| By Jürgen Bock,
on 12-03-2008 16:51
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Fortemente motivada por questões do foro político, Ângela Ferreira é uma “investigadora” do uso de teorias, em particular de teorias de história da arte, e da sua relação ou do seu impacto na arte contemporânea, assunto cuja complexidade negoceia através do potencial de comunicação inerente à arte e com a qual a artista, subtilmente, estimula o observador a questionar os objectos que cria. Estes objectos adquirem a forma de esculturas modernistas esteticamente apelativas e executadas com rigor perfeccionista, sendo frequentemente apresentadas em instalações associadas a textos, fotografias e vídeos. Em consonância com a ideia de história da arte enquanto construção, o trabalho de Ângela Ferreira lança a dúvida sobre aquilo a que nos habituámos a considerar como “factos” dessa história, podendo-se então questionar (como Douglas Crimp já o fez): “Qual história? A história de quem? E uma história para que fim?”
Nascida na antiga colónia portuguesa de Moçambique em 1958, Ângela Ferreira estudou na África do Sul do apartheid, mas desde o início da década de 1990 que vive entre Portugal e a África do Sul. A sua situação ‘em trânsito’ entre culturas – comum à identidade de muitos portugueses – impele-a à exploração intensiva dos diferentes universos do centro e da periferia, realçando a importância da perspectiva e do posicionamento do indivíduo e/ou do artista. Conceptualmente, a obra de Ângela Ferreira pode situar-se entre a falência do modernismo nos denominados centros de difusão e o impacto contraditório da sua tentativa de implantação, pelos colonizadores, em África e noutras colónias e periferias em todo o mundo, onde o objectivo utópico da emancipação do homem combinado com o potencial da arte enquanto instrumento de crítica, motor crucial da vanguarda que se manifestou nesses centros, parece ter outra validade. O fim da vanguarda e das suas qualidades intrínsecas, a sua história e o impacto que esta teve, são agora discutidos nessas periferias, tendo o centro perdido a prerrogativa de proclamar a importância política do modernismo no que toca às noções de utopia e emancipação. Parafraseando um teórico de arte contemporâneo, o trabalho de Ângela Ferreira não só sobrevive ao fim anunciado da vanguarda, como recupera a questão da emancipação e dos ideais utópicos ao reformular a crítica das utopias como uma crítica às utopias. O seu trabalho revela como ilusória a liberdade artística prometida pelo modernismo nos centros e, devido à falta de latitude política, como falsa a autonomia na periferia. As ‘grandes narrativas’ apresentam-se agora estilhaçadas e sob a forma de inúmeros fragmentos mais pequenos. Por um lado, anseia-se por vezes por métodos familiares e confortáveis para classificar a vanguarda histórica, a cadeia interminável de estilos e metodologias claramente identificáveis com o ‘Estilo Internacional’ na arte moderna e na arquitectura. Por outro lado, o trabalho de Ângela Ferreira acentua as possibilidades que se abriram através das mudanças profundas a que essas narrativas estão a ser sujeitas. Ao desmontar as estratégias básicas e frequentemente dogmáticas das ‘verdades adquiridas’, o seu trabalho apresenta uma abordagem social, política e crítica aos resultados do modernismo, aos velhos centros da sua criação e às suas remotas consequências nas periferias. Em vez de se limitar a simular a metodologia modernista da análise profunda, a artista propõe como alternativa ‘local’ a aplicação desse método ao próprio modernismo. Estas preocupações de Ângela Ferreira materializam-se, como já se referiu, em ‘esculturas organizadas em instalações’, as quais, todavia, não se deixam conquistar pela política. A proposição crítica dos seus objectos não é imediata, antes fervilha subtil e imediatamente debaixo da superfície das suas belas esculturas, que assim se oferecem como espaço entre ‘o objecto e o político’, espaço esse que o observador é incentivado a ocupar. Ângela Ferreira não procura impor-nos uma lição. Em vez disso, estimula o nosso próprio imaginário político e o nosso pensamento crítico. Jürgen Bock (Fevereiro 2007)
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