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06-Jan-2009
Absolutamente abissal | Maldizer PDF Imprimir e-mail

By Vera Chi Lo Sa, on 02-03-2008 18:44

Um dia destes, sacudi a minha bela e genuína cabeleira loira, peguei em mim e fui-me até à capital, a ver quadros. Sim, lá porque uma pessoa vive agora nas berças, numa quinta fantástica e recém-herdada, está sempre a tempo de evoluir.

De quadros vi tudinho. Deixei para o fim, porque queria ver com toda a calma, a mais badalada das actuais exposições alfacinhas, a da Cordoaria. Tem um título supéchique e tudo, dos que só quem tem agenda entende. Mas eu perguntei aquele crítico que parece um ponto de interrogação por causa da barrigota e ele disse-me tudo e dizia mais se eu deixasse e os perdigotos voadores não me incomodassem tanto. A tal palavra muita chique, qualquer coisa como “abismatologia” ou isso, quer dizer “ciência que estuda o abismo”.

Ora aí está! Abismo é profundidade que se supõe insondável e tenebrosa; ou ainda, tudo o que excede o que de si é excessivo. E é mesmo isto tudo o que aquela exposição é. É inexplicável e excessivamente tenebrosa. O abismo está em que os seus autores são bué de conhecidos na estranja, o que me deixou e deixa e deixará sempre profundamente abismada. Daquela abismatologia não entendi semente de abóbora-menina, talvez descendo por uma das infindáveis cordas feitas na Cordoaria quando ainda tínhamos naus e cacaus chegasse a perceber alguma coisa... Assim, pluff, mergulhei loira e inteira na minha ignorância berçã – o que quer dizer, das berças mas com nível.

Eu tinha almoçado num desses restaurantes muito na moda onde por um preço maluco nos dão peixinho cru às fatias. Não sei se pelo peixe ou o quê, aquela exposição foi para mim uma volta ao estômago. A única coisa boa, na dita, é que não cobram bilhetes, nem à entrada, nem a saída.

E depois, euzinha que sou loira e tenho de aguentar aquelas anedotas todas, ainda oiço o Director do Museu de Serralves, João Fernandes, a dizer: “Nunca acreditámos muito na existência da obra-prima desconhecida, escondida algures à espera de alguém que a venha descobrir e revelar ao mundo. Se a obra de um artista não se tornou conhecida, tal poderá dever-se a múltiplos factores, uns justos outros injustos, dos quais o mais relevante será, porém, o facto de pouco acrescentar ao que já se fazia e conhecia.”

Então ele não sabia? 

Disse tudo isto e ainda mais a propósito da exposição "ontológica", em Serralves, de Manuel Alvess. Pois, um trabalho sobejamente inteligente, poético e que muito acrescenta, de um artista português, residente em Paris desde os anos 60, quase desconhecido, mesmo tendo obra realizada desde há mais de 40 anos. Tão a ver o abismo entre o que se mostra em Serralves e o que se passa e encordoa por Lisboa?

Mas há coisas que me deixam bem disposta.

Sim, sim, sim! Parabéns a Bénard da Costa, pelo prémio João Carreira Bom, pelo ar eloquente e pela voz rouca e baixa, que os uísques e charutos cubanos lhe têm facultado. Só é pena o valor do prémio ser tão minimalista. Com os impostos deve ir-se embora pelo menos metade do que lhe foi atribuído, ou seja, sobram-lhe uns 2.500 Euros para ir às compras em Badajoz. Até na televisão, naqueles concursos de saber baixinho, dão mais qualquer coisinha e basta fazer alguma figura… Mas prontos, ganhou e tá ganho e não é o valor da coisa que vale.

E passo ao melhor mexerico da semana, em que andará metida a mãozinha do meu krido JB e se não anda devia andar, ora essa, que ideia fazerem concorrência, mesmo indirecta, ao que tanto lhe custou… É assim: a LX Factory, empresa que se propõe produzir, apresentar e investigar projectos artísticos com inquestionável interesse público, quer abrir um espaço, o Test, on Art, em Lisboa, na zona de Alcântara. Já tem sítio e tudo, o de uma oficina gráfica instalada no que foi antes uma fiação. E aí é que a suína torce o apêndice, porque o vereador Carmona Rodrigues, que já foi presidente daquela Câmara e tudo, diz que o espaço licenciadamente é gráfico e não artístico, e não muda nem que a vaca tussa. Para passar de gráfico a centro de artes contemporâneas tem que ter licença e não tem, nem terá, até estar elaborado um Plano de Pormenor ou Plano de Urbanização, que ainda não existe, para aquela área decadente. Só então, garante Carmona, haverá "licenciamento municipal” para a LX Factory começar a facturar as artes.

Tenho uma pena abismatológica em não poder contar-lhes já qual é o projecto da Factory. No exacto momento em que escrevo estas maledicências está a decorrer a apresentação desse mesmo projecto. Só comissários são catorze (2 x 7), os encarregados de elaborar o perfil e o programa de actividades da Test, on Art que até tem esta novidade de nome com vírgula e de que é director o arquitecto João Simões. O próprio, numa de “tudo bem e não quero ondas”, em comunicado, deu a saber que o centro é ainda um projecto e que a sua futura instalação, prevista para o Verão, será feita quando estiverem reunidos todos os requisitos legais. "Este é um espaço que ainda é anónimo para a cidade, mas nós queremos que seja um pólo criativo aberto a Lisboa, um espaço internacional que funcione quase como uma cidade artística", sublinhou o arquitecto, que não revelou o preço dos apartamentos. Ò, desculpem, isso dos apartamentos é outra coisa, ainda não me recompus daquele peixe cru, dos abismamentos e do resto!

   

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By: Olga () on 04-03-2008 19:13

By: Olga on 04-03-2008 19:13

:? abissalmente abismada

 

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