plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página arrow Geral arrow Televisão como Espaço Público: o papel da Vídeo Arte  
18-Mai-2012
Televisão como Espaço Público: o papel da Vídeo Arte PDF Imprimir e-mail

By Vítor Leal, on 05-10-2010 21:17

 A ideia de espaços públicos e, consequentemente, de arte pública foram alterados com as tecnologias electrónicas da comunicação. As ligações estabelecidas pela televisão e, mais recentemente, pela internet vieram criar um espaço eléctrico, virtual[1] que se concretiza com a actualização do mesmo, pelo estabelecimento de uma ligação entre o meio e o corpo humano. O meio é a mensagem, mas também um espaço, uma galáxia de inúmeras ligações. O meio é o conteúdo e a estrutura, porque o conteúdo é também ele um meio.

[2] A qualidade de médium da televisão enquanto geradora de ligações entre Homens[3] revelou-se um meio público e pragmático para ser explorado por artistas vídeo, pelos seus instrumentos e pelo seu campo operacional/características. Os espaços electrónicos vieram redefinir o modo de se estar no Mundo, implicando novos modos de ser, viver e comunicar.

As implicações da televisão na sociedade Ocidental na IIª metade do século XX foram essenciais, com consequências no quotidiano, para a cultura do Homem pós-moderno.Há uma relação entre o espaço de captação, espaço de recepção e o espaço da informação que se estabelece como espaço público, penetrando as salas, as casas, o espaço privado assim como o espaço da rua e dos centros comerciais. O médium enquanto espaço virtual a concretizar-se nos receptores dos aparelhos televisivos.

Assim vemos as cadeias de televisão a criarem e gerirem um novo espaço público, onde disputam a primazia, a atenção de um largo espectro de espectadores, tantos quanto possível, transformando as relações humanas assim como a cultura, criando novas mitologias e transformando o paradigma do herói no paradigma da celebridade.

 O papel da televisão na sociedade contemporânea é desde o inicio alvo de duas diferentes correntes de análise, de crítica. Uma corrente que entende o seu papel como libertário, de constituição de uma aldeia global, de uma rede que estabelece uma comunicação mais democrática[4], e outra que crítica o médium como um instrumento de distracção da percepção humana, de passivização do homem que se limita a absorver, a receber[5]. As estações públicas, com teor educacional, nos EUA assumem um particular papel no desenvolvimento do médium televisivo mas também da disciplina da Vídeo Arte, caso da WGBH, em Boston, da WNET, em Nova Iorque, e da KQED, em São Francisco.

A cadeia televisiva pública WGBH, de Boston, é incontornável para o entendimento da Vídeo Arte na década de 70, assim como para a Vídeo Arte enquanto Arte Pública. Providenciando espaço de difusão, disponibilização de material e financiamento de projectos de artistas de vídeo. Um dos seus programas, o mais relevante para a Vídeo Arte, designado “The Medium is the Medium” visava explorar a estrutura da Televisão e as potencialidades da sua natureza através de artistas de Vídeo Arte.

Um revolucionário programa de televisão para o qual foram, em 1968, contratados seis artistas, Nam June Paik Allan Kaprow, James Seawright, Thomas Tadlock, Otto Piene e Aldo Tambellini.

Para as suas produções os seis artistas dispunham do equipamento e equipas da estação. Este projecto nascera de uma exposição que estivera patente na Howard Wise Gallery, em Nova Iorque, a partir dos produtores Pat Marx e Ann Gresser, com financiamento da Fundação Ford e da Fundação Rockefeler. Estes financiamentos, iniciados em 1967, possibilitaram a artistas que se encontravam a desenvolver trabalhos no Center for Advanced Visual Studies (CAVS) no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, participarem de modo activo e fundamental no espaço público.

Alan Kaprow na primeira emissão apresenta Hello, uma performance-instalação[6], onde explora o conceito de interactividade. Coloca no exterior do estúdio uma imagem do interior e no interior uma imagem do exterior em tempo real, onde se dispõem os espectadores, transeuntes que se vêem actores neste espaço público, interpelados por um agente provocador no interior do edifício, ante a imagem destes, apontado para eles e afirmando “Estou-te a ver”, “Eu consigo ver-te”. Um jogo de duplicidades, onde o espectador se torna actor, onde imagem e som se complementam, não é uma arte visual, nem o som é remetido para segundo plano, é a afirmação dos média audiovisuais da Vídeo Arte e da Televisão como espaço público.Na senda de Video Arte com uma disciplina exploradora das condições de interactividade Paik apresenta “Electronic Opera #1” em que interpelava os espectadores a fechar um olho e, no final do vídeo a desligar o aparelho de televisão. As questões em torno da técnica surgem com particular relevância no desenvolvimento do sintetizador ou consola de mistura de imagem em tempo real por Nam June Paik e o engenheiro Shuye Abe.

