| By Risoleta da Conceição Pinto Pedro,
on 10-06-2010 15:02
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“O esquecimento guarda sempre, reprimida na bruma do oculto, uma dor” - Risoleta da Conceição Pinto Pedro prefere, por isso, falar de memória. Neste seu artigo, escrito a propósito do dia de Portugal, de Camões e das Comunidades e da exposição Conexões, de escultura e desenho de João Lino, fala-nos da mais profunda memória do Homem: o símbolo.
A ciência dos futuros — disse Platão — é a que distingue os deuses dos homens, e daqui lhes veio sem dúvida aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses. […] Para satisfazer, pois, à maior ânsia deste apetite e para correr a cortina aos maiores e mais ocultos segredos deste mistério, pomos hoje no teatro do Mundo esta nossa História, por isso chamada do Futuro.[…] impossível pintura parece antes dos originais retratar as cópias, mas isto é o que fará o pincel da nossa História. História do Futuro, Padre António Vieira Por que esquecemos.. … umas coisas e nos empenhamos em não esquecer outras? Escrevo este texto em dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, Quais comunidades? Terá escapado no mundo alguma comunidade por onde um português não tivesse passado? Por que razão dar relevo a umas comunidades e não a outras? Há comunidades melhores, mais nobres, mais dignas do que outras? Estive a ouvir um bocadinho do discurso do Presidente. Falava ele, a propósito de memória e de esquecimento, do Teatro Letes, assim baptizado para homenagear o esquecimento que num dado momento histórico era necessário, para superar divisões e transpor mágoas. Eu conheço alguns grupos onde até nos aniversários, em vez de celebrarem a vida recordam as dores do parto, digo, as divisões, porque afinal, é isso que é um parto, a separação do que era uno, com a consequente dor. Mas vem isto a propósito de união, de que o presidente também falava no discurso, e de esquecimento. Prefiro falar de memória; porque o esquecimento guarda sempre, reprimida na bruma do oculto, uma dor. A memória, se recuar muito lá atrás, mas o mais possível lá atrás, muito antes de todas as divisões, de todas as dores, de todas as separações, vai trazer à tona o que sempre existiu, mas esteve oculto. É disto que “fala” a exposição de escultura e desenho de João Lino, ou pelo menos assim a entendi. Chama-se Conexões e está (esteve, será que ainda está?) patente na linda Casa Bocage, em Setúbal. E então, o que é que isto tem a ver com a conversa do início, das comunidades, do esquecimento e memória e o discurso do Presidente? Talvez nada, talvez tudo, mas isto das comunidades de que tanto se fala neste dia, depois de Portugal ter sido um país orgulhosamente só e agora ser um país pobremente acompanhado, faz-me pensar que estas conversas são só modas, obsessões de época, agora cultivam-se as comunidades que antes ocupámos, mas entretanto vamos deixando morrer lá a nossa língua, etc, etc, conversas de circunstâncias. Voltemos à arte, a melhor forma de pensar sobre estas coisas, a mais eloquente linguagem e forma de pensar, logo a seguir (ou antes? tenho de pensar sobre isto) à dos símbolos. Que faz João Lino, esse jovem e inteligente artista? Aviva a nossa memória. Não com discursos, mas com ferro e tinta permanente sobre papel. Tinta permanente. Parece-me bem. Para lá dos discursos e das modas. Para que não se apague da memória. Para que não se esqueça(m) as conexões. Isto é: que estamos todos ligados, que os medos e as guerras vêm apenas de uma ilusão, a angústia da separação que experimentámos ao sair do útero. E que neste imenso Teatro Letes apagámos da memória activa, mas permaneceu nas células e nas nossas reacções. É preciso passar-te à frente para não ficar sozinho em frio, miséria e fome cá atrás. Mas se soubermos que estamos em conexão, como é que é possível passar à frente de alguém… ou ficar para trás? Como é possível passarmos à frente... de nós próprios, ficarmos atrás de nós mesmos? Ilusão, pura ilusão. Há quem já ande por aí a dizer que os próximos tempos ou serão de cooperação, ou… não serão. A competição é coisa de passado. É uma estafa, um cansaço inútil, uma perda de tempo, a causa de todas as doenças e dores. O segredo está na lembrança, a tal recordação muito antiga, talvez da História do Futuro de que já falava António Vieira. Cito parte do excelente texto de José Esteves, integrado no catálogo da exposição: “Os trabalhos […] do João Lino surgem da sua tomada de consciência de que a integridade das nossas experiências pessoais, está, como na Natureza, - e porque somos da Natureza – dependente de tudo o que existe na Terra, encara o Homem na sua extensibilidade, numa perspectiva não antropocêntrica, mas integradora do Todo Natural.” É muito reconfortante ver como muitos jovens já transportam com eles a inteligência disto. Não sei se foi connosco que a aprenderam. Olhando à volta, tenho algumas dúvidas. Mas estou optimista. A arte está Sã. Mesmo que haja quem na estética se abstraia da ética, mesmo que haja quem pense que deixar morrer um cão à fome numa Galeria e absurdos parecidos são formas de arte, temos artistas como João Lino, escritores como Jorge Luís Borges, citado na epígrafe do texto de José Esteves: “Um homem projecta desenhar o Mundo. Os anos passam, ele enche uma superfície de imagens, de reinos, de montanhas, de golfos, de navios, de ilhas, de peixes, de casas, de instrumentos, de astros, de cavalos, de pessoas. Pouco antes da sua morte ele apercebe-se de que esse paciente labirinto de formas não é outra coisa senão o seu retrato.” Percebeu-o este artista muito, muitíssimo antes da sua morte, Borges ficaria contente. Estamos a evoluir. Devagarinho, mas lá vamos andando. Para terminar com Vieira e com Platão (em boa companhia me sinto aqui hoje, com João Vieira, com Borges, com José Esteves) , diria eu, a concluir (e apenas aparentemente a discordar de Platão, como me atreveria?!) que a ciência dos futuros é, não a que distingue os deuses dos homens, mas a que nos distingue a nós, ainda semi-répteis, dos homens e mulheres que poderemos vir a ser, quando nos recordarmos do que somos: conexões, através de uma memória de passado tão remoto, tão remoto, que toca o futuro: Conexões. Para quem quiser conhecer mais, aqui fica o endereço da sua página electrónica: http://joaoalveslino.blogspot.com/ |
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