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23-Fev-2012
Às Artes, Cidadãos! PDF Imprimir e-mail

By Museu de Serralves, on 27-01-2011 22:06

 Às Artes, Cidadãos!”, exposição patente ao público até 13 de Março de 2011 no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, no Porto. Na mostra, que é comissariada por João Fernandes e por Óscar Faria, procura-se recriar o espaço de debate entre artista e espectador, desenvolvendo o sentido de participação cívica. Publica-se a seguir o press release.

Inspirado no refrão do “Chant de guerre pour l'armée du Rhin”, o título da exposição “Às Artes, Cidadãos!” contém em si um desejo de comunidade: a criação de uma plataforma de debate, um lugar onde se potencie a disponibilidade para um encontro entre artista e espectador, no qual se evidencie o poder comum a ambos. Ligado sobretudo aos direitos e deveres políticos, o conceito de cidadania surge na Grécia e está estritamente ligado à democracia, ou seja, à soberania do povo. É nessa dimensão participativa que se procura inscrever uma mostra que tem como pano de fundo as comemorações dos 100 anos da República Portuguesa. A proposta é dar conta de algumas das formas artísticas actuais em que podem detectar intersecções entre a arte e o político. Agora, ao contrário das circunstâncias em que foi escrita a “A Marselhesa” não há uma “horda inimiga” a combater: a vontade é dar a conhecer, através de obras produzidas por trinta artistas e colectivos, diferentes pontos de vista acerca de um tema sempre em aberto.

 Decidiu-se trabalhar com artistas nascidos a partir de 1961, o ano marcado pelo surgimento do muro de Berlim , uma construção que, apesar de ter sido destruída em 1989, continua a projectar a sua sombra no presente. É dessa grande cisão do século XX, que nascem muitas das tensões actuais, as quais se reflectem nas obras dos nomes convidados a participar na exposição. Os muros erguidos por razões políticas podem ser lidos como materializações objectivas, palpáveis, de uma divisão ideológica, abstracta por definição: essas barreiras têm uma dimensão física que oprime e, na sua frieza, tornam mais desumana a existência quotidiana de todos quantos com elas se têm de confrontar seja no médio oriente, na América do sul ou em África.

Tomando como ponto de partida a proposta de pensar as intersecções da arte com a política, cada artista e colectivo convidado concebeu a sua participação a partir de distintas possibilidades: a produção de uma nova obra, a apresentação de um ou vários trabalhos já realizados ou a justaposição de ambas as hipóteses. O percurso expositivo inclui salas dedicadas a um só artista, mas também espaços onde houve a intenção de criar situações tanto de diálogo como de tensão. O objectivo é sempre o de revelar múltiplas perspectivas de um tema que convoca conceitos como os de globalização, democracia, activismo, ideologia, memória, exílio, revolução, iconoclastia, comunidade.

Às artes, cidadãos!” inclui assim instantes que permitem uma reflexão sobre acontecimentos que definiram a história universal desde a antiguidade clássica até à queda das torres gémeas, em 2001, em Nova Iorque. Neste capítulo, para o qual são essenciais as noções de ideologia e de arquivo, podem nomear-se as obras de Ahlam Shibli, Ahmet Öğüt, André Romão, Andrea Geyer, João Sousa Cardoso, Mariana Silva, Nicoline Van Harskamp, Rosella Biscotti, Sam Durant, Shilpa Gupta, Simon Wachsmuth, Vangelis Vlahos e Danh Vo (14) – muitos outros participantes também podem ser incluídos neste núcleo, como Pedro G. Romero e Gert Jan Kocken, ambos aproximados, na capela da Casa de Serralves, pela atenção dada ao tema da iconoclastia.

O activismo político, seja assumido sob a forma de um colectivo, seja protagonizado individualmente está presente nas propostas dos Chto Delat?, de Carlos Motta, de Carolina Caycedo, de Tom Nicholson, de Sharon Hayes , de Nicolai Oleynikov e de Rigo 23. Outros artistas propõem trabalhos atravessados por questões que vão da economia política, como é o caso de Zachary Formwalt, à economia libidinal, traduzida nas criações de Claire Fontaine. Há ainda as obras de Gardar Eide Einarsson e de Matias Faldbakken, que têm como pano de fundo diferentes formas de expressão habitualmente associadas às subculturas. As preocupações ambientais e o mapeamento da sociedade de controlo sistematicamente realizado pelo Bureau d’Études, a revisitação das vanguardas históricas efectuada por Stefan Brüggmann e Asier Mendizabal, e as noções de biopolítica e de catástrofe em António de Sousa são outras das linhas condutoras de uma exposição que, apesar de assumir um desejo de actualidade, que não deixa de revisitar o passado.

O primeiro volume do catálogo da exposição, foi lançado na inauguração da mostra, conta com textos originais de Peio Aguirre, Federico Ferrari, Brian Holmes, Sven Lütticken, Roberto Merril e Hito Steyerl. O segundo volume será lançado no decurso de “Às Artes, Cidadãos”, de modo a permitir quer a inclusão de imagens dos trabalhos instalados nos espaços do museu, quer de outros textos relacionados com a mostra.

   

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