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12-Mar-2010
Está ali alguém | Perplexidades PDF Imprimir e-mail

By Risoleta da Conceição Pinto Pedro, on 06-09-2009 22:37


 Da página electrónica do CAM, destaco:

“Mu. Lua em Chão de Terra Batida"
Pedro Morais

“Mu” significa literalmente “nada” – isto, não separação.
Pequeno habitat com uma janela e uma entrada que define uma zona recolhida; no chão, um rectângulo de luz branca. Fortes espirros aleatórios sobressaltam e revelam uma presença.
O todo é levantado do solo, de forma a que o olhar do observador coincida com outro olhar sentado no chão.
                              Pedro Morais

O artista propõe uma instalação que ocupa o extremo esquerdo da sala com a construção de um espaço interior e elevado de onde se pode avistar uma paisagem sobre tela, tornando múltipla e enigmática a condição do espectador. O branco e a luz são matéria essencial.”

 Um dia, há poucos anos atrás, escrevi sobre uma instalação de Pedro Morais em Serralves, em que a lâmina de um sabre, de tão imóvel contra a parede, parecia ganhar velocidade perante os nossos olhos incapazes de ver o movimento. Sei agora que a lâmina de uma espada rodopiando a uma velocidade incrível, logo invisível para os olhos, pode transformar-se em luz. Foi o que aconteceu. Diz este pintor, pintor a três dimensões com luz, que “Mu” significa “isto”. Ou nada. O que vai dar ao mesmo: isto é nada e nada é isto, porque apenas a luz existe.

Quando entramos nesta instalação da sala das exposições temporárias do CAM, o que se vê é uma janela e um quadrado de luz no chão, no meio do completo escuro. Mas o artista (na inauguração) sentia-se incomodado pela falta de algo. Para mim não faltava nada, à parte a gente a mais que há sempre nas inaugurações e para cujo número nós contribuímos. Tinha ali tudo o que precisava, não faltava nada. Se toda a gente de repente resolvesse ir embora, estar-se-ia ainda melhor. O escuro, a luz. E o silêncio. Isto. Nada. Mas eis que alguém tratou de ir repor o que faltava. E o que faltava era o complemento sonoro que fazia parte da concepção de “isto”: o som de um espirro a intervalos de um minuto e cinco segundos. À partida não me agradou. O espirro significa: “Está ali alguém”. Mas para mim já estava ali alguém: eu. E a memória de todas as janelas abertas para a escuridão do mundo, permitindo a passagem da luz de tantas noites silenciosas. Isto mais aquilo. Esta procura das luzes através das janelas do meu passado mais aquela presença denunciada (anunciada?) pelo espirro já era demais. Voltei lá mais tarde. Desta vez sem a multidão da inauguração, entrei no escuro, aproximei-me da janela e da luz. Com as mãos, toquei a terra do chão. No imenso escuro. N’isto’, o espirro! E a minha surpresa. Afinal estava certo o projecto tal como foi concebido, e o som fez eco dentro do meu escuro e da minha luz: Está ali alguém. Não estamos sós.

http://aluzdascasas.blogspot.com/


   

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