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09-Fev-2010
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By Alberto Pimenta, on 12-03-2008 22:45


 Desde que Th. W. Adorno abriu a sua Teoria Estética com o conhecido dito de que na arte tudo deixou de ser evidente, inclusive a sua razão de ser e o seu lugar e papel na sociedade, tornou-se frequente um fazer uma apresentação da arte ao público (a excepção continua a ser a música). O perigo, para o qual de resto Adorno também chamou a atenção, é o de tentar tornar acessível pelo raciocínio e ao raciocínio aquilo que em si se furta exactamente a esse processo. A arte resulta da conjugação de muitas outras instâncias do espírito humano, quer na sua concepção, quer na sua expressão. Um bom receptor deveria ser capaz de as mobilizar todas também.

Por isso, não pretendo aqui - até porque nem tenho autoridade para isso - tornar racionalmente explicita a pintura de Alice Valente. Sabemos que a pintura, antes do século XIX, era a representação de um espaço noutro espaço normalmente de menor dimensão, com privilégio para a perspectiva, o enquadramento e os símbolos, representados muitas vezes pela cor. Depois o Impressionismo deslocou o seu ponto de interesse e de expressão para as relações subtis entre luz e cor. Já no século XX, o Cubismo juntou a dimensão do tempo à representação, decompondo as suas figuras. A partir daí, nunca mais cessaram os princípios de variação no processo de representação tanto do mundo exterior como do mundo mental do pintor. Mas de modo concreto ou abstracto, a representação foi girando sempre cada vez mais em torno da luz e da cor.

Imensas orientações estilos e técnicas, vinculáveis a duas grandes atitudes: uma idealista (que leva a representação até à abstracção mais pura), outra expressionista (onde predomina a emoção). E há ainda sem dúvida os que fazem uma ponte, oscilando entre abstracção e expressão, ou até conjugando-as, porque são acima de tudo simbólicos (basta pensar em Dali).

Fica ainda no entanto uma possibilidade, que não tem sido muito explorada: partir da própria matéria da pintura, ou seja, da cor, como tema absoluto, tal como Alice Valente faz. Na primeira exposição de pintura que se realizou na Alemanha no fim da Segunda Guerra Mundial, logo em Agosto de 1945 em Prien, emergiram todas aquelas correntes que durante o 3º Reich tinham sido proibidas: a chamada "arte degenerada". Entre elas destacou-se o trabalho de pesquisa com a luz e a cor de Willi Geiger e do seu filho Rupprecht Geiger: "vivências das cores da guerra", disse Rupprecht.

 O projecto ( work in progress ) de Alice Valente parte ele também da vivência da cor, mas dum modo não limitado a uma experiência social e humana no tempo. Não me parece sequer que haja uma técnica que se estende a todas as cores escolhidas e representadas; julgo que se pode dizer que cada uma delas resulta (resultou) de sensações e sentimentos que conduzem à cor, e esta à forma e à textura. Comum a todas elas é talvez o predomínio do orgânico, não exactamente como forma de um conteúdo (pois os conteúdos formalizados nunca serviram outra coisa senão as diversas técnicas), mas como padrão. E porque neste projecto a própria escolha das cores (vermelho, castanho-terra, cor de pele, agridoce do laranja-lima) assim está orientada.

Alice Valente não usa de resto nenhuma das simbologias já estabelecidas das cores, antes cria um sistema de sentir a presença da cor no mundo (à maneira de Rimbaud nas "Vogais"). Pelo modo como incorpora o mundo, a sua luz e a sua sombra, talvez se aproxime, mas sem a menor observância rígida, das fases alquímicas: o acre, o doce, o amargo, o cálido, e depois a conjugação (o amor), a própria linguagem.

A linguagem, que neste caso se torna autónoma, acompanha como poesia de apurados contornos maneiristas, reflexiva e muitas vezes existencialmente angustiada, os padrões que as cores desentranham na tela (nas telas: pois são dípticos). Mas julgo que é a cor, não a palavra, que adquire o estatuto de essência, e aí reside a sua força e originalidade. Tal como no poema de Alberto Caeiro: "a cor é que tem cor nas asas da borboleta".

Se Picasso no último ano da Segunda Guerra disse que "a paleta está de luto", podemos agora dizer que neste caso a paleta se torna um eco do mundo, desde os azuis cósmicos até à terra onde o corpo se manifesta ou de que se manifesta.

CORPOtraçoCORPO, apesar desta aparente simplicidade (que se calhar é só minha), tem múltiplos sentidos. É Cor,Corpo, Texto/Textura, e outras relações combinatórias e derivadas, que cada um é livre de realizar. Nas realizações que assim forem feitas encontrará o embate luz-sombra que, segundo Goethe, é a origem de todas as cores ("Os olhos não vêem formas, mas luz transporta em cor").

São nove as fases deste projecto, onde "nove", tal como na Vita Nuova de Dante, se associa ao "novo", por paronomásia. Ao fim de dois terços do projecto, creio que já estamos em condições de considerar que ele é uma forma magnífica de responder ao desiderato de Raoul Dufy: "Precisamos na pintura de algo mais do que apenas a satisfação de ver".


   

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