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18-Mai-2012
"Anunciação, velhos hábitos - novos padrões": Inez Wijnhorst Na Monumental PDF Imprimir e-mail

By Vítor Leal, on 22-07-2010 19:53

 Inez Wijnhorst apresenta na Galeria Monumental, Lisboa, a exposição "Anunciação, velhos hábitos - novos padrões". Patente de 17 de Junho a 31 de Julho, encerra em Agosto, 1 a 25 de Setembro de 2010.

A multidisciplinaridade ganha folêgo na produção de Inez Wijnhorst. Desenhos onde a fotografia se encontra presente, instalações que desterritorializam elementos da esfera pública e duradoura para a esfera privada e efémera, onde o trabalho computacional involve-se no trabalho das artes plásticas. Jogos entre media artísticos e media de comunicação, entre o quotidiano perdido no hábito e evidência, agora redescoberto no olhar artístico, entre o laboratório plástico e a reflexão filosófica emergem numa produção inovadora.    

As paisagens urbanas portuguesas, particularmente da cidade de Lisboa são alvo de análise de interpretação e de descoberta. Padrões de calçada portuguesa, calcorrida no quotidiano por milhares de transeuntes, são objecto de investigação.         

Padrões geométricos abstratos e não figurativos marcados pelas sobras de quem os percorre sob a luz característica de Lisboa. São manifestações de presenças e ausências, identidades perdidas e reencontradas.    

Na exposição “Anunciação, velhos hábitos, novos padrões, em pintura e desenho” há uma re-descoberta do que nos rodeia, da identidade e do arquivo de imagens ocidental e sua mitologia. Dos padrões das pedras de calçada à pintura de tempera, a relação entre Portugal e Holanda é salientada. O tema da Anunciação presente na pintura holandesa seiscentista e na cultura portuguesa surge num estudo exaustivo da sua permanência e reinvenção no século XXI. Fragmentos de sombreados, de panejamentos próprios da pintura seicentista dos Países Baixos, com forte presença na colecção do Museu Nacional de Arte Antiga, à interpretação geométrica da narrativa da anunciação, apresentam duas linguagens diferentes para uma mesma leitura. Os signos chave que referenciam a Anunciação, o episódio bíblico da anunciação do Arcanjo Gabriel a Maria como estando grávida do filho de Deus Jesus, são reformulados, investigados, interpretados nas suas capacidades de representação. A  na linguagem da pintura e na linguagem da calcetaria.     

 O processo de desterritorialização dos elementos que nos rodeiam, com o seu valor cultural, é central nos trabalhos de Inez Wijnhorst. A exposição Anunciação é exemplo disso. Após o pós-modernismo, após a recusa das grandes narrativas por parte da arte e cultura Ocidental, o repensar de uma narrativa, ou de um episódio de uma grande narrativa, da sociedade judaico-cristã revela-se como um laboratório de investigação sobre o momento presente. Sobre a cultura contemporânea, sobre a capacidade de lermos os signos das grandes narrativas mitológicas, sobre a capacidade de associarmos e lermos em referentes fragmentados ou reinterpretados o que gerações anteriores tomavam como certo.

«Gosto muito de tirar objectos e pensamentos de um contexto e de os colocar num outro, tanto imagens como palavras. Quando colocados noutro contexto, começam a ter outros sentidos. Gosto de jogar com isso, tanto com as imagens como com as palavras. E depois escrever “Histórias mal contadas” por exemplo… O processo é o mesmo.» Inez Wijnhost, (entrevista) in http://www.e-vai.net/content/view/1113/1/ 

Toda a cultura é efectuada de perspectivas, cada tempo tem a sua posição sobre os grandes temas, sobre o Homem, sobre a identidade. Este exercício pós-duchampiano apresenta uma novidade central, a desterritorialização da parte pelo todo, onde a história e as estórias se cruzam em construções. Porque o que vê-mos e vivê-mos e discuti-mos são construções sociais e pessoais. Este é o campo de trabalho central que demonstra a fragilidade mas também a riqueza da cultura, a importância e a pertinência de conhecer para viver.  

São re-interpretações de uma narrativa que percorreu séculos de revisitação, uma narrativa presente na cultura visual e oral da sociedade ocidental, cuja indole religiosa a remete para um esquecimento, logo para uma incapacidade de perdurar claramente no quotidiano hodierno. A sociedade pós-moderna das pequenas narrativas e do fragmentário teve o seu impacto, que aconteceu agora que o pós-modernismo morreu? Esta exploração é relevante para a obra de Inez Wijnhorst e crucial para a exposição “Anunciação, velhos hábitos, novos padrões, em pintura e desenho”.

   

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