| By Nuno Cunha*,
on 29-11-2009 11:48
|
Sónia Almeida vive a pintura pela pintura, que desenvolve a partir de uma recolha feita através de apontamentos gráficos. São “coisas muito visuais” centradas na forma como olha e que explica nesta entrevista.
Como pensa e como desenvolve o seu trabalho, como constrói sentidos, onde pesquisa? No quotidiano, na cidade, ou chega ao projecto de outra forma? Um pouco por cada lado. Tenho muitos trabalhos ligados ao quotidiano, coisas que eu observo. A minha pesquisa centra-se muito nos cadernos que tenho. Há dez ou onze anos que faço uns cadernos, que não são propriamente de esboços de pintura, mas recolha de ideias do que vejo. Depois levo-os para o estúdio e transformo-os em pinturas. Podem, portanto, ser muitas coisas: conversas, objectos que vejo, recortes... Normalmente não me baseio em fotografia. Neste tipo de meio não faço pesquisa. O tipo de recolhas que faz nos seus cadernos gráficos centram-se em algum aspecto em concreto? Têm algum elemento comum? Não, não têm. São coisas muito visuais e têm como cerne comum eu própria, a minha visão do mundo, mas nunca trabalho com temas. Vou guardando aquilo que visualmente me chama a atenção. Por vezes tem a ver com trabalhos anteriores que eu desenvolvi, mas com soluções novas, por vezes tem a ver com outras pinturas de artistas que me interessam e que eu também recolho, mas é uma recolha muito visual, não teórica. É evidente que também pesquiso em livros assuntos que me interessam. Mas como constrói sentidos a partir dos apontamentos que toma! Alguns dos seus trabalhos remetem para a ideia de geometria... O meu trabalho em geral parte muito da prática para a teoria. Eu não tento formular conclusões ou conceitos centrados em si para explicar aquilo que faço. As coisas nascem das próprias opções que vou fazendo no estúdio e das pinturas que vão sendo seleccionadas para existirem. Essas ligações de conceito fazem-se um pouco à posteriori, por vezes até para surpresa minha. No desenvolvimento dos seus projectos tem uma metodologia, um processo próprio? Eu tenho pouca metodologia. Não sigo sempre os mesmos passos. O trabalho acontece muito com a experiência do estúdio, da prática do estúdio. Eu posso ter algumas ideias, mas no estúdio as coisas são transformadas. Algumas ideias não resultam, mas conduzem a outras descobertas que depois são muito mais importantes. Não tenho um plano sempre igual. E as coisas acontecem de forma muito intuitiva ou o trabalho desenrola-se de forma racional? É discutível. Eu penso que a minha pintura é muito intuitiva, mas isso não significa que não seja racional. Mas chega à ideia de forma intuitiva ou racional? É mais intuitiva.  Na construção de sentidos, o que é preponderante nessa construção? Os aspectos formais, a cor, o movimento... Depende de cada trabalho, mas a cor e a forma, claro que são coisas importantes, mas há muito o jogo do plano, do que é fundo e do que é forma. A minha pintura brinca muito com isso. A poética é importante para si? Sim, acho que é importante. Não é uma coisa que eu force, mas alguns trabalhos podem ser lidos com essa vertente. Por vezes nasce com o título, que eu geralmente atribuo depois do trabalho concluído. O título, para si, é importante na construção do sentido da obra? É, mas o que estamos a observar é mais importante. Considero que se não se souber o título, o trabalho percebe-se, mas o título dá indicações fortes do que se passa, que ajudam à sua compreensão. |