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09-Set-2010
Emissores Reunidos II – Senhor fantasma vamos falar PDF Imprimir e-mail

By Vítor Leal / Serralves, on 11-12-2009 11:08

 O projecto curatorial Emissores Reunidos, produzido pela Fundação Serralves e comissariado por Ricardo Nicolau, leva a Arte Contemporânea para o centro da cidade do Porto. A sua segunda edição, com o título "Senhor Fantasma, Vamos Falar", está patente até 24 de Janeiro.

Serralves continua na sua senda pelas ruas do Porto com o projecto Emissores Reunidos, trabalhos de artistas recentes, instalações, Vídeo Arte, escultura que ocupam o antigo edifício da RDP. Uma reapropriação do espaço, uma revitalização da vida urbana portuense.

São obras elaboradas para este espaço, para as características prórpias deste edifício desterritorializado, “desfunsionalizado” e re-formulado no seu uso, com vestígios de utilizações passadas bem presentes em logótipos, nas estruturas das cabines de som para que Marcelo Cidade (São Paulo, 1979) e Renato Ferrão (Vila Nova de Famalicão, 1975) executam as suas obras.

Nota Informativa

Emissores Reunidos é um programa de exposições que reabre um edifício do Porto onde até há pouco tempo funcionou uma estação de rádio. O segundo episódio – Senhor Fantasma, Vamos Falar – reúne obras de Marcelo Cidade (São Paulo, 1979) e Renato Ferrão (Vila Nova de Famalicão, 1975) especificamente concebidas para este espaço. A exposição poderá ser visitada até 24 de Janeiro de 2010.

 Renato Ferrão faz quase sempre peças reveladoras de um enorme fascínio por suportes e matérias obsoletas. Tinha obrigatoriamente de se interessar por algumas das características fundamentais deste prédio: o anacronismo dos materiais deixados para trás pela rádio (painéis de insonorização, alcatifas, cortinas), a possibilidade de ainda imaginar antigos espaços de trabalho, velhos escritórios – e escritórios, relógios de parede, papeis químicos, recibos, fotocópias, no fundo regulamentos e tarefas repetitivas, têm tido um lugar de destaque no trabalho deste artista.

Marcelo Cidade também já usou o escritório como metáfora para comentar a regimentação a que a nossa gestão de tempo está sujeita; também este artista se tem insurgido contra a ditadura da eficácia e da performatividade que marginaliza todos quantos não estejam sempre a postos, permanentemente conectados. Por outro lado, o espaço da exposição, testemunha de uma ideia de progresso ligada à indústria têxtil e ao comércio de tecidos (a venda de tecidos foi a actividade que antecedeu a emissão de rádio), é no seu estado actual – de abandono, quase ruína – uma tradução fiel dos problemas económicos e sociais que afectam a área urbana que o envolve, composta em grande medida por prédios e centros comerciais igualmente abandonados, também arruinados. Mais do que o passado concreto da rádio, interessou-lhe explorar as várias camadas de história do espaço: durante a preparação da exposição, o artista referiu-se sempre ao espaço como “edifício-mutante”. Muito interessado por determinado passado da arte brasileira, Marcelo Cidade tem frequentemente utilizado formas encontradas na rua e que coincidem, em termos estritamente formais, com peças icónicas da arte modernista e de vanguarda daquele país.

 “A abstracção excluirá o político?”, esta é a pergunta com que muitas das obras de Cidade nos confrontam. Neste projecto para o Porto, o artista recorre ao minimalismo (uma das esculturas inspirou-se numa peça de Robert Morris) e à tradição dos affichistes (uma das salas apresenta vestígios de cartazes); também cita um dos nomes fundadores da modernidade das artes brasileiras: Alfredo Volpi. Simplesmente, peças que parecem ser exclusivamente formalistas e nostálgicas (para não dizer fetichistas) aludem simultaneamente à cultura urbana e ao punk. Exemplo: as bandeirinhas que aludem a Alfredo Volpi mas que neste caso são negras, compõem uma instalação intitulada Black Flag, que é o nome de uma mítica banda de música.

