plataforma virtual para a comunidade das artes plásticas e visuais
1ª Página  
05-Fev-2012
Os Incontestáveis | copy/paste PDF Imprimir e-mail

By Luís Pinheiro, on 19-03-2008 22:35


Há autores que são tidos como incontestáveis, servem o sistema que os “protege” e lhes confere a notoriedade pretendida. O que acontece, em grande parte das situações, é que à notoriedade de uma dada obra não corresponde um real valor artístico, pois o “trabalho” nem sequer ao seu criador acrescenta elementos novos.

“Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não nos é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.” (Fernando Pessoa, “O Provincianismo Português”)

 

  A Arte vê-se, muitas vezes, prisioneira dos sistemas de ensino (e de comercialização) que adoptam certas obras, temas, técnicas e meios de expressão como modelos a seguir. A criação, o “salto” criativo que a Arte proporciona aos que a exercem e experimentam, não se verifica nas obras que são produzidas. Os artistas e o seu público exprimem-se, maioritariamente, com uma linguagem que apenas permite alguns níveis de leitura básicos, acessíveis a um universo alargado de pessoas. Esta situação obedece a um plano “consciente” que integra totalmente o “artista” no sistema económico que domina a arte, e o faz jogar as suas regras.

Num dado momento cria-se a apetência pela pintura. Então todos os “artistas” pintam.

Noutro são as questões da imigração ou do pós-colonialismo que são promovidas através dos meios de comunicação social. As obras concebidas abordarão certamente essas temáticas.

Também acontece um determinado artista definir um estilo, construído na sequência da sua pesquisa individual. Se esse artista conseguir o reconhecimento público (ou dos seus pares) poderá estar certo que os elementos expressivos “encontrados” serão, muitas vezes, simplesmente plagiados. O que na origem poderia nem ser mercadoria, no final não passa disso: um produto que se reproduz dentro da “indústria da arte”.

Em todas estas situações estaremos realmente em presença de obras de arte? Ou de simples mercadorias, intervenções políticas e/ou ausência de criação?

O artista é colocado, igualmente numa situação semelhante quando idolatra um autor ou corrente artística. As suas possibilidades de criação ficam, à partida, castradas. Poucos são os que conseguem “dar a volta por cima” e reformularem as ideias e poéticas presentes nas obras que admiram e trazer verdadeiramente algo de novo para a Arte.

Fernando Pessoa, no seu texto “O Provincianismo Português” refere a admiração pelas grandes metrópoles, o entusiasmo pelo progresso/modernidade e a incapacidade de ironia como sintomas de provincianismo. Na linha de pensamento que se estabelece na transposição deste texto para o momento actual, considero tal como o seu autor que grande parte dos “provincianos”, ao contrário do que se julga, se encontram na realidade nas grandes metrópoles e cidades. A existência de cosmopolitismo, que atenua diferenças na construção de um modelo universal, é sintoma de “provincianismo” pela anulação da expressão da individualidade.

 Nas cidades, particularmente nas maiores, os sistemas sociais dominantes (político-económicos), exercem maior controlo sobre os seus habitantes. O servilismo, o condicionamento e a ausência de raciocínio pessoal adquirem contornos e dimensões que estão ausentes em localidades de dimensão reduzida. Muitas vezes aqueles que se destacam num dado sector são os que se encontram mais integrados e presos ao sistema. O poder que lhes é conferida é a contrapartida da sua servidão. Numa lógica de equilíbrio, e quase por negação do exposto, o contrário também é verdade: é nestes meios que se encontram os espíritos mais livres, aqueles que conseguem “estar no mundo sem fazer parte do mundo”.

O positivismo do determinismo histórico, que ainda se vive actualmente, é uma herança do século XIX (apesar de se poderem estabelecer raízes mais longínquas). Nesse século surgem várias teorias que apontam para a existência de estádios de evolução e para um fim da História. Esta ideia é retomada por Francis Fukuyama na defesa que faz do sistema que domina o mundo actualmente e se caracteriza por regimes políticos liberais e sistema(s) económico(s) capitalista(s). Na leitura condicionada, e condicionadora, deste autor os desenvolvimentos que a humanidade realizará no futuro enquadrar-se-ão nesse modelo político-económico. Fukuyama defende os que controlam, defende o “sistema”.

A palavra de ordem, neste contexto, para manter o ser humano no “provincianismo” é o entretenimento que se fornece sob a forma de espectáculos, quer sejam jogos desportivos massificados, produções cinematográficas e teatrais ou exposições de arte. Quando nas artes plásticas e visuais os interesses se resumem a audiências, proporcionar diversão ou despertar meramente emoções como o medo (pela violência física e psicológica), o sentimentalismo e a voluptuosidade, estamos em presença de obras produzidas ao nível do “provincianismo”. As figuras populares das artes, do desporto e da política são necessárias para manter a população em geral num certo estádio de entorpecimento, fazem parte do “véu” que as impede de ver mais além e que impossibilitam a sua libertação. A quase totalidade dos seres humanos está pois impossibilitada de intervir conscientemente no desenvolvimento da civilização. A sua vitalidade é controlada por terceiros e oculta a passividade e subserviência do ser ao “statu quo”.

Assim, no cinema proliferam, quer as comédias vazias, quer os “filmes de acção” onde o movimento e o sangue abundam, quer ainda as mulheres fatais e as ingénuas e inocentes, que encantam e seduzem os espectadores. Nas artes plásticas abusa-se da cor, da performance, da escala, entre outros meios de cativar as multidões.

Na lógica de progresso que domina a sociedade contemporânea a “novidade” é privilegiada. A ideia do novo, do original é assumida como uma necessidade por parte do artista comercial, uma vez que é nela que poderá construir uma carreira. O artista vê-se obrigado a estar plenamente integrado no seu tempo para poder produzir obra. Se houver seriedade por parte do artista, outras questões o preocuparão: para criar obra ele precisa não só de estar presente no seu tempo mas também de estar ausente dele. O salto conseguido na criação é um acto individual que, na maior parte das vezes passará despercebido no meio artístico. A transformação civilizacional efectua-se por um elite cultural que se expressa em níveis de leitura incompreensíveis para as massas. A transmutação realiza-se quase sempre de cima para baixo.

Se o Academismo e os “salões” contribuíram indubitavelmente para a consolidação do actual sistema das artes, a situação complexificou-se acompanhando o dinamismo e concentração das actuais estruturas económicas. Hoje, este mercado movimenta enormíssimas quantias de moeda, sendo a “arte” um dos negócios mais rentáveis. Num quadro desta natureza, aqueles que usufruem materialmente da situação querem-na manter pelo que não farão qualquer tentativa no sentido de alterar o “provincianismo” que domina a sociedade, até porque são eles próprios as suas primeiras “vítimas”. Tal como na época de Fernando Pessoa, a generalidade das pessoas continua a privilegiar questões materiais ou egoístas em detrimento das intelectuais e espirituais.


   

Users' Comments  
 

Average user rating

 


Add your comment
Only registered users can comment an article. Please login or register.

No comment posted



mXcomment 1.0.5 © 2007-2012 - visualclinic.fr
License Creative Commons - Some rights reserved
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >