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18-Mai-2012
Rastejando no tapete - The Musical Box em Portugal PDF Imprimir e-mail

By Mário Caeiro, on 16-11-2009 09:09

 

… You gotta get in to get out.
Genesis

The Musical Box são uma banda de rock canadiana cujo reportório não é original e em que vários músicos usam perucas para se parecerem com outros músicos, mimetizando-lhes os gestos ao mais ínfimo detalhe. E no entanto enchem qualquer pavilhão onde actuem e em que são saudados como sacerdotes de um tempo passado, reverenciados como os legítimos portadores de uma qualquer mensagem imperial.

A razão: o profissionalismo e a sinceridade do seu projecto artístico, o rigor total com que encaram a produção dos seus acontecimentos. O que os aproxima da arte é, nestes termos, a aliança entre a amplitude da visão cultural e uma dimensão documental e de recriação que, de tão eficaz, traz consigo muito mais questões críticas do que à partida poderíamos supor. TMB não são uma banda de covers. Inauguraram – e permanecem o seu máximo expoente – uma acepção da reconstituição histórica do passado do rock que permite que novas gerações de melómanos experienciem verdadeiras viagens no tempo que de outra forma se resumiriam, quanto muito, a uns breves minutos de clips desfocados no You Tube.

TMB é um projecto de reconstituição muesológica da carreira fulgurante do agrupamento Genesis, que do início a meados dos anos 70 se constituiu para muitos como a maior banda de rock do Mundo. Mas os Genesis eram muito mais que uma banda, eram um projecto estético que em palco resultava em elaborados jogos cénicos e visuais, inovadores e originais. Hoje, quando um palco pode ter 30 metros de altura e a boca de cena encenar mini-shows acústicos no meio da multidão de telemóvel em punho; quando milhões de pontos LED reproduzem imagens vídeo em tempo real em écrans cada vez mais gigantes; com os estádios rendidos não propriamente à emoção da música mas a uma espécie de transe do marketing, é absolutamente legítimo atentar ao que estes canadianos empreenderam, no sentido de recuperar, na actualidade, os míticos espectáculos originais dos Genesis. Sem o jovem Anjo Gabriel é certo, mas com os músicos a tocarem muito melhor – Genesis dixit.

A Trick of the Tail Tour 2009

 Regressados a Portugal – que já visitaram pelo menos quatro vezes –, os TMB reproduzem desta feita os históricos espectáculos de 76, respeitando a song list original e a montagem das projecções de slides (que já remisturavam imagens dos shows anteriores, de 73 e 74). Em 1976, Phil Collins torna-se o novo vocalista dos Genesis. O legado de Gabriel tem de ser rapidamente sublimado numa nova tournée mundial e os Genesis têm de provar que sobrevivem à perda do líder carismático. Na tradição de inovação que a banda preza desde a sua fundação, Hackett, Banks, Rutherford e Collins idealizam um show em que a ausência da teatralidade de Peter possa ser compensada por uma dimensão musical-instrumental. O longo espectáculo é mais uma vez extremamente cuidado ao nível visual, sendo provavelmente o primeiro da história a recorrer a raios laser. Há nele um regresso à espontaneidade que o opus The Lamb, operático, havia secundarizado. The Trick of the Tail é naturalmente a base do reportório apresentado, um album que, surpreendentemente, abriu aos Genesis novos mercados. Em palco, foi igualmente histórica a participação do baterista Bill Bruford [Yes, King Crimson], sendo a imagem do palco com as duas portentosas baterias um ícone visual do rock dos anos 70 – vide a capa de Seconds Out, o album ao vivo de 77. E é a este show que Denis Gagne – voz, percussão; Mark Laflamme – bateria, percussão; Gregg Bendian – bateria, percussão; Sebastien Lamothe – baixo, guitarra, voz; Francois Gagnon – guitarra; Dave Myers – teclas, guitarra, voz; dão corpo. Rastejando no tapete, como reza o slow dos slows…

