| By João Lima Pinharanda,
on 11-12-2007 01:08
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Há uma verdade artística exterior à autoridade de cada criador, um meio de avaliar uma obra fazendo coincidir, num ponto de grande intensidade de significados, emoção e razão, subjectividade e história. É o caso das obras daqueles artistas a que o tempo garante permanência e capacidade de intervenção na sociedade a que pertencem ou das obras daqueles outros artistas que irrompem nela com o ímpeto de uma vontade nova.
Ambas as realidades se encontram ilustradas na colecção de serigrafias seleccionada para esta campanha. Artistas que a história da arte portuguesa já consagrou e artistas que a crítica de arte considera serem os valores do futuro reúnem aqui esforços em favor de uma causa comum. A arte, que é a missão individual que define o papel social do artista, é o meio evidente através do qual cada um deles melhor pode integrar a missão colectiva de solidaridariedade para a qual foram convocados – missão que a todos, não apenas os artistas, obriga. O panorama da colecção pode iniciar-se com os criadores dos anos 60 que continuam activos e traz-nos aos dias de hoje, passa pelas abstracções e conceptualizaçãos da arte ou por realismos e expressionismos vários numa surpreendente variedade de propostas. A multiplicidade de linguagens revelada por esta colecção de imagens testemunha a riqueza do meio artístico, da complexidade dos seus tempos, gostos e modos de fazer. Através dela acedemos, e praticando um acto socialmente útil e individualmente enriquecedor, a uma síntese da realidade criativa portuguesa e ao entendimento da originalidade das suas propostas no contexto da arte internacional actual. Há uma linha de comoção entre quem se dispõe a ajudar um Outro mais frágil e desamparado que tanto verificamos no cidadão comum que somos como nos artistas que aqui se solidarizam com as crianças em risco. Mas esta realidade emotiva não é o que domina os mecanismos dos artistas no acto da criação. Se assim fosse teríamos, entre os que generosamente aqui integram este projecto de solidariedade, obras limitadas a um tema ilustrativo de fácil leitura. Acontece sim as obras dos artistas serem concebidas muito póximo dos mecanismos que determinam as acções e vontades quer das crianças quer dos jovens. O que importa aos artistas é alcançar limiares de imponderabilidade, irresponsabilidade e abstracção do mundo exterior e, ao mesmo tempo, garantir peso e empenhamento à violenta intervenção que operam na realidade exterior. O mesmo sentimento que preside ao momento criador e performativo de qualquer criança quando brinca, ao sonho e ao acto precipitado de qualquer adolescente quando arrisca o futuro. Todos inventam mundos interiores paralelos, sobrepostos, superiores ao mundo imediato onde vivem.Todos desejam apresentar os resultados dessa operação de re-criação ao mundo dos outros. Todos desejam que o real quotidiano se vergue e molde à verdade inverificável da obra que criaram. A materialização desta coincidência entre criadores de realidades que se situam num lugar-além do tempo presente transforma esta acção cívica num diálogo entre iguais. Que o público-coleccionador saiba, ele também, ajudar a construir um futuro assim. João Lima Pinharanda Lisboa, 22 de Novembro de 2007
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