Este dispositivo técnico e tecnológico foi desenvolvido entre 1969 e 1970, com o fito de manipular diferentes imagens de diferentes canais num único instrumento, em tempo real. “Isto permitir-nos-á modelar o ecrã de TV com a mesma precisão de Leonardo, com a liberdade de Picasso, com a coloração de Renoir, com a profundidade de Mondrian, com a violência de Pollock e com o lirismo de Jasper Johns.”[7] Paik enuncia o propósito de uma nova técnica, de novos instrumentos, de nova estética capaz de produzir uma disciplina própria da Vídeo Arte no espaço público electrónico, do fluxo de informação acessível nas casas, nos cafés, em centros comerciais.

Um instrumento para ser utilizado em tempo real como um piano[8]. Foi utilizado pela primeira vez no “Video Comune”, programa de quatro horas, em 1970, fazendo uso de cassetes vídeo e imagens de câmara de televisão em tempo real misturadas no momento em que o programa decorria. Programa e performance colectiva, em que à equipa da estação se juntaram transeuntes que Paik convidava a participar.

Também na NCET (National Center for Experiments in Television), São Francisco, centro de investigação da estação televisiva KQED, estabelece uma relação de colaboração com artistas num projecto cujo trabalho conduz ao desenvolvimento de consolas de tratamento de imagem, por artistas, para concretizar as necessidades artísticas. Os trabalhos aqui desenvolvidos caracterizavam-se pela exploração da abstracção, em modelos místicos não narrativos.

Tendo como característica central um trabalho sobre a hibridez da Vídeo Arte, com os artistas. No entanto este projecto colidiu contra a barreira da crítica de arte vigente que apelidou estas produções de “papel de parede”.

Em Nova Iorque encontramos o canal público de televisão WNET, com análogo projecto, fundando o Tv Laboratory. Facultam aos artistas os dispositivos tecnológicos assim como o saber técnico dos seus profissionais, possibilitando o desenvolvimento de trabalho em vídeo que de outro modo seria irrealizável devido aos elevados custos dos equipamentos de montagem vídeo, de câmaras na época e de um saber prático sobre o médium.

Constituindo-se como uma escola nuclear para os artistas que se afirmavam em produções de Vídeo Arte. Outra via possível, que reitera a televisão como espaço público, é o uso dos espaços publicitários, observável no caso de Chris Burden e o seu TV AD executados e expostos em público, num canal comercial de Los Angeles, em 1973.

«Para mim, a verdadeira televisão é a televisão publicitária», afirmou Chris Burden justificando asiim a aquisição de um espaço publicitário, entre 5 de Novembro e 2 de Dezembro, de 1973, todos os dias. Um trabalho intitulado TV AD, fazendo uso da performance Through the Night Softly, realizada em 12 de Dezembro de 1973 na Main Street de Los Angeles, onde explora a narrativa publicitária e a performance iniciando-se com o artista a fazer publicidade a um sabonete para de súbito surgir desnudo de mãos atadas e caído sobre um chão de rua coberto por fragmentos de vidro dispersos, em que os seus esforços de libertação são ouvidos através de trabalho apurado de sonoplastia da sua, seguido de outra publicidade a sabonete.

Um jogo de contrastes, entre os anúncios e uma performance ocorrida numa rua, num espaço público exterior visto por algumas dezenas de pessoas e agora inclusa num outro trabalho vista por cerca de 250 000 pessoas.[9]

 

[1] Giles Deleuze, Pourparlers, Les Editions de Minuit, 2003

[2] Marshall McLuhan, Understanding Media, Routledge, London and New York, 2004

[3] Françoise Parfait, Vídeo: un art contemporain, Ed. Du Regard, 2001 p.18

[4] Marshall McLuhan, The Gutenberg Galaxy, University of Toronto Press, 2002

[5] Theodor Adorno, A teoria estética, Ed. 70

[6] Françoise Parfait, Vídeo: un art contemporain, Ed. Du Regard, 2001 p. 29

[7] Edith Decker, Paik Vídeo, s152

[8] Nam June Paik, Kolsnischer Kunstverein, Koln, 1976, S.133

[9] Françoise Parfait, Vídeo: un art contemporain, Ed. Du Regard, 2001 p.43

 

 

 

 

 

 

 

   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >