| By Vítor Leal,
on 26-04-2010 20:30
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É no final da década de setenta, nos últimos anos, que se forja a noção de Transvanguarda, cristalizada na publicação do texto La Transvanguardia, pelo crítico de arte Achille Bonito. Neste texto de 1980 estabelecem-se os princípios do que seria a estética da Transvanguarda. Um movimento que foi dividido em dois momentos: a Transvanguarda Fria, durante a década de setenta, e a Transvanguarda quente, nos anos oitenta.
A pintura, género puro da arte, a unicidade, natureza aurática da arte, a figuração, retorno à representação mimética da arte, as grandes narrativas, são colocadas em jogo, após a destruição causada pelos ataques das vanguardas e das primeiras neo-vanguardas – entre as décadas de 50 e 70 – numa recuperação de valores e ideias, da necessidade de re-estabelecer paradigmas perdidos, numa atitude neo-conservadora e eclética. Como consequência não há uma recuperação da História na sua historização cronológica, há a criação de uma a-historicização, uma História despojada da sua hierarquização cronológica, onde etruscos e italianos do século XX coexistem, uma cultura forjada numa nova temporalização. A técnica, neste caso artística, a técnica estética como criadora de uma nova temporalização a-histórica, envolvido por uma nostalgia pelo passado, pelo passado factual e mitológico que é acarinhado e alimentado, é tornado actual. «Quando o real não é o que era, a nostalgia alcança todo o seu sentido. Pujança dos mitos da origem e dos signos da realidade. Pujança da verdade, da subjectividade e da autenticidade segundas.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia)
Aqui se estabelece a assumpção do simulacro, onde tudo morreu e foi ressuscitado numa nova ordem, onde as narrativas mitológicas adquirem uma nova importância numa reconstrução do real, em que o artista se apresenta como um nómada, percorrendo os fragmentos em regimes de ecleticidade, onde a totalidade é feita do múltiplo variado, reequacionado numa nova técnica de temporalização do tempo e da memória. «A contiguidade de diferentes estilos estabelece a possibilidade de um surgimento inesperado, atravessado e mobilizado por uma sensibilidade ligeira»«Fiarte elegeu definitivamente a esfera da representação, abolindo as referências concretas a dados reais, substituindoo artifício da natureza dos materiais pela qualidade natural da matéria.» Tudo conflui para um momento, sempre presente, onde o passado factual e o mitológico se entrelaçam no presente pleno. Achille retoma a sensibilidade e a sensualidade como critérios de avaliação artística prosternando a ideia de um Deus cartesiano determinador do real, assim como a existência de um juízo final que permita o estabelecimento da distinção entre falso e verdadeiro. «O princípio de prazer substitui o princípio de realidade, entendido como exercício gratificante do trabalho artístico.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) Anchille Bonito Oliva, teórico criador do conceito de Transvanguarda expressa as determinações de um pensamento paradoxal, onde a globalização é local, algo que é subsumível no seu conceito “Glocal”, conceito simbiótico de global e local, como lexema, signo capaz de acolher numa linguagem universal uma dimensão antropológica. Expressando na universalidade da arte a problemática da individualidade, do sujeito que se afirma, que quer falar a sua língua e linguagem materna. «O sujeito forte da neo-vanguarda é substituído pelo sujeito suave da transvanguarda que o utiliza o drama, o mito e a tragédia como convenções linguísticas, como cores.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) A suavidade, calma apresenta-se como um carácter identitário onde o sujeito não necessita de se afirmar no contexto social, em que se liberta de determinações de organização do seu lugar numa hierarquia estipulada na sociedade, que se liberta dos constrangimentos socio-económicos, numa negligência intencional das problemáticas sociais, do papel e situação de cada indivíduo na sociedade. «A softness indica uma identidade que não tem motivos para fortes afirmações no contexto social e que restaura a possibilidade de um acento declamatório na arte. A falta de ponto de vista unitário é a conquista final deste estado, que se manifesta de modo eclético.