| By Ana Ferreira,
on 29-11-2009 09:33
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“Genius Loci”, o espírito do lugar da própria galeria que apresenta a exposição, é o conjunto de oito composições place-specific com que Paulo Lourenço marca passagem pela Galeria Diferença, em Lisboa, até 9 de Janeiro.
Genius Loci Com origem nos cultos religiosos da Roma Antiga, a expressão genius loci – ou espírito do lugar – encontra nos nossos dias aplicação conceptual na área da teoria da arquitectura, definido uma abordagem fenomenológica de valorização do carácter distintivo do lugar. O genius loci consiste, portanto, numa espécie de ‘personalidade do lugar’ que transparece na sua experiência sensível e para a qual são relevantes as interacções entre memória, identidade, consciência espacial e dimensão estética. O conjunto de oito composições place-specific com que Paulo Lourenço marca passagem pela Galeria Diferença retoma essa vertente relacional atenta às idiossincrasias do lugar. Quando em 1985 os arquitectos Nuno Teotónio Pereira e Artur Rosa se encarregaram do projecto de remodelação da Diferença, integraram uma escada em caracol, executada em módulos de betão, a partir de um esboço da artista Helena Almeida. Paulo Lourenço centrou-se nesse elemento arquitectónico para compor os trabalhos ora presentes. Do estudo dos módulos que formam a espiral e a contra-espiral da escada, resultou uma série de cópias em gesso dos degraus que, fotografada, depurou a volumetria dos módulos e preparou a sua transposição formal para a bidimensionalidade dos suportes escolhidos. Não serão, portanto, de estranhar as semelhanças que as composições de Paulo Lourenço apresentam em relação a alguns fotogramas de Man Ray ou de Moholy-Nagy. Não sendo o mesmo vocabulário formal, há, no entanto, inegáveis paralelismos no resultado do trabalho de preparação da superfície e da desmaterialização da espacialidade, através de jogos lumínicos – quer pelo contraste figura-fundo, quer pelo brilho do carborundo, quer pela criação de uma trama textural. O espírito da Bauhaus marca a sua presença nestas composições não apenas pela articulação entre arquitectura, pintura, fotografia, design e escultura, mas também pela utilização de materiais não-nobres (mordente, carborundo, pó-de-pedra) e pelo recurso a uma linguagem visual básica, geometrizada, capaz de despertar novas experiências sensoriais. A escada em caracol da Diferença é lida pelo artista como parte da alma do lugar; a essa leitura não será alheia a consciência de que as formas espiraladas possuem um fundo simbólico que, desde a Pré-história, se ligam à temática da imortalidade. A linguagem plástica de Paulo Lourenço tem sido fiel a essa temática – recordo, por exemplo, a sua exposição de 2006, intitulada Desigual, que integrava uma série de gravuras com a figura da amonite, também ela tendo por base a espiral. Nas obras realizadas para a exposição Genius loci, a fragmentação imposta a partir da forma volumétrica dos módulos que compõem a escada e a sua transposição para o plano bidimensional colocam em jogo a dimensão significante do espaço relativa ao movimento helicoidal de uma ascensão. Há uma atanatologia estética do lugar que, através de uma estratégia de depuração formal, liberta o espaço da sua condição de materialidade. As composições resultantes são como que efígies do espírito do lugar. Ana Ferreira, Novembro 2009 Paulo Lourenço, “Genius Loci” Galeria Diferença Rua S. Filipe Nery, 42 C/V, Lisboa Até 9 de Janeiro Terça a Sábado das 15h às 20h |
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