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05-Fev-2012
O pó das viagens | Filipa Oliveira PDF Imprimir e-mail

By Filipa Oliveira, on 23-03-2010 11:41

Cristina Ataíde expõe “Suspender o Ar” na Casa da Cerca, em Almada, até ao dia 16 de Maio de 2010. Filipa Oliveira escreveu um texto para o catálogo, que publicamos na íntegra.


"A viajar, percebe-se que as diferenças se perdem:
cada cidade assemelha-se a todas as cidades,
lugares mudam a forma, a ordem, as distâncias,
uma nuvem de poeira disforme invade os continentes."

Italo Calvino

O ser-se peregrino faz parte da condição humana. Não como a ideia de viajante por todo o planeta, mas enquanto símbolo da nossa vida. Esta é uma passagem transitória que por ser pensada como um percurso, feito de desejos e esperanças, de desilusões e frustrações, de chegadas e partidas. Mesmo se considerarmos o nosso quotidiano, a maior parte do tempo passamo-lo em transito, entre lugares.

Arthur Schopenhauer dizia que a maioria das pessoas tomam os limites de seu próprio campo de visão pelos limites do mundo. Poucas fazem o inverso. O mesmo filosofo afirmava que o artista permite-nos olhar para o mundo pelos seus olhos. Permite exactamente abrir o horizonte do nosso olhar para além do que é alcançado pelo nosso corpo em direcção ao que nos é desconhecido

A ideia de percurso ou de viagem pode servir de chave de leitura para a obra de Cristina Ataíde (Viseu, 1951). Muita da sua produção brota das múltiplas viagens que tem vindo a realizar e principalmente de um espírito inquiridor e curioso sobre tudo aquilo que vê. A sua obra não se debruça apenas sobre os lugares que visita, mas antes sobre as relações que estabelece entre eles, e entre o seu corpo e cada lugar. Como se os lugares que visita se transformassem em continuações do seu próprio corpo. Assim, o corpo, o veículo que percorre e experimenta os espaços que visita, é assumido como elemento centralizador da sua produção. As obras que cria, sejam esculturas, fotografias, desenhos ou vídeos, partem da sua experiência corpórea de uma determinada realidade e são encenadas para convocar o corpo (físico e espiritual) do visitante. O que parece impressionar a artista é, como referia Paulo Pires do Vale a propósito da obra de uma outra artista, “a expressão da vida em devir: o incessante movimento e a impermanência que permite que tudo permaneça. A vida, sempre antiga e sempre nova e sempre encoberta. Um livre jogo, em processo e acção.”

A exposição inicia-se com uma instalação na capela intitulada Desejar, onde Cristina Ataíde coloca um conjunto de paus de madeira com cerca de 3m de altura encostados à parede, nos quais estão atadas fitas vermelhas. Estas são fitas de desejos, de sonhos, de promessas. Esta sala lança o mote para a exposição: a peregrinação. O visitante é convidado a realizar uma viagem física pelas diferentes salas da Casa da Cerca, e ao mesmo tempo mental pelas obras que aí são apresentadas. Os trabalhos expostos evocam e incitam essa deambulação simbólica.

(Im)permanência IV, dois barcos suspensos, encalhados no pequeno espaço da sala de exposições que têm uma sombra/rasto de pigmento vermelho no chão, prossegue o conceito de viagem iniciado pelos ‘cajados’. Os barcos não se vêm completos mas apenas uma parte entrando e saindo das paredes do espaço, como se o movimento de partida já tivesse sido iniciado. A ideia de sombra ou rasto é concomitante com a de viagem. Por onde quer que passemos deixamos um vestígio da nossa passagem. É este pó, muitas vezes insignificante que é deixado para trás que constituí a instável matéria das nossas memórias. O pó vermelho, evocativo também do sangue que nos corre nas veias, que nos mantém vivos, pontua continuadamente a exposição surgindo em diversas outras obras.

  Prosseguindo uma associação matérica ao corpo humano, ao corpo da artista: a pele dos lugares que visita é transportada para as salas da exposição através de desenhos de decalque, uma técnica antiga que consiste no traçar de uma mancha sobre uma superfície texturada, através de grafite, ficando esta desenhada na folha de papel. Uns mais pequenos, outros maiores, ganham, fora do contexto (longe do lugar retratado), outras leituras possíveis. Ganham também, especialmente os maiores, uma dimensão sexual bastante acentuada. De destacar neste conjunto um pequeno pedaço de madeira que é envolvido com chumbo, como se a artista lhe aplicasse uma nova pele. Esta relação entre o real e o imaginário, entre o que é feito in situ e o que é trazido para o atelier é um algo de constante no trabalho de Cristina Ataíde.

Estes primeiros desenhos partilham a sala com as primeiras listas que aparecem na exposição. Ataíde tem vindo a recorrer ao modelo da listagem para criar obras que se afiguram como retratos. A maioria podem ser considerada no âmbito do auto-retrato, pois são descrições que se relacionam quer directamente com o seu corpo ou com a sua experiência do mundo.

Uma outro tema recorrente no trabalho de Cristina Ataíde, e que nesta exposição tem uma presença forte é a Montanha. Nada melhor materializa a ideia da ‘vida em devir’. Ataíde é fascinada pela montanha. Pela experiência física do estar, mas também pela experiência metafísica que aquela pode possibilitar. Cativa-a o seu ar rarefeito, mas mais puro; deslumbra-se com a sua pele e fica hipnotizada pelo contraste de escalas entre o seu corpo e o corpo da montanha. Esta incita também ao conceito de movimento. De alguém que confrontado com aquela extraordinária massa e peso, é convidado a percorrer os seus caminhos, as suas veias.

A exposição apresenta uma pequena escultura em bronze M #9 que evoca directamente a montanha, mas convocando também o seu inverso (como num iceberg no qual aquilo que é visível é apenas uma parte da realidade), assim como uma grande listagem de todas as montanhas do mundo que é exposta como uma linha que percorre a sala de exposições, e que marca assim um horizonte do olhar. Esse é o horizonte que serve de ponto de partida para ler, a muitas das obras expostas.

Uma dos trabalhos centrais da exposição é um enorme desenho de uma cordilheira imaginária que reúne diversas montanhas reais. Esta contrapõe-se a uma cordilheira em papel vegetal coberta de pó vermelho que se apodera do espaço de uma outra sala. A dimensão de ambas as obras, que mais do que desenhos se podem considerar esculturas, forçam o espectador a fisicamente lidar com o espaço. Obrigam a que decida um percurso, a cursar um destino. Apesar da leveza e simplicidade destas obras, elas escondem, por um lado, a grandeza e peso daquilo que retratam e, por outro, violentam o espaço da exposição. Estas obras, como outras da artista, não retratam lugares específicos, não são relatos das suas viagens, são antes projecções mentais de novas maneiras de olhar para o mundo. Não são sobre destinos específicos (apesar de estes aparecerem nas listagem que a artista realiza) mas reflectem a experiência do estar. É a dimensão metafórica proporcionada pelas suas viagens que Ataíde parece querer evocar.

“Viagens para libertar o passado?” com perguntava Kubla Kha a Marco Pólo em “Cidades Invisíveis” de Ítalo Calvino, ou para encontrar um futuro?

Filipa Oliveira

   

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