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12-Mar-2010
Nuno Vicente: a obra como uma partilha | Entrevista PDF Imprimir e-mail

By Nuno Cunha*, on 29-11-2009 12:59


 Para Nuno Vicente, a obra começa e acaba com o público presente, como um acto de patilha. Aspira a poética e a intemporalidade, e considera só poder atingi-la com temas universais, que a arte sempre abordou.

No desenvolvimento do seu trabalho, quais são as suas preocupações e onde pesquisa?

O meu trabalho não se resume facilmente a uma linha.

 Sim, mas que questões trata?

O que estive a tentar fazer com esta exposição tem a ver com uma tomada de consciência que se relaciona com a minha visão pessoal, de procura da essência de alguma coisa. Parto sempre duma reflexão. Não há um pensamento que ligue a obra toda, pelo menos de modo muito directo. Para cada trabalho há um pensamento. Eu concebo a obra muito mais no sentido dum contacto com o público.

Isso é verdade para a obra de qualquer artista, mas o seu trabalho tem referentes que o de outros artistas não tem. Qual é o tipo de questões específicas, suas, que se refletem no seu trabalho?

Numa perspectiva mais política do meu trabalho, ele não é direccionado para nenhum problema sociológico, mas centra-se sempre muito na essência, um problema que será antropológico. Logo aí se afasta de questões que apontam para algo determinado, ou relacionado com uma fracção da população. O meu tipo de preocupações relaciona-se talvez mais com a essência do humano.

Em que sentido é que o seu trabalho se relaciona com questões que são do foro da antropologia?

Por exemplo, o título desta exposição (Soluções Poéticas para Coisa Nenhuma) é ao mesmo tempo sincero e irónico, é simples e tem um pouco a ver com a minha postura: para falar, digamos, do amor, em vez de procurar dar uma grande volta, para as pessoas, depois, estarem com uma grande reflexão ou um grande sentimento até perceberem que é sobre o amor, coloco a coisa de modo directo através de pequenos jogos, para que seja facilmente assimilado, embora espere que provoque uma reflexão profunda.

Clarificando, o conceito de arte conceptual é algo que me faz alguma confusão e eu não gosto de estar associado a ele, mesmo que hoje seja tido como algo nobre. Na Filosofia, quando se fala em conceito, circunscreve-se, e a arte tem a ver com criação, com uma renovação que é sempre feita a cada abordagem, que é também o que eu procuro no meu trabalho. Eu não tenho uma fórmula, mas é evidente que todos os trabalhos mostram uma visão muito pessoal.

 


E consegue identificar os elementos que na sua obra retratam essa visão? O que é que torna a sua obra, sua?

Hoje vemos uma panóplia de artistas que estão todos próximos uns dos outros. No que eu faço há sempre uma abordagem sensível, mesmo quando há sensibilidade e ironia, para que não caia no vazio ou seja apenas para a esfera da arte. É como se houvesse duas artes: uma intemporal e outra que é o próprio mundo da arte, que surge com a modernidade e se tem afunilado nestes últimos anos.

Nesses dois mundos, onde se procura psosicionar?

Eu tenho sempre uma vontade de partilha com o público e recorro a ferramentas que adquiri. Tento ser contemporâneo neste ponto. Ao nível do conteúdo, tento que seja intemporal. Trato de assuntos que os artistas há 500 anos já tratavam, o que se irá manter também no futuro.

A poética, no seu trabalho, é importante?

A poesia é uma nobreza que eu gostava de alcançar.

 


A forma como desenvolve o seu trabalho, é essencialmente intuitiva ou racional?

É muito sincera.

Certo, mas isso não responde à minha questão...

Eu percebi a sua pergunta. O meu trabalho, mesmo quando é racional, tem sempre um fundo sensível.

O público é importante na sua obra? Em que momento pensa nele? Quando concebe, durante o desenvolvimento ou só na altura em que expõe?

É importante sempre. O que faço, é pelo público. É mesmo um acto de partilha. A obra começa e acaba com o público.

Nuno Cunha
*Publicado na revista NS, suplemento de sábado do DN e do JN


   

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