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) A Transvanguardia afirma-se como um movimento com a intenção, não de analisar a História, de estabelecer uma relação de jogo, de manipular, de utilizá-la num afã estético, indiferente a problemáticas ou consequências do contexto social, de tal modo que se torna a-histórico. Uma história perdida no tempo, uma procura de técnicas de “destemporalização”, na medida em que as técnicas, os objectos inorgânicos organizados são agenciadores da temporalização do tempo, do estabelecimento dos parâmetros da historicização da História, que os intentos da transvanguarda procuram subverter, numa a-temporalidade da história, que é esquecida ou inventada. Eliminam-se as diferenças entre o passado e o presente. Joga-se com a história, num afã estético, que funciona em grande medida como um pastiche, desloca ou elimina contextos sociais, ignora ou recria uma História a-cronológica. «Agora a arte transvanguardista deixa circular a imagem sem lhe perguntar de onde vem ou para onde vai, seguindo o impulso de prazer que se re-estabelece a primazia da intensidade do trabalho sobre a técnica,…»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) Surgido no final da década de setenta período designado de transvanguarda fria sofrerá efectivas transformações, onde a publicação, em 1980, por parte de Achile, do Livro Transvanguarda Italiana, será o marco, ponto de transição para o período quente da transvanguarda, segundo este autor. A desterritorialização e reterritorialização em ecléticos regimes de pensamento e actuação na arte e na vida implicam um nomadismo, inexorável na sua deambulação sobre os heteróclitos fragmentos de uma nova técnica da temporalização, da vivência de um quotidiano feito de pluralidade variada. «O ecletismo é uma característica da suave identidade do artista, que tende a neutralizar diferenças, a fechar os olhos entre diferentes estilos e entre a distância entre passado e presente.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) Abdica da necessidade de um passado ou de um presente, numa libertação do peso da História que lhes permitem dela dispôr como lhes aprouverem. Sendo neste contexto que se opera uma relação de simbiose e imiscuição de linguagens múltiplas, de discursos que atravessam os tempos, do passado no presente, ocorrendo no momento em execução, no momento em que se determina o hoje, o aqui e agora formado por todos estes elementos que urdem a tecitura da vida quotidiana. Toda a cultura ocidental, todo o classicismo, renascimento, neoclassicismo, todas as grandes narrativas que habitam a memória colectiva das sociedades europeias, das sociedades assentes no paradigma do Ocidente e das culturas Greco-romana, judaico-cristã, cientifica-industrial. «A transvanguarda considera a linguagem como instrumento de transição, a passagem de uma obra a outra …A transvanguarda opera fora das coordenadas da vanguarda assumindo uma atitude nómada que se estabelece pela simbiose de todas as linguagens do passado.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) Neo-conservadorismo parte desta noção nomádica, salientando um constante regresso, ou um constante presente nas origens reinterpretadas em conformidade com os contextos que e sucedem, que acontecem. Uma linearidade da arte subvertida na prática e negada na teoria enquanto directriz sine qua non, na medida em que tudo é no momento, em que se concentram numa rede, em que tal linearidade pode ser considerada como uma hipótese.
«A transvanguarda faz sossobrar a ideia de progresso na arte … Introduz a possibilidade de não considerar como definitivo o curso linear da arte precedente, senão como uma possibilidade entre muitas, dirigindo a sua atenção para as linguagens que haviam sido abandonadas.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) A desterritorialização e reterritorialização em ecléticos regimes de pensamento e actuação na arte e na vida implicam um nomadismo, inexorável na sua deambulação sobre os heteróclitos fragmentos de uma nova técnica da temporalização, da vivência de um quotidiano feito de pluralidade variada. «O ecletismo é uma característica da suave identidade do artista, que tende a neutralizar diferenças, a fechar os olhos entre diferentes estilos e entre a distância entre passado e presente.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) Há uma forte componente rizomática, um conjunto de conexões que estabelecem uma variedade de possibilidades viáveis, onde cada direcção é válida, é verdadeira «A Transvanguarda não ostenta o privilégio de uma genealogia única. Bebe de fontes diversas, não só das vanguardas como daquela cultura baixa, caso de práticas artesanais e artes menores.»(Achille Bonito Oliva, La Trasvanguardia) A ironia prevalece tomando conta dos significados padronizados, numa subversão das ligações entre imagens, que se sobrepõem, estabelecem novos diálogos, aparentemente desconexos, exigindo uma nova leitura, uma abertura para a interpretação do que percorre caminhos fora do comum, que perturbam a homogeneidade dos discursos, das narrativas, dos elementos estatuídos na memória colectiva, no senso comum. Invocando o subjectivo, as leituras múltiplas de uma abertura ao espectador. Em variações estipuladas e desenvolvidas a partir e nas obras dos artistas: Mimmo Paladino, de Sandro Chia, Enzo Cuchi, Nicola de Maria e Francesco Clemente. |
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