Simulacro ou realidade paralela? De demiurgos a empresários

O que determina o lugar absolutamente único dos The Musical Box no panorama musical é o rigor e o aprumo técnicos. O espectáculo acaba por ser uma celebração dupla, dos concertos originais, representados com a meticulosidade de um conservador de museu, mas ao mesmo tempo das emoções profundas de várias gerações de fâs que, tendo visto ou não Gabriel e companhia ao vivo previamente, ali celebram um amor conjunto pela música e por uma arte que encontra hoje poucas formas de comparação. Na Aula Magna de Lisboa, os espectáculos anteriores de The Musical Box reuniram um público extremamente diverso em que marcaram presença inúmeros músicos, de todas as áreas musicais. Como que capturados numa cápsula do tempo, certamente divididos entre o rememorar de intensas experiências de juventude e a atenção à produção executiva do espectáculo. Na prática, o público torna-se assim o próprio espectáculo, e o acontecimento cultural é o que decorre daquela intensidade de comunhão irrepetível – os TMB têm autorização dos Genesis originais para a realização de um número limitado de espectáculos.

No início, os The Musical Box eram meramente a celebração entre amigos apaixonados por um universo estético que os marcou na juventude. Em poucos anos, transformaram-se numa empresa requisitada por todo o mundo, que quotidianamente se confronta com sucessivos desafios, nomeadamente o de actualizar as personificações dos Genesis respeitando a evolução do grupo original e o portanto o próprio projecto museológico. Parece absurdo, mas não espantaria que, um dia, uma outra banda recordasse os próprios The Musical Box, num mise-en-abîme que não estaria isento de humor. Se tivermos em conta que 10% de cada concerto reverte para os membros originais dos Genesis, que dão o aval a cada nova produção e participam activamente na recolha dos elementos documentais, temos perante nós uma área da produção de espectáculos completamente nova e virtualmente inesgotável. Resta saber se o interesse destes espectáculos dos idos de 70 é equiparável ao que hoje se pode retirar de um megashow hipercronometrado e hiperproduzido de qualquer estrela pop com aspirações a ícone-DVD…

Excertos de uma entrevista ao técnico dos TMB realizada em 2007

 Quanto às especificações técnicas em palco, o que mantém os TMB absolutamente dentro do espírito original? O que é que ‘actualizam’? Como é a instrumentação, a engenharia de som, o stage design e o desenho de luzes?

Jean Marc Hamel Para os The Musical Box sempre houve uma dupla missão: primeiro, reproduzir os shows tal como apresentados nos inícios da década de 70 (especialmente da era Peter Gabriel, entre Trespass e The Lamb Lies Down on Broadway. Segundo, tocar a música tal como registada nos álbuns com todos os arranjos possíveis – por outras palavras, ‘tocar as partes todas’. No início dos The Musical Box havia um guitarrista e um teclista adicionais para que isto fosse possível, mas isso ia contra o primeiro objectivo, que era fazer os espectáculos como se fossem os Genesis que estivessem ali à nossa frente. A banda decidiria mais tarde reduzir os seus membros para cinco. Quanto à instrumentação, seria um longo trabalho em progresso: comprámos Mellotrons1, Arp-Pro Soloists2, um órgão Hammond, copiámos guitarras… A parte de engenharia de som deste projecto é uma tentativa de replicar um som antigo com moderno equipamento audio. Ao vivo, há toda a amálgama de soluções que pudermos espremer de equipamentos e instrumentos antigos, mas muito do que se ouve até é moderno e idêntico ao de grupos actuais, embora para o auditório isso seja completamente imperceptível. A diferença está na forma como é feita a aproximação ao som: não se ouve uma tarola abafando os restantes intrumentos, e os instrumentos melódicos, sejam eles guitarras ou teclas, são misturados no espírito dos álbuns antigos, e não de um concerto rock típico. Também o desenho do palco é reproduzido o mais fielmente possível face à informação disponível, com a ajuda de milhares de fotografias e elementos fornecidos pelos próprios Genesis e antigos colaboradores da banda.

