plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Opinião/Crítica arrow Luís Nobre: “Uma explosão quase alucinogénia” | Entrevista  
18-Mai-2012
Luís Nobre: “Uma explosão quase alucinogénia” | Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha*, on 16-11-2009 15:16

 Luís Nobre é um artista que procura construir “uma narrativa de princípio e fim” em que “joga” com a diversidade de planos, perspectivas, cores, “todo um lado muito caleidoscópico” que conduz o espectador a “uma explosão quase alucinogénia”.

 Qual a maneira como pensa o trabalho? Como chega à ideia?

Todo o processo de investigação?

Podemos começar por aí!

É um processo que não é aleatório, mas parte muito das ocasiões, das coisas que me vêm parar às mãos, por vezes na sequência da pesquisa de uma pista - de um animal ou de uma espécie - num catálogo, numa enciclopédia, em postais antigos que encontro na Feira da Ladra. É um pouco andar ao sabor do vento, mas tendo algumas directrizes, algum meio de filtragem.

 Concretamente, que directrizes é que procura?

É a atenção a detalhes, às escalas, aos pormenores, a diferenças de tamanho, profundidades, pontos de vista, planos. Lido muito com a observação e a maneira como ela pode influenciar a leitura do meio que nos rodeia.

Em termos formais, procura algo em concreto?

Em termos formais procuro o que referi dentro destes mecanismos de observação do real e, a partir daí, quase tudo pode encaixar nesta lógica. Qualquer elemento ou qualquer protagonista poderá ser válido para uma narrativa construída a partir destes detalhes. Não ponho de parte nenhuma hipótese nem nenhum elemento e quando chego ao atelier e começo a trabalhá-los através de textos, palavras, se eles se ligam e começam a encaixar uns nos outros e as coisas fazem sentido para mim, a partir daí desenvolvo o meu trabalho.

Nestes trabalhos recentes tem recorrido a imagens muito naturalistas: essa pesquisa é muito de cidade ou reflecte outras preocupações?

Estas imagens representam uma certa fuga da cidade. A cidade serve-me para eu deambular e, nas minhas passeatas pelo meio urbano, para digerir o que tenho cá dentro, até a saudade desse meio natural onde não há linhas e ângulos rectos que limitam a paz e a contemplação suave do que está perto de nós próprios.

 Depois de concluir um projecto e dar início a outro, qual é a sua procura?

Os meus trabalhos são direccionados para um espaço em concreto. Sei qual é esse espaço e parto das informações que recolho dele, do seu carácter, do passado, da sua memória, da sua vida actual... Gosto de interligar a minha pesquisa com esse espírito do lugar e ir buscar algumas linhas que, por vezes, já estão adormecidas e relacioná-las com outras perspectivas mais recentes, repensá-las novamente e dar-lhes um novo fôlego.

Voltando ao trabalho de atelier, eu recorro muito a meios diferentes, desde a aguarela, a grafite, a caneta, o acrílico, a escultura, e uso-o de acordo com os temas que estou a trabalhar. Se pretendo um tipo de tratamento agressivo, mais enérgico, pego na grafite, se tenho uma ideia em que me apetece rasgar o papel, vou para o carvão, se for mais calma, mais contida, e preciso de estar concentrado num formato mais reduzido, recorro à aguarela. Depois tento juntá-los de modo a criar uma harmonia ou uma desarmonia.

 O seu trabalho tem um carácter muito narrativo. A poética é também algo que lhe interessa?

Agrada-me uma narrativa de princípio e fim, não como uma pescadinha de rabo na boca, mas pela relação de diversos carácteres ou diversos protagonistas. Dentro dessa história, gosto de mexer com aspectos plásticos e visuais que não sejam só a acção, mas outros elementos como a diversidade de planos, as perspectivas, a alteração de cores, todo um lado muito caleidoscópico dentro dessa estrutura que poderá ser a narrativa e, partir daí, iniciar uma explosão que poderá ser quase alucinogénica.

Do ponto de vista comunicacional, pensa no público e na relação que o seu trabalho estabelece com ele?

Eu nunca pensei muito nesse factor.

Nuno Cunha
*Publicado na revista NS (suplemento de sábado do DN e do JN) em 27/06/09

   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >