeu, foi feita “in loco”, com cinco núcleos expositivos e composta por um conjunto de retratos das crianças e um texto criado a partir dos seus depoimentos, afixados na fachada de uma casa parcialmente demolida. Fizeram ainda um catálogo e para este, um cubo planificado com fotografias e depoimentos dos meninos, um vídeo, um espaço de documentação e um mapa do bairro com os nomes das ruas e becos, pequenos sacos com frases de moradores. O mapa foi bordado num extenso tecido(2,10m*3,40m) onde, além de elementos fornecidos pelos moradores, também foi aplicada uma antiga fita chamada “grega” com que me recordo de ter ornamentados os meus vestidos de menina; aqui, a grega sinuosamente insinuava no mapa, o território, os espaços para serem reconhecidos, designados, limitados. Assisti ao nascimento deste original mapa, o crescimento do percurso da fita sobre o tecido e sei que, pela dimensão do trabalho, várias pessoas, mesmo de fora do projecto, colaboraram na construção do serpentear. O produto final, se teve uma componente de investigação importante, sobretudo a partir das narrativas dos seus moradores, é um olhar não neutro, mas um olhar que constrói um mapa e inscreve no espaço esse mesmo olhar. Assim o alterando. É uma verdadeira “ intervenção”, após um trabalho de comunicação sempre a refazer, um ouvir e observar e finalmente, um mostrar, um dar a ver o olhar. As casas, as paredes já sem casas, as crianças, os adultos, as profissões, a festa, o lixo, as memórias, as hortas, as árvores. A Festa acabou, o trabalho destes artistas também, falta apenas saber se ainda existem no bairro alguns dos materiais deste trabalho. Depende de que paredes, de que casas mais já foram abaixo. Apenas disso. E da memória dos que, de fora e de dentro do bairro, viram e acompanharam. http://www.risocordetejo.blogspot.com/ |
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