| By Nuno Cunha*,
on 16-11-2009 15:16
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Luís Nobre é um artista que procura construir “uma narrativa de princípio e fim” em que “joga” com a diversidade de planos, perspectivas, cores, “todo um lado muito caleidoscópico” que conduz o espectador a “uma explosão quase alucinogénia”.
Qual a maneira como pensa o trabalho? Como chega à ideia? Todo o processo de investigação? Podemos começar por aí! É um processo que não é aleatório, mas parte muito das ocasiões, das coisas que me vêm parar às mãos, por vezes na sequência da pesquisa de uma pista - de um animal ou de uma espécie - num catálogo, numa enciclopédia, em postais antigos que encontro na Feira da Ladra. É um pouco andar ao sabor do vento, mas tendo algumas directrizes, algum meio de filtragem. Concretamente, que directrizes é que procura? É a atenção a detalhes, às escalas, aos pormenores, a diferenças de tamanho, profundidades, pontos de vista, planos. Lido muito com a observação e a maneira como ela pode influenciar a leitura do meio que nos rodeia. Em termos formais, procura algo em concreto? Em termos formais procuro o que referi dentro destes mecanismos de observação do real e, a partir daí, quase tudo pode encaixar nesta lógica. Qualquer elemento ou qualquer protagonista poderá ser válido para uma narrativa construída a partir destes detalhes. Não ponho de parte nenhuma hipótese nem nenhum elemento e quando chego ao atelier e começo a trabalhá-los através de textos, palavras, se eles se ligam e começam a encaixar uns nos outros e as coisas fazem sentido para mim, a partir daí desenvolvo o meu trabalho. Nestes trabalhos recentes tem recorrido a imagens muito naturalistas: essa pesquisa é muito de cidade ou reflecte outras preocupações? Estas imagens representam uma certa fuga da cidade. A cidade serve-me para eu deambular e, nas minhas passeatas pelo meio urbano, para digerir o que tenho cá dentro, até a saudade desse meio natural onde não há linhas e ângulos rectos que limitam a paz e a contemplação suave do que está perto de nós próprios. Depois de concluir um projecto e dar início a outro, qual é a sua procura? Os meus trabalhos são direccionados para um espaço em concreto. Sei qual é esse espaço e parto das informações que recolho dele, do seu carácter, do passado, da sua memória, da sua vida actual... Gosto de interligar a minha pesquisa com esse espírito do lugar e ir buscar algumas linhas que, por vezes, já estão adormecidas e relacioná-las com outras perspectivas mais recentes, repensá-las novamente e dar-lhes um novo fôlego. Voltando ao trabalho de atelier, eu recorro muito a meios diferentes, desde a aguarela, a grafite, a caneta, o acrílico, a escultura, e uso-o de acordo com os temas que estou a trabalhar. Se pretendo um tipo de tratamento agressivo, mais enérgico, pego na grafite, se tenho uma ideia em que me apetece rasgar o papel, vou para o carvão, se for mais calma, mais contida, e preciso de estar concentrado num formato mais reduzido, recorro à aguarela. Depois tento juntá-los de modo a criar uma harmonia ou uma desarmonia. O seu trabalho tem um carácter muito narrativo. A poética é também algo que lhe interessa? Agrada-me uma narrativa de princípio e fim, não como uma pescadinha de rabo na boca, mas pela relação de diversos carácteres ou diversos protagonistas. Dentro dessa história, gosto de mexer com aspectos plásticos e visuais que não sejam só a acção, mas outros elementos como a diversidade de planos, as perspectivas, a alteração de cores, todo um lado muito caleidoscópico dentro dessa estrutura que poderá ser a narrativa e, partir daí, iniciar uma explosão que poderá ser quase alucinogénica. Do ponto de vista comunicacional, pensa no público e na relação que o seu trabalho estabelece com ele? Eu nunca pensei muito nesse factor. Nuno Cunha *Publicado na revista NS (suplemento de sábado do DN e do JN) em 27/06/09 |