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05-Fev-2012
Anos 70 na Gulbenkian - Apresentação PDF Imprimir e-mail

By Raquel Henriques da Silva, on 19-12-2009 09:06


 A exposção “Anos 70. Atravessar fronteiras", patente no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian até 3 de Janeiro, é comissariada por Raquel Henriques da Silva, autora do texto de "Apresentação" que hoje publicamos.

O ponto de partida da exposição «Anos 70. Atravessar Fronteiras» foi o trabalho sobre o magnífico arquivo do Serviço de Belas-Artes (sba). da fcg que Ana Filipa Candeias, Ana Ruivo e eu própria realizámos, embora sem exaustividade, na preparação da exposição «50 Anos de Arte Portuguesa», apresentada na fcg, em 2007. A análise de diversos processos de artistas que beneficiaram de bolsas ou outros apoios ao longo dos anos, permitiu-nos perceber um crescendo de energias, dinâmicas e questionações na cena artística portuguesa que, na década de 70, atinge uma extraordinária diversificação interna, com elevados níveis de experimentação. Por isso, quando Manuel da Costa Cabral, director do sba, me solicitou um projecto expositivo para 2009, esta mostra começou a ganhar forma, também com o empenho de Jorge Molder, então director do CAMJAP.

Apesar do ponto de partida e de, mais uma vez, dispormos de um generoso período para investigação, decidimos, desde o primeiro momento, que o arquivo do sba iria ser apenas um apoio pontual e não a razão de ser da exposição. O nosso desejo, que durou mais de um ano, foi o de fazer uma exposição internacional, sob o repto que nos parecia o mais estimulante da década: o cosmopolitismo da produção e da circulação que, com alguma sistematicidade e profundidade, foi acabando com o isolamento da cena artística portuguesa. Por razões diversas, este desígnio não pôde concretizar-se, pelo que a exposição trata exclusivamente dos anos 70 em Portugal.

Nos textos produzidos para este catálogo são aduzidos os critérios com que trabalhámos os quais, naturalmente, tiveram de ir sendo reconvertidos à instância dos constrangimentos que se jogaram entre a nossa capacidade de seleccionar, em função do espaço concreto de exposição, e as possibilidades de as instituições, coleccionadores e artistas acolherem os nossos pedidos. O catálogo acompanha as áreas fundamentais da exposição que articula dois vastos temas – «A necessidade de intervir» (com enfoques sobre paisagens, espaços utópicos e espaços urbanos) e «Experimentação: série e variação» – cujas obras foram escolhidas em função da possibilidade de se articularem entre si, em diálogos que desejamos estimulantes para os públicos.

Procurámos fugir às situações mais conhecidas e homenageadas desta década e, por isso, faltam aqui peças referenciais de artistas consagrados. Preferimos correr o risco de procurar obras menos conhecidas, outras esquecidas, revisitando memórias e ancorando afectivamente adquiridos históricos. Houve sectores que não conseguimos desenvolver (por falta de tempo e espaço para exposição), nomeadamente a gravura e a tapeçaria, que têm grande fulgor na época, e o do cartaz, de que não quisemos abdicar, mereceria mais fundo trabalho de investigação. Mas, na vasta zona documental, é possível apresentar testemunhos de alguns dos críticos mais influentes na época, expressamente recolhidos (José-Augusto França, o mais antigo e figura de referência; Rui Mário Gonçalves, então representante de uma nova geração de críticos; Egídio Álvaro, o crítico outsider), acompanhados por importantes documentários de época sobre alguns eventos de relevo. Como marcação particular, não posso deixar de referir o filme, realizado pelo engenheiro Carlos Michaelis de Vasconcelos, com o título A Arte na Revolução (1974/75), exibido pontualmente no contexto da década, fora de qualquer circuito comercial.

 Foi ao longo do trabalho de investigação que o nosso entendimento dos anos 70 foi ganhando forma. Dele damos conta, nos textos iniciais do catálogo, elaborados pela equipa de investigação, com a colaboração externa de Rita Macedo (que, em âmbito académico, estudou em profundidade o contexto da arte portuguesa nos anos do Marcelismo), o apoio generoso de Leonor Oliveira na elaboração da cronologia e Miguel Ferreira dos Santos que nos auxiliou na consulta tão exaustiva quanto possível dos catálogos das exposições realizadas na década e na sistematização dessa informação.

Neste percurso, contámos sempre com a disponibilidade e apoio de todos os serviços da fcg a quem solicitámos colaboração, dos responsáveis dos vários museus e instituições a que pedimos empréstimos e, muito especialmente, dos artistas que connosco trabalharam com o maior entusiasmo. Sob este aspecto, não posso deixar de mencionar aquele que é o aspecto mais relevante desta exposição: expomos peças que há muito não são vistas (como as de Túlia Saldanha), algumas delas refeitas para esta exposição (Alberto Carneiro, José Aurélio, Acre) ou especificamente remontadas pelos seus autores (Ana Vieira, Rui Orfão, Alberto Pimenta, Costa Pinheiro), o que significa um extraordinário alargamento do âmbito de uma exposição, permitindo progredir significativamente em termos de documentação de peças complexas ou da sua rematerialização. O caso extremo desta vertente de investigação aplicada será o Projecto de Exibição de Luís Vaz, de Jorge Peixinho e Ernesto de Sousa, risco que assumimos no pressuposto do nosso entendimento dos anos 70: os processos são mais importantes do que os resultados; as obras (mesmo uma exposição) são inquéritos cujas respostas não podemos nem queremos esgotar.

Raquel Henriques da Silva


   

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