Para esta exposição nos antigos espaços da RDP, Renato Ferrão recorre mais uma vez a diversas técnicas de duplicação. Para começar, emprega numa peça papel-carvão, que é um papel dotado de um dos lados de uma camada de tinta ou de pigmento transferível, geralmente por contacto – e nem será preciso dizer que os computadores e as impressoras o foram tornando obsoleto e que será hoje, como tantos outros, um produto descontinuado. Depois, volta a criar peças gémeas, que podemos ver em espaços afastados do edifício. Renato Ferrão transforma a experiência de vaguear pelo espaço da antiga rádio numa experiência destabilizadora: as discrepâncias e repetições entre trabalhos baralham eficazmente o nosso sistema perceptivo, a nossa faculdade de memorizar e de antecipar. Algumas dessas peças empregam a carcaça de relógios de parede que deixaram de cumprir a sua função, outras são compostas por antigo mobiliário de escritório, cujas gavetas se encontram suspensas no espaço através de cordas e de elásticos. As referências ao trabalho de escritório prendem-se com as características do espaço da antiga rádio (que além de estúdios tinha obviamente gabinetes) mas também com essa obsessão do artista com o trabalho dos copistas, com as tarefas repetitivas típicas do funcionário público – tudo processos de produção mais ou menos desumanizados. O constante recurso a sistemas de medidas e de contabilidades, a materiais de escritório, a recibos, tem-lhe permitido contrapor aos ideais de eficácia e de produtividade a dignidade do “Não posso!”. Não espanta que as peças gémeas em que objectos estão suspensos, temporal e espacialmente, já tenham sido associadas ao copista Bartleby, inventado por Herman Melville, e que preferia não fazer.

Sobre os artistas

Marcelo Cidade

 Nasceu em São Paulo em 1979, cidade onde vive e trabalha. Realizou várias exposições individuais, nomeadamente: Outro Lugar, Galeria Vermelho, São Paulo (2006), Acidentes não acontecem, Fundação Ascensão – Vale do Anhangabaú, São Paulo (2007), A ordem dos tratores não altera o viaduto, Galeria Vermelho, São Paulo (2008), Demonstrador de Segurança, Centro Cultural de São Paulo (CPSP), São Paulo (2008), Norms Patterns Systems, Galerie Motte et Rouart, Paris (2009). Participou em diversas exposições colectivas, de que se destacam: 27.ª Bienal de São Paulo, São Paulo (2006), Urban Scapes, DNA Gallery, Berlim (2006), Incorporés, FRAC Bourgogne, Chalon-sur-Saône, França (2006), Futuro do Presente, Instituto Itaú Cultural, São Paulo (2007), Whenever it starts it is the right time strategies for a discontinuous future, Frakfurter Kunsteverein (2007), I/legítimo, Museu da Imagem e do Som (MIS), São Paulo (2008), An Unruly History of the Readymade, Fundación/Colección Jumez, Ecatepec, México (2008), Brazil Contemporary, Nederlands Fotomuseum, Roterdão (2009).

Renato Ferrão

Renato Ferrão nasceu em Vila Nova de Famalicão em 1975. Vive e trabalha no Porto. Realizou várias exposições individuais, de que se destacam: Quem tem olho é rei, Galeria Quadrado Azul, Porto (2006), Longa duração, mad woman in the attic, Porto (2006), Impreciso, IN.TRANSIT, Porto (2007), Fóssil de microhabitat, Galeria Quadrado Azul, Porto (2008) e A C ack of ence, A Certain lack of Coherence, Porto (2008). Participou em diversas exposições colectivas, nomeadamente: Busca Pólos, Pavilhão Centro de Portugal, Coimbra (2006), Depósito – Anotações sobre Densidade e Conhecimento, Reitoria da Universidade do Porto, Porto (2007), part-ilha, Spike Island, Bristol (2008), A situação está tensa mas sob control, Arte Contempo, Lisboa (2008), A nossa língua não cura, Espaço Avenida 211, Lisboa (2009), Antes de chegarem palavras, Espaço Campanhã, Porto (2009).

   

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