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09-Fev-2012
“A interpretação dos Sonhos” de Jorge Molder PDF Imprimir e-mail

By Leonor Nazaré, on 26-11-2009 20:33


 A interpretação dos Sonhos” é uma exposição de Jorge Molder de características pouco correntes: reúne a série inédita que dá o título à mostra a duas outras - “O Pequeno Mundo”, de 2000, e “Não tem que me contar Seja o que For”, 2002-2007 – doadas pelo artista ao Centro de Arte Moderna (Fundação Calouste Gulbenkian).

 A exposição, patente no Edifício Central, piso 01, do CAM, em Lisboa, até 31 de Dezembro, é comissariada por Leonor Nazaré, autora do texto que publicamos.

No início de 2009, Jorge Molder doou ao Centro de Arte Moderna duas séries de fotografias: O Pequeno Mundo, de 2000 e Não tem que me contar Seja o que For, 2002-2007. Na sua exposição individual na Fundação, será somada, a estas duas, uma terceira série, recente e inédita, A Interpretação dos Sonhos, que dá o nome à exposição.

Em O Pequeno Mundo, “um homem procura desenhar e confrontar o seu desenho com o mundo (a casa) como se procurasse encontrar uma passagem” – pode ler-se num pequeno texto do artista sobre esta série, em que também ficamos a saber que esse homem “percorre uma casa que entendemos de imediato estar ligada ao seu passado. (…) Percorre-a como se pretendesse com esse seu deambular tornar, porventura, mais clara alguma memória. Adivinhamos nessa sua errância uma qualquer necessidade, sem que seja segura a certeza de se tratar apenas de um encontro com um momento do passado ou com algo que poderia, eventualmente, ser indispensável para a sua sobrevivência”.

  O circuito fechado desta deambulação no espaço é o lugar aberto da procura duma passagem, que se situa para lá dele.

O fechamento do lugar é exacerbado pelo tecto esconso, pelo relevo dos objectos numa luz artificial e localizada, pelo corredor estreito, pelas paredes translúcidas em que esbarra esta “personagem”. A passagem, e com ela, uma certa forma de libertação, será aquela que transporta a memória a uma resolução, o esquisso desenhado a um território interior evidente, a casa a um mundo, o duplo reflectido a uma elucidação.

*

A frase que constitui o título da segunda série, Não tem que me contar seja o que for, é paradigmática de uma resistência à criação narrativa explícita, frequentemente afirmada em entrevista pelo artista: “Uma série é sempre uma sequência narrativa, na aparência, onde nada há para contar, não obstante estarem reunidas condições para fazer despertar o sentido da decifração. São conjuntos de situações suspensas”. (J.Molder em entrevista a Maria do Céu Baptista, CGAG, 2007).

 A exposição foi realizada em 2006 na Cinemateca e, sobre ela, Bénard da Costa escreve, a certa altura: “Nada mais longe do cinema do que a fotografia. Mas estas fotografias são o cinema”.

O rosto e as mãos são privilegiados: dão corpo ao medo, ao êxtase ou ao sofrimento, no primeiro caso, ao espectáculo, ao indício, ao sortilégio, no segundo, à surpresa ou à crispação em ambos – rostos paralisados na sua aparência de porcelana ou no seu devir fantoche; luvas brancas na mão de um mágico, de um palhaço ou de um detective e uma inesperada mancha vermelha; a expressão andrógina e expectante de alguém; o recorte no escuro e o encandeamento como modos alternados de encontro com a memória; a iminência da queda. Numa sala de espectáculos vazia, um homem vira as costas à plateia, e por isso mesmo às imagens e ao drama.

*

 Acerca de A interpretação dos sonhos, série inédita desta exposição, Jorge Molder explica que “reúne 21 imagens, recorrentes, obsessivas, espessas de sentidos e tendentes para limites, de momentos do mundo paradoxal dos sonhos. O título refere-se, e presta homenagem, à obra com o mesmo nome do célebre, por tantas razões, romancista austríaco, Sigmund Freud. O título estende-se igualmente à totalidade da exposição por um motivo inegavelmente evidente: o carácter crepuscular de todas as imagens”.

Todas as imagens destas séries se fundam, porventura, nesse limiar em que o dia e a noite são ligados por um fio denso de imponderável tecitura.

Leonor Nazaré

Jorge Molder, “A interpretação dos Sonhos”
Centro de Arte Moderna (Fundação Calouste Gulbenkian)
Rua Dr. Nicolau de Bettencourt, Lisboa
Até 31 de Dezembro
Terça a Domingo das 10h às 18h


   

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