| By Vítor Leal,
on 28-01-2010 22:37
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Com a emergência dos princípios do Nouveau Realisme uma nova etapa revela-se na arte do século XX, com um reformular dos conceitos de abstracção e figuração. Tendo como uma das finalidades estruturantes a criação de uma nova relação da arte com um mais vasto público, com as massas, com uma audiência mais alargada, como o pensava Walter Benjamin. Formulam um controverso desafio direccionado à problemática da representação em relação ao simulacro, recriando o termo representação, no domínio das artes plásticas. Tomam como princípio integração da “realidade exterior” na obra, aquela é agora parte integrante da obra, não apenas esticamente, mas também ontologicamente, como elementos constituintes da obra.
Sendo que nesta manifestação, os objectos vêm assumir um valor per se, como o defendia Arman, são os objectos do quotidiano, os objectos que determinam mais eficazmente e profundamente o juízo estético, que o formatam. Pelo que sequentemente uma alteração nos suportes é alterada em face dos desígnios e exigências que as formulações deste grupo, nado nos anos 60, implicam. A década de 50 foi momento crucial para o catapultar de um novo pensamento artístico, para a fusão, invertendo a cisão kantiana, da estética cognitiva com a estética, fundamento da filosofia de Deleuze. Profusas mutações sociais imbuídas de uma nova força, de uma nova cultura, alimentada pelo plano Marshall, pelo plano de apoio económico dos EUA à Europa, após a II Guerra Mundial, em que a publicidade alcança um crucial papel, pela divulgação dos produtos de consumo que desaguam nas casas de todos os cidadãos, delineando novas vivências, assim como na formação do juízo de gosto da multiplicidade que constitui as massas. Em que o design, tanto gráfico, como industrial, como de equipamento se revela nuclear ao entrar tão despudoradamente no seio das famílias, lapidando novos gostos. É um público mais vasto, para o qual os Nouveau Realistes olham, um público que haviam gorado os intentos dos abstraccionismos, que não se havia familiarizado com as suas linguagens, uma arte que não se expandira quanto era desejado para além das fronteiras dos “conhecedores”de arte. Sendo que a figuração, em conformidade com a designação tradicional, viu a sua importância e valor dirimidos. Atestando estas transformações, do delinear de uma nova cultura, de um gosto, nas suas variações, encontra-se a obra de Roland Barthes: Mythologies, publicada em 1957. Congregando textos que percorriam de modo incisivo o imaginário da população, múltipla na sua unidade, a importância do design publicitário, e das mensagens usadas, tanto escritas como pictóricas, tanto nos cartazes como nas embalagens de margarina, hamburgers, detergentes, assim como a emergência do culto das estrelas cinematográficas que vêm povoar a cultura popular com um novo panteão, com mitos que se estabelecem e divulgam pelos novos media, pela divulgação ao alcance de todos. Não olvidando a importante publicação de Umberto Eco, em 1962, Opera Aperta, que agitou as polémicas culturais, tratando problemas relativos à arte cinética, às estruturas temporais da filmagem televisiva directa e o cinema, fornecendo uma visão da arte contemporânea peculiar, que terá, de imediato, repercussões profundas na criação artística, e não apenas na análise. Em 1961, no decorrer do mês de Outubro, na cidade de Milão, nasce oficialmente o movimento organizado em Paris anos antes, com o manifesto de Pierre Restany denominado: Manifesta del Nouveau Realisme. Nele reiterava a necessidade, comum à maioria dos artistas do seu tempo, de se relacionar o mundo da arte ao mundo quotidiano, e a forma artística à forma ordinária. Mais uma vez a arte se encontrava na situação de lidar com a realidade do mundo chão e fazer uso dos correntes materiais, pela incorporação destes objectos nas suas obras. Um poster rasgado, bonecas rejeitadas, eram tornados instrumentos de uma linguagem que relacionava a arte com a realidade. No findar da década de 50 assomara revivalismo de actividade vanguardista em Paris, particularmente derivada do dadaísmo.Yves Klein iniciara antes de 1960 os seus quadros monocromático, particularmente os que recebiam a designação de Internacional Klein Blue, percorrendo um caminho inspirado pela filosofia Oriental, sobretudo de proveniência japonesa, intentando criar uma arte feita de acções absolutas. Um desafio à arte e á percepção, desde o seu salto no vazio aos seus hapenings, em que a obra de arte é o acontecimento, onde mais do que nunca o tempo impera, a criação é a obra, é o resultado, é a sua vivência. Caminho que definirá as performances, mas também a arte multimédia, de Nam June Paik, Jeffrey Shaw, Eliafur Elianson.Restany nos seus escritos declarava que a sociologia era um fundamental elemento que interviera como auxiliador da consciência e ensejo para criação das obras, fosse do domínio da escolha dos objectos constituintes ou do rasgar de um poster, ou determinando o carácter de um objecto, de um cesto do lixo, de resíduos de uma sala, ou do fulgor de afectividade do mecânico, ou da difusão de uma sensação para além dos limites da sua percepção. Princípios que uniam Mimmi Rotella, François Dufrène, Niki de Saint-Phalle, Jean Tinguely, Arman, César, Yves Klein, Daniel Spoerri, Christo. Artistas que pelas suas acções e obras demonstraram uma necessidade de o artista se posicionar intencionalmente no contemporâneo mundo do quotidiano, de modo a fazer desabrochar os fenómenos estéticos pluralistas, que, não obstante a heterogeneidade, consideravam universais. O artista a partir deste momento já não era alguém que possui um conhecimento técnico, mas alguém que fazia uso de todas as técnicas, de todo o imaginário, de todos os objectos do mundo corrente. O mundo não era algo a ser registado, mas com o qual trabalhavam, era objecto, meio e fim da produção, era como uma grandiloquente obra do qual se apropriavam em vários fragmentos, envoltos numa peculiar força, de um fluxo de vida, já que estes materiais possuíam um historial próprio, uma existência marcada pelo uso no tempo. Materiais díspares, elementos do real que confrontavam numa contínua troca de materiais e sensações, coleccionando os mais variados objectos que encontravam, tudo o que a tecnologia industrial deixava à disposição, dos desperdícios procurando revitalizar os signos e objectos, reactivando-os nas suas obras. Tais objectos emergiam como um objecto resultante do labor de um pensador, em que cada elemento, em simbiose, em conexão com outros criavam uma unidade que funcionaria em conformidade com a lógica artística. Numa aventura do real, como o mencionou Restany, conduzindo ao afastamento da pintura de cavalete, e conferindo um novo significado do Redy-Made duchampiano, como tradução do direito à expressão directa de todo um sector orgânico da actividade contemporânea. |
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