| By Nuno Cunha*,
on 05-12-2009 12:53
|
Pensar a obra é um acto que para a maioria é uma incógnita. O desvendar dos processos permite a quem vê um interesse maior pelo suporte de leitura de que passa a dispor. João Pedro Vale pensa os seus trabalhos numa relação íntima com o público, recorrendo a elementos do imaginário colectivo na construção de uma obra que só se completa com as múltiplas leituras dos observadores. Do público, no entanto, apenas lhe interessa esta interacção e não enquanto massa crítica.
Mostrou “Feijoeiro” no Museu Nacional de Arte Contemporânea (Museu do Chiado), até ao final de Outubro, obra Pedro Lapa definiu como “a materialização do feijoeiro mágico do conto João e o Pé de Feijão” e até 10 de Janeiro expõe individualmente na Galeria Filomena Soares.
Como pensa o seu trabalho, como e onde pesquisa? A pesquisa varia muito, consoante o tipo de trabalho, e geralmente faço-a de duas formas distintas. Enquanto escultor, tenho interesse por determinados materiais que contêm significados que eu quero utilizar, e aí penso primeiro no material e na maneira de o usar. Eu agora estou a fazer umas peças onde utilizo especiarias; quero utilizar pimenta porque a minha ideia assenta no facto de poder falar sobre a História de Portugal e as descobertas, as rotas comerciais e por aí fora, mas por outro lado a pimenta tem uma conotação meio erótica, picante. A dada altura investiguei sobre o que foi feito de arte erótica pelos gregos e pelos romanos, e o que acabou por acontecer foi que, no fim, o material que tinha sido o ponto de partida deu origem a uma série de esculturas, em que os recipientes onde as especiarias eram transportadas foram, por sua vez, ornamentadas com elementos de esculturas ou desenhos existentes associados à arte erótica e, de repente, tudo se conjuga e cria determinada leitura.
Outro tipo de pesquisa: estive em Nova Iorque, numa residência, durante seis meses e, basicamente, o que fiz foi só pesquisa. A minha primeira ideia foi perceber o que significam as comunidades portuguesas nos Estados Unidos. Ao investigar, procurei as comunidades piscatórias que se foram desenvolvendo e, a partir daí, cheguei a uma de pescadores de bacalhau, oriundos da Madeira e dos Açores, onde existem os baleeiros. Daqui, cheguei ao Moby Dick, e o facto de estar nos Estados Unidos foi talvez importante pelo facto de ser uma obra da literatura amricana. Agora, estou a desenvolver um projecto sobre o Moby Dick. Aqui, a forma como o projecto surgiu, veio depois da ideia do que eu quis trabalhar. Em termos referenciais, parte de uma base muito urbana, ou interessa-se mais por outro tipo de assuntos, que tenham a ver com a vida ou com problemas sociais? Há muito da cultura popular na sua obra... Interessam-me, em termos de referências, coisas com que as pessoas pensem que estão familiarizadas, ou seja, oriundas da cultura popular. Com a minha pesquisa, procuro levar as pessoas a reflectir sobre determinada coisa que pensam estar adquirida. Através da cultura popular faço com que as pessoas se sintam próximas do projecto, para depois as levar a pensar noutros níveis, ou seja, levo-as a acompanhar o mesmo processo que eu ao desconstruir determinado assunto. Ao longo do meu percurso fui-me interessando por várias coisas: por contos e pelos imaginário infantis, noutra altura procurei mais temas sexuais, o que eram as coisas associadas à comunidade gay, o que era isto da identidade sexual, mais recentemente interessei-me pelo significado da identidade nacional e o que faz com que as pessoas se identifiquem com estes símbolos. Os diversos passos do desenvolvimento do seu trabalho fazem-se por saltos muito intuitivos ou é tudo muito racionalizado? Depende. Na verdade é muito racionalizado, mas eu, muitas vezes, faço questão que o trabalho aconteça no atelier – eu mando fazer as estruturas fora e não trabalho só; tenho ajuda de assistentes -, mas há coisas que correm mal no processo e eu tiro partido desses eventos. Nesse sentido, acaba por ser intuitivo. À partida estou a pensar a peça de determinada maneira, mas não me adianta sequer fazer uns desenhos e projectar a peça até ao limite, porque eu sei que no processo vai havendo coisas que vou alterando e que são úteis para o resultado final. Recorre frequentemente à metáfora e a soluções que permitem outras leituras. É importante para si que a poética transpareça no seu trabalho? Depende, mas não, não é! O público é importante para si? É muito importante. As minhas peças só estão completas quando entram em relação com o público e tendo em conta que elas apelam ao imaginário colectivo, cada um vai ler a obra de uma maneira diferente e ela só se completa quando se desenvolve este conjunto de leituras. O público interessa-me nesta interacção, não enquanto massa crítica. Nuno Cunha * Publicado na revista NS, suplemento de sábado do DN e do JN |
|
|