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05-Fev-2012
A originalidade do despir | Perplexidades PDF Imprimir e-mail

By Risoleta da Conceição Pinto Pedro, on 03-04-2010 15:12


 Joana Vasconcelos e Bordalo no Jardim do Museu:
Já escrevi pelo menos duas vezes sobre Joana Vasconcelos, digo, sobre trabalhos seus. Ou a sua forma de vestir. Não de se vestir, mas de vestir aquilo que não é habitual os humanos vestirem: deuses e sapos sempre se mostraram à vontade sem roupas, mas Joana V decidiu vesti-los.

Refiro-me a uma exposição que esteve patente no Museu da Electricidade sobre a Ilha dos Amores, onde Baco e as ninfas apareciam vestidos de rendas, e posteriormente encontrei um sapo de Rafael Bordalo Pinheiro também assim apresentado. De modo que quando soube que os animais de Bordalo Pinheiro tinham sido “largados” por Joana Vasconcelos no jardim do Museu da Cidade, não tardei em lá ir, na expectativa de ver a já conhecida alta costura num insólito bestiário ao natural dos emblemáticos animais em cerâmica vestidos por Joana Vasconcelos. Mas enganei-me. Porque desta vez a arte não está no vestir. O que encontrei foi um jardim semeado dos animais de Bordalo tão nossos conhecidos: sapos, lagartos, serpentes, peixes, gatos, lobos, tartarugas, cavalos marinhos, lagostas, macacos,  caracóis, insectos gigantes, e cogumelos, essa espécie de animais botânicos, e folhas verdes.. E mais, que não recordo. Todos despidos, digo, não vestidos, ou antes, cobertos com o que de mais natural lhes é conhecido É espectáculo opulento por onde deslizei lentamente e com gosto em dia de ar gélido, mas saboroso. Os animais foram dispostos em cima dos buxos, no relvado, trepando pelas paredes ou em cima dos muros, pendurados das árvores, dentro dos lagos. Despidos como vieram ao mundo pela mão do criador. Ou antes, vestidos de jardim, vestidos de ar frio, de luz sempre diferente, de folhas, de relva, de água.

 A proximidade destes animais levou-me até ao Museu em frente que inexplicavelmente (mea culpa) nunca visitara: o Museu Bordalo Pinheiro. E foi surpreendente encontrar no meio das peças de cerâmica históricas, do tempo do mestre, um pote coberto na sua parte superior, por uma renda. Pote e renda em cerâmica. Legenda: "pote com renda". Compreendi então por que razão Joana Vasconcelos resolveu desta vez, insolitamente, não cobrir os seus modelos: alguém já o fizera antes dela. Muito antes. A originalidade, agora, estava no descobrir, pelo não cobrir.

http://aluzdascasas.blogspot.com/

 


   

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