| By Mário Bruno Pastor,
on 04-12-2009 07:57
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“All the imperfect things” é o título da exposição de Pedro Constantino (1972) na Galeria Serpente, no Porto, até 22 de Dezembro, uma mostra de um artista que, após uma longa paragem, regressa à actividade expositiva. Mário Bruno Pastor escreve sobre o trabalho de Pedro Constantino.
Speculum et Spelaeum | Ó cores virtuais que jazeis subterrâneas, -Fulgurações azuis, vermelhos de hemoptyse, Represados clarões, cromáticas vesânias -, No limbo onde esperais a luz que vos baptize, As pálpebras cerrai, ansiosas não veleis. Camilo Pessanha |
O reflexo é, em termos quânticos, a materialização fugaz da luz, e, por inerência, a concretização da própria cor. Seja efémera na retina ou quase perenemente sobre a tela, não existe sugestão cromática sem luz, e sem a sugestão cromática, não existe novamente a reflexão sobre a natureza. Imaginávamos por isso que não era possível interpretar as lascivas estalactites, os veios minerais e as fúngicas fantasias do coração das cavernas, ou, noutras paisagens, as texturas corrosivas, a decomposição metálica e as profusões de corais dos despojos submarinos. Só a claridade poderia revelar os segredos desses mundos ou o significado dessas sombras, mas havendo claridade, deixaria de haver a caverna ou o abismo.  Na exposição presente, porém, o resgate espeleológico ou oceanográfico, que nos trouxe à superfície estes mundos ocultos, é nos apresentado por Pedro Constantino, não através da luz, mas do seu simulacro, que é a pintura; não falamos de emanações que brotam naturalmente à flor da tela, mas de sedimentos ou depósitos acamados meticulosamente sobre ela, pincelada a pincelada, por vezes vagos, outras vezes bem vincados e no final omitidos, de certo modo, destruídos. Encontramos por isso uma plasticidade sem vestígios directos dos pincéis. O processo de sedimentação passou pela anulação desse tipo de evidência, ora através da raspagem quase destrutiva do paciente processo de revelação, ora através da diluição em manchas do trabalho prévio, resultando daí um conjunto de fragmentos aparentemente dispersos que povoa cada um dos trabalhos apresentados, é como se restassem múltiplos quadros dentro de cada quadro que, numa visão de conjunto, nos levam novamente para a reflexão sobre os temas da natureza oculta das cavernas ou do fundo dos oceanos.  Quando nos voltamos a deter sobre cada um dos fragmentos que nos são sugeridos, parece surgir uma profusão de pequenas paisagens, ou vestígios delas, que, nos levam para universos naturalistas: poderão ser os desfiladeiros áridos do deserto, os glaciares polares, ou resíduos nocturnos e tempestivos, como pormenores de Constable ou fundos mais antigos e serenos de Poussin. Outras vezes, a sugestão leva-nos para elementos mais tácteis, desde o nácar das conchas à irritação da penugem aviária. Em todas essas descobertas, prevalece sempre um princípio estranho, muito semelhante ao dos testes de Rorschach, cada impressão provocará sentimentos distintos em observadores diferentes. Impressões que poderão ir do desconforto até à contemplação, mas sempre magnéticos e até perturbadores. A dada altura, é como se o fundo e a entrada da caverna se sobrepusessem. Uma ousada alegoria que não nos deixa perceber se o que vemos é o mundo absoluto das ideias, ou apenas as sombras e as trevas delas próprias, e é nesse momento que somos levados a conduzir o olhar para outra direcção, o caminho da introspecção. Cada retalho funcionará então como uma lição da nossa própria mente, como uma superfície onde se especulará o subconsciente de cada um, não através do convencionalismo da abstracção pictórica, mas, ainda que não chegue ao figurativo, através da sugestão de um certo naturalismo que nos levará para referências aparentemente concretas. Daí as impressões paisagísticas ou cénicas de algum mundo que não nos pareceria, ao primeiro olhar, ali estar, daí as sensações exclusivas que cada observador poderá sofrer, as viagens únicas que cada um poderá executar frente a frente com a revelação surpreendente do baptismo da luz. Mário Bruno Pastor Porto, 18 de Setembro de 2009 |
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