| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 11-02-2010 21:24
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“É na história que eu coloco toda a minha vitalidade” Paula Rego Confundem-se, nesta casa, a pintura e a narrativa. Fica claro que andam de mãos dadas, às vezes, muitas vezes; quase sempre são a mesma coisa. A história da condição humana naquilo que esta tem de mais ferido, de mais incontável. De mais inconfessável.
A primeira pintura que a exposição permanente nos mostra é o corpo em decadência. Mas não dá o tom. Porque muitas vezes o que encontramos é o corpo na sua mais chocante robustez. É o caso das bailarinas avestruzes, o oposto daquilo a que nos habituámos a esperar do corpo de uma bailarina. Aqui, a solidez é quase vegetal, pernas sólidas como troncos de árvores carnais. Não são exactamente os mesmos corpos musculados de uma certa arte de meados do século, não são esses corpos gloriosamente, miticamente trabalhados, ginastas elegantes e indestrutíveis. Estes corpos estão no limite entre o sólido e o tronco, o estável e o grotesco, criaturas saídas de um álbum proibido. É também muito curioso notar o percurso um pouco ao inverso do que nos habituámos a observar em outros grandes pintores de umas gerações atrás: do mais representativo e canónico, à depuração do traço, ao abstractamente simbólico, ao quase traço da infância. Aqui parece-nos encontrar esse traço nas obras mais antigas que se vão aproximando cada vez mais do representativo e passando à frente, até um naturalismo ou um hipernaturalismo do desconforto, onde a imitação do que existe de mais cruel na natureza do corpo coexiste com um universo surrealista onde os animais saíram dos sonhos para o mundo dos humanos. Como metáfora da condição humana. É totalmente possível reunir estes animais num bestiário e o que encontraremos lá, aos desfolharmos as páginas, será o rosto da mais lamentável, da mais deplorável, da mais prévia humanidade. Aquela que ainda persiste, a que conhecemos, que espreitamos por detrás das máscaras menos eficientes. Como se relacionam estes corpos brutais uns com os outros, com os animais? Em algo a que poderíamos chamar uma des-relação. Entre a violência, a cópula e o amor, as fronteiras são pouco nítidas, às vezes nem existem. Retive um quadro cujo título, “A sofreguidão dos peixes”, me faz lembrar muito o Sermão do Padre António Vieira, aquele que falou aos peixes quando queria, mas não podia, falar aos homens. E estes ouviram-no por interpostos ouvidos. E não gostaram do que não ouviram. Como reagimos nós humanidade de metafóricos peixes, perante estes cruamente implacavelmente pintados “sermões”? E depois há objectos. Alguns deles cortantes: facas, punhais, agulhas gigantes, objectos de perfuração, espadas. Sendo que esta última será a única simbolicamente carregada de símbolo de resgate de algo que ali não se define muito bem. Que talvez caiba a nós definir. Tudo isto sobre uma variedade, que apenas uma leitura mais atenta da informação técnica de cada obra permite perceber: Tinta-da-china, acrílico, técnica mista e colagem, óleo, litografia colorida em três folhas, pastel, lápis conté, guache, tinta e água, aguarela, água forte, água tinta, lápis, sobre papel, sobre papel montado em tela, platex, papel montado em alumínio, tapeçaria, bordado sobre pano. Como palco de personagens da ficção da artista, mas também de muitas histórias tradicionais, esses seres saídos de um universo tantas vezes de horror, perfeitamente adequadas a este imensamente grande livro de contos ilustrados que narra (denuncia?) a crueldade escondida no mundo. http://aluzdascasas.blogspot.com/ |
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