 Comente a diferença entre o espírito do desenho de cena nos anos 70 e os contemporâneos.

JMH Os Genesis, nos anos 70, usaram virtualmente todos os truques a que puderam deitar mão por forma a que os seus shows tivessem o máximo de efeitos visuais possíveis. Foram sempre inovadores no seu design de cena. Utilizaram a tecnologia disponível no seu máximo potencial e prosseguiram nesta filosofia mesmo em espectáculos mais recentes. As únicas mudanças deram-se devido aos avanços das tecnologias de iluminação, e importa referir que foram dos primeiros impulsionadores da tecnologia ‘Vari-lite’, que explodiria no início dos anos 80. Com a partida de Peter Gabriel em 75, abandonaram o aspecto teatral, o guarda-roupa e os gadgets cénicos, para enfatizar a música propriamente dita, mas mantiveram desenhos de luz inigualáveis, diferentes de tudo aquilo a que as pessoas estavam habituadas. [Lavac refer-se concretamente ao show da torunée de Seconds Out]

Quando tocam para salas maiores, como o Bell’s Centre em Montréal ou o Royal Albert Hall, em Londres, The Musical Box fazem rigorosamente como o fizeram os Genesis em 1973, sem nenhum outro artifício que os originais, na mesma escala, com excepção do PA que tem de responder à capacidade da sala. Tentamos fazer cada show no espírito do original e isso ajuda o público a pensar que é testemunha de uma viagem no tempo e não apenas de mais um tributo a reproduzir uma banda original com um décimo dos meios.

 The Musical Box é um sucesso. Funciona como uma empresa, gerida como tal?

JMH The Musical Box é gerido por três sócios, Denis Gagné, Sebastien Lamothe and o director artístico, Serge Morissette. Na sociedade, todas as decisões são votadas por maioria. No estrangeiro, todos os aspectos do negócio contam com a ajuda de alguns parceiros-chave.

Como é que conjugaram o óbvio amor por esta grande música com o mais cuidado profissionalismo?

JMH Cada tour acarreta nova oportunidade para continuar a melhorar a investigação e as longas horas de audição do material original, assim como o reunir de todas as referências visuais que a banda puder encontrar. Tudo isto é a força motriz por detrás do projecto e se a banda puder fazer disto uma confortável forma de vida, toda a gente ganha.

Mário Caeiro

Agradecimentos: Vincent McCallum/JDO Productions

1 Instrumento de teclas polifónico desenvolvido no início dos anos 60, precursor do sampler. O coração do instrumento é um banco de fitas magnéticas, cada qual com cerca de 8’’ de duração. Ao tocar cada tecla, o músico acciona a cabeça de leitura dos sons pré-gravados nas fitas. Dificílimos de afinar e extremamente frágeis, foram instrumentos que tiveram a sua glória nas gravações dos Beatles ["Strawberry Fields Forever", de1966], Moody Blues [álbum Days of Future Passed, célebre pelo tema "Nights in White Satin"] e sobretudo dos grupos de rock progressivo dos anos 70, como é evidente em toda a discografia dos Yes. Com os Genesis, em The Fountain of Salmacis e ou na famosa entrada de "Watcher of the Skies", o Mellotron obtém efeitos de enorme tensão e teatralidade. É hoje um instrumento quase de colecção, mas vários gupos contemporâneos o têm recuperado, dos Orchestral Manoeuvres in the Dark aos R.E.M. de "Losing My Religion". +info: www.mellotron.com

2 Sintetizador analógico do início dos anos 70, vocacionado para solos, concebido para ser colocado sobre um orgão maior. +info: www.vintagesynth.com


   

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