| By Eric Corne,
on 24-08-2009 22:21
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Sobre a mostra colectiva “Paisagens Oblíquas”, a decorrer até 27 de Setembro em Faro no Museu Municipal e na Galeria Arco, e realizada com obras da colecção do Museu Berardo, publica-se o texto da autoria do seu comissário, para quem "estas obras traduzem o valor da luz, da matéria, do tempo ou do espaço das paisagens".
Paisagens Oblíquas Quando surgiu a proposta de apresentar parte da colecção do Museu Berardo em Faro, cidade do extremo sul de Portugal voltada para o infinito espaço do Mar, impôs-se a este propósito a questão da paisagem e das suas percepções. A paisagem é um género maior, que grande número de artistas tem experimentado, desde a aparição deste género na arte do século XIV. As suas obras são testemunho da relação do homem com a natureza infinita e imutável, generosa e inquietante. Perante uma natureza modelada e domesticada pelo homem através da indústria, estas paisagens, de influência romântica, são o último abrigo de espaços inviolados, numa busca do sublime. Desde os anos 20 do séc. XX a noção de paisagem evolui, no sentido de traduzir a modernidade dada pelas suas visões urbanas e industriais. Nos nossos dias, esta questão da paisagem parece-nos ter reencontrado toda a sua pertinência e toda a sua força. Após um longo período de desencanto, seguinte ao final dos anos 70, certos artistas irão reapropriar nas suas obras estas questões «da ou das paisagens», através de diferentes media: pintura, instalação, vídeo, fotografia… No entanto, esta paisagem não é, com certeza, a tradução, de uma cena imutável. Muito pelo contrário, ela evoca, com mais frequência, a introspecção do artista perante o desconhecido mas, também, a rápida transformação ecológica, onde a própria questão de natureza inviolada se tornou obsoleta. Do mais profundo da Amazónia ao Algarve, o homem e a sua industrialização perturbaram o eco-sistema. O tempo imemorial da paisagem ficou reduzido à extensão do tempo humano. A nossa relação com a paisagem alterou-se. A transformação dela é feita à escala da nossa temporalidade. Perante a vastidão do desastre actual e do desastre futuro o motivo paisagem volta a ser um tema espantoso. A exposição Paisagens Oblíquas, com as obras de Lothar Baumgarten, Pedro Calapez, Alberto Carneiro, Tacita Dean, Caetano Dias, Robert Frank, Hamish Fulton, Laurent Grasso, Andreas Gursky, David Hockney, Richard Long, Eric Poitevin, Yvan Salomone, Ida Tursic et Wilfried Mille, propõe e explora retículas de significações da relação complexa da criação dos sécs. XX e XXI com a paisagem e com as subjacentes questões do infinito, da possibilidade do seu registo, do ponto de vista da escala humana. O seu título, Paisagens Oblíquas, uma expressão de Fernando Pessoa (em O Livro do Desassossego, do heterónimo Bernardo Soares), traduz bem o difícil confronto, a frontalidade assumida perante as paisagens e a sua amplitude. Com meios diferentes e abordagens por vezes contraditórias, da parte de artistas de diferentes gerações, estas obras traduzem os valores de luz, de matéria, do tempo ou do espaço das paisagens. As obras dos artistas de Paisagens Oblíquas são feitas da sensibilidade ao contexto deste desafio de querer segurar aquilo que se desvanece, aquilo que aparece e desaparece, aquilo que se diz e escapa à linguagem; a tensão da dúvida no confronto com a reificação do visível duma paisagem. Esta exposição está concebida como um percurso, onde as percepções das obras se entrecruzam, onde o visitante é chamado a deslocar-se física e mentalmente por estas paisagens em que nenhum caminho está definitivamente traçado, desertos estranhos que não se definem em signos decifrados, mas sim como extensão e oscilações de espaços. Eric Corne, Janeiro de 2008 Comissário Eric Corne (Flixecourt, França, 1957) é artista e curador. Fundou o Centre d’art contemporain “le Plateau”, em Paris, e tem vindo a comissariar várias exposições em França e no estrangeiro. Coordena actualmente um programa de residências para a construção do futuro Centro de Arte Contemporânea da Cidade de Tiradentes - um grupo de favelas de São Paulo. Comissariou também “Um Século de Arte em França, O Realismo” no MASP, São Paulo. Contribui regularmente para numerosos catálogos e conferências na França e no estrangeiro. É professor na École Nationale des Beaux Arts de Bourges. |
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