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12-Mar-2010
Conceição Abreu na Sala do Veado: “A ausência de si” PDF Imprimir e-mail

By Luísa Soares de Oliveira, on 07-01-2010 21:14


 “Uma voz que fala sobre um filme: é esta a essência do belíssimo texto de Marguerite Duras, L’Homme Atlantique, que está no coração deste trabalho de Conceição Abreu” - Luísa Soares de Oliveira, em texto que a seguir publicamos sobre a exposição na Sala do Veado. Conceição Abreu expõe “Absence” na Sala do Veado do Museu Nacional de História Natural, em Lisboa, de 7 a 31 de Janeiro.

 Uma voz que fala sobre um filme: é esta a essência do belíssimo texto de Marguerite Duras, L’Homme Atlantique, que está no coração deste trabalho de Conceição Abreu. A voz dá instruções a um invisível actor: diz-lhe que passe em frente da câmara, que se esqueça de si, que se esqueça do acto de fazer um filme. Que se anule, em suma, que se torne uma ausência. A ausência de si.

Simultaneamente, a artista, no ecrã, deslaça um novelo de fios. Usa um vestido que exibe uma fotografia de uma árvore nua, uma árvore invernal. Sem folhas, despida, a árvore do vestido contradiz o propósito de cobrir, esconder, confortar, estruturar, aperfeiçoar o corpo que qualquer vestido sempre possuiu. A teia desfaz-se nas mãos de Conceição Abreu, sem nunca se destruir completamente, e reforça-se nos desenhos bordados que concluem a selecção de peças de Absence. Um desenho é, antes de tudo o mais, uma linha. E a linha tanto pode incrustar-se na superfície do papel como ser desdobrada, de meada desmanchada ou de novelo feito, nas mãos da artista.

Ausência: a ausência é, também, tudo o que está e esteve fora de campo: o que não se diz, o que já se disse, o que fica por ver, o que já se viu e agora só se recorda. Conceição Abreu tem esta capacidade rara de convocar as memórias muito antigas (do seu trabalho, da sua vida e da sua condição) em cada nova obra que produz, e de as actualizar num presente continuamente fora de campo. O que não se vê aqui é não só o que ela não quer dizer nem mostrar, mas também tudo o que cada gesto, cada imagem plasticamente convocam: da pintura à escultura, da dança à representação, do cinema, enfim, como se o imaginássemos à leitura de um script.

Mas a ausência é também presença, mesmo que esta seja apenas a distância infinita, nunca preenchida, entre o que está e o que já não está. É neste espaço mental que a obra desta artista deverá ser entendida. Como as aranhas de Louise Bourgeois, como o fio que Ariadne entregou a Teseu, Conceição Abreu tece as teias que impedem o esquecimento.

Luísa Soares de Oliveira, Novembro de 2